Pedro do Coutto, Tribuna da Imprensa
O desenvolvimento econômico brasileiro depende diretamente - impossível negar - da produção de energia elétrica. Ela garante o movimento do País, aliás de qualquer país, e assim paralelamente impulsiona o progresso social. Ao criar Furnas, em 1957, portanto há 50 anos, o presidente Juscelino Kubitschek deu a partida para um ciclo de industrialização que não mais se interrompeu. Encontrou uma potência instalada de 3 milhões de KW no País e deixou com 5 milhões. Hoje, encontra-se em torno de 100 milhões de KW, ou 100 mil MW, como acentua "O panorama do setor de energia elétrica no Brasil", uma edição magnífica do Centro de Memória da Eletrobrás.
Se fôssemos ficar no passado, se não tivesse ocorrido a ruptura com o tradicional, o Brasil, como arcaicamente diziam os livros didáticos, ainda seria um país eminentemente agrícola. Furnas, Chesf, Eletronorte, Eletrosul, Itaipu, a maior usina do mundo, que somente daqui a dois anos será superada pela de Três Gargantas, na China, são afirmações nacionais. Expandiram-se enormemente e nem por isso arrasaram a natureza.
As devastações florestais na Amazônia criaram problemas infinitamente maiores e não resolveram questão alguma, ao contrário das hidrelétricas. Agora encontra-se num debate interminável o projeto da construção do Complexo Hidrelétrico de Rio Madeira, em Rondônia, projeto conjunto de Furnas e Odebrecht, portanto parceria público-privada, concluído há mais de três anos. No início de 2004, o presidente da estatal, José Pedro Rodrigues, o encaminhou à Eletrobrás e ao Ministério de Minas e Energia. Foi para o Ibama em busca da respectiva licença ambiental. Não saiu até hoje.
O presidente Lula tem razão em usar a ironia para acentuar seu descontentamento. Afirmou que, se necessário for para a liberação das obras de Santo Antonio e Jirau, vai se dirigir ao papa Bento XVI. O Ministério do Meio Ambiente, cuja titular é a senadora Marina Silva, precisa decidir o problema. Agora, mais de três anos depois, o presidente em exercício do Ibama, Bazileu Alves, revela, como a "Folha de S. Paulo" publicou na edição de 4/05, ter dúvidas quanto ao projeto e, por isso, necessita de mais informações. Informações complementares já foram encaminhadas, mais uma vez, pelo consórcio que elaborou o modelo.
A obra, orçada em 20 bilhões de reais, necessita quatro anos, no mínimo, para ser concretizada. Acrescenta 6,4 milhões de KW ao sistema gerador nacional. Se tivesse sido analisada no prazo razoável, poderia ainda ser inaugurada pelo presidente Lula. Mas isso agora é difícil. Afinal, a licença ambiental não saiu, está para ser aprovada. Se demorar, a obra só em 2011 ou 2012.
Em palestra recente no Clube de Engenharia, José Pedro Rodrigues sustentou que é necessária uma decisão, pois, a seu ver, o setor hidrelétrico é o único caminho. A energia que produz é renovável, não polui, ao contrário das termelétricas. Estas, se forem a gás, igualmente não poluem. Mas há o problema de abastecimento de gás natural em conseqüência das atitudes assumidas pelo governo da Bolívia.
A termeletricidade à base de óleo diesel é altamente poluidora. E a energia nuclear é muito pequena no Brasil. Os dados estatísticos são importantes justamente por isso, são eles que fornecem a dimensão dos assuntos em foco. Inclusive porque ajustam-se ao universo indispensável da relatividade. Relatividade? Einstein, que morreu em 1955, esgotou o tema. Ou quase. Pois a ciência, como tudo na vida, não pára de avançar.
Em nosso País, há uma potência instalada de 100 milhões de KW. Setenta e cinco por cento são de geração hidrelétrica, dezenove por cento cobertos por termelétricas e apenas 3 por cento fornecidos pelas usinas nucleares de Angra 1 e Angra 2. Dentro de um perfil assim, não há como se escolher outro caminho, que não o da hidroeletricidade, para expandir o parque gerador brasileiro.
O crescimento do Produto Interno Bruto depende totalmente do aumento da produção de energia. Uma coisa depende da outra: são inseparáveis. Separáveis são os peixes do Rio Madeira, em Rondônia, e todas as demais espécies da Amazônia. Há muitos anos a pesca está restrita. A restrição está sendo respeitada? Fiscalizada? E o desmatamento? A invasão em busca de ouro de reservas indígenas? Não digo que as metas estejam sendo descumpridas, apenas colocando perguntas de interesse vital da ecologia.
O progresso também é vital para o sistema ecológico. Não fosse assim o universo já teria desaparecido, submerso pelos mares da inércia. Quando se fala em meio ambiente, em ecologia, em preservação, está se falando de desenvolvimento, em aprimoramento cultural, em progresso, enfim. Por isso, o desafio que se coloca não pode ser à base de proibições unilaterais, mas sim de compatibilização de projetos.
Os bagres do Rio Madeira não podem - é claro - obstruir uma obra que vai gerar 6,4 milhões de KW, além de promover uma etapa importante para o desenvolvimento sustentável da Amazônia. Além do mais, o engenheiro José Pedro Rodrigues já explicou que as usinas de Jirau e Santo Antonio não necessitam de reservatório para funcionar.
O reservatório natural (e ambiental) é o próprio rio, perene, cuja lâmina d'água garante a execução do projeto sem agressão à natureza. Um detalhe a mais: sem desenvolvimento, não existe natureza. Ela muda com o progresso. Caso contrário, já teria desaparecido da face da Terra.
