sábado, junho 09, 2007

Embrapa alerta para escassez

Ricardo Rego Monteiro , Jornal do Brasil

A demanda mundial por biocombustível já começou a ameaçar a segurança do abastecimento alimentar. Fenômenos como a alta de 75% dos preços do óleo de soja no mercado internacional desde outubro já refletem um cenário de desequilíbrio entre oferta e demanda de oleaginosas, a principal matéria-prima dos biocombustíveis. Autor do alerta, o pesquisador Décio Luiz Gazzoni, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), adverte que governos e empresas precisam buscar alternativas de matérias-primas que poupem as oleaginosas para fins majoritariamente alimentares.

De acordo com o pesquisador, o consumo global de soja projetado para os próximos quatro anos demandará um crescimento de 8% ao ano da oferta de soja do país. Gazzoni questiona, no entanto, a capacidade do produtor brasileiro de atender a essa demanda, devido às dificuldades não só de captação, mas principalmente de licenciamento ambiental.

Como exemplo do impacto potencial do desequilíbrio entre oferta e demanda, Gazzoni cita a distorção provocada pelo crescimento da demanda para o próprio programa brasileiro de biodiesel. Diante do alto consumo de soja para fins energéticos, produtores já ameaçam não entregar a produção contratada pela Petrobras por meio de leilões públicos. Se a promessa for cumprida, o governo corre o risco de não conseguir cumprir a meta oficial de adição de 2% de biodiesel ao óleo diesel consumido no país, prevista para o próximo ano. Na prática, avaliam especialistas, isso representaria o fracasso do programa nacional de biodiesel.

Como forma de pelo menos minimizar os impactos potenciais desse tipo de distorção, o pesquisador também sugere a regulamentação do mercado de biodiesel em fóruns internacionais como a FAO (órgão das Nações Unidas para segurança alimentar), Unctad e a própria Organização Mundial do Comércio (OMC). Esse tipo de medida, segundo Gazzoni, asseguraria a segurança do abastecimento, se associada à busca de alternativas de matérias-primas para fabricação de biodiesel.

Hoje, lembra o pesquisador, todo o estoque mundial de biodiesel daria para abastecer o mercado por, no máximo, 15 dias. Só na União Européia, por exemplo, 84% da área plantada se destina à fabricação de energia. Sem novas fronteiras agrícolas, o continente europeu terá que recorrer prioritariamente a "celeiros" como África e Brasil.

O problema, adverte Gazzoni, é que mesmo com área disponível para novas plantações, o país não dispõe de condições para atender, ao mesmo tempo, às demandas interna e externa.

- É preciso haver maior coordenação das políticas públicas globais voltadas para o biodiesel, porque a soma das partes do todo está maior do que o todo.