O desenvolvimento econômico brasileiro depende diretamente - impossível negar - da produção de energia elétrica. Ela garante o movimento do País, aliás de qualquer país, e assim paralelamente impulsiona o progresso social. Ao criar Furnas, em 1957, portanto há 50 anos, o presidente Juscelino Kubitschek deu a partida para um ciclo de industrialização que não mais se interrompeu. Encontrou uma potência instalada de 3 milhões de KW no País e deixou com 5 milhões. Hoje, encontra-se em torno de 100 milhões de KW, ou 100 mil MW, como acentua "O panorama do setor de energia elétrica no Brasil", uma edição magnífica do Centro de Memória da Eletrobrás.
Se fôssemos ficar no passado, se não tivesse ocorrido a ruptura com o tradicional, o Brasil, como arcaicamente diziam os livros didáticos, ainda seria um país eminentemente agrícola. Furnas, Chesf, Eletronorte, Eletrosul, Itaipu, a maior usina do mundo, que somente daqui a dois anos será superada pela de Três Gargantas, na China, são afirmações nacionais. Expandiram-se enormemente e nem por isso arrasaram a natureza.
As devastações florestais na Amazônia criaram problemas infinitamente maiores e não resolveram questão alguma, ao contrário das hidrelétricas. Agora encontra-se num debate interminável o projeto da construção do Complexo Hidrelétrico de Rio Madeira, em Rondônia, projeto conjunto de Furnas e Odebrecht, portanto parceria público-privada, concluído há mais de três anos. No início de 2004, o presidente da estatal, José Pedro Rodrigues, o encaminhou à Eletrobrás e ao Ministério de Minas e Energia. Foi para o Ibama em busca da respectiva licença ambiental. Não saiu até hoje.
O presidente Lula tem razão em usar a ironia para acentuar seu descontentamento. Afirmou que, se necessário for para a liberação das obras de Santo Antonio e Jirau, vai se dirigir ao papa Bento XVI. O Ministério do Meio Ambiente, cuja titular é a senadora Marina Silva, precisa decidir o problema. Agora, mais de três anos depois, o presidente em exercício do Ibama, Bazileu Alves, revela, como a "Folha de S. Paulo" publicou na edição de 4/05, ter dúvidas quanto ao projeto e, por isso, necessita de mais informações. Informações complementares já foram encaminhadas, mais uma vez, pelo consórcio que elaborou o modelo.
A obra, orçada em 20 bilhões de reais, necessita quatro anos, no mínimo, para ser concretizada. Acrescenta 6,4 milhões de KW ao sistema gerador nacional. Se tivesse sido analisada no prazo razoável, poderia ainda ser inaugurada pelo presidente Lula. Mas isso agora é difícil. Afinal, a licença ambiental não saiu, está para ser aprovada. Se demorar, a obra só em 2011 ou 2012.
Em palestra recente no Clube de Engenharia, José Pedro Rodrigues sustentou que é necessária uma decisão, pois, a seu ver, o setor hidrelétrico é o único caminho. A energia que produz é renovável, não polui, ao contrário das termelétricas. Estas, se forem a gás, igualmente não poluem. Mas há o problema de abastecimento de gás natural em conseqüência das atitudes assumidas pelo governo da Bolívia.
A termeletricidade à base de óleo diesel é altamente poluidora. E a energia nuclear é muito pequena no Brasil. Os dados estatísticos são importantes justamente por isso, são eles que fornecem a dimensão dos assuntos em foco. Inclusive porque ajustam-se ao universo indispensável da relatividade. Relatividade? Einstein, que morreu em 1955, esgotou o tema. Ou quase. Pois a ciência, como tudo na vida, não pára de avançar.
Em nosso País, há uma potência instalada de 100 milhões de KW. Setenta e cinco por cento são de geração hidrelétrica, dezenove por cento cobertos por termelétricas e apenas 3 por cento fornecidos pelas usinas nucleares de Angra 1 e Angra 2. Dentro de um perfil assim, não há como se escolher outro caminho, que não o da hidroeletricidade, para expandir o parque gerador brasileiro.
O crescimento do Produto Interno Bruto depende totalmente do aumento da produção de energia. Uma coisa depende da outra: são inseparáveis. Separáveis são os peixes do Rio Madeira, em Rondônia, e todas as demais espécies da Amazônia. Há muitos anos a pesca está restrita. A restrição está sendo respeitada? Fiscalizada? E o desmatamento? A invasão em busca de ouro de reservas indígenas? Não digo que as metas estejam sendo descumpridas, apenas colocando perguntas de interesse vital da ecologia.
O progresso também é vital para o sistema ecológico. Não fosse assim o universo já teria desaparecido, submerso pelos mares da inércia. Quando se fala em meio ambiente, em ecologia, em preservação, está se falando de desenvolvimento, em aprimoramento cultural, em progresso, enfim. Por isso, o desafio que se coloca não pode ser à base de proibições unilaterais, mas sim de compatibilização de projetos.
Os bagres do Rio Madeira não podem - é claro - obstruir uma obra que vai gerar 6,4 milhões de KW, além de promover uma etapa importante para o desenvolvimento sustentável da Amazônia. Além do mais, o engenheiro José Pedro Rodrigues já explicou que as usinas de Jirau e Santo Antonio não necessitam de reservatório para funcionar.
O reservatório natural (e ambiental) é o próprio rio, perene, cuja lâmina d'água garante a execução do projeto sem agressão à natureza. Um detalhe a mais: sem desenvolvimento, não existe natureza. Ela muda com o progresso. Caso contrário, já teria desaparecido da face da Terra.