domingo, junho 24, 2007

O apagão é um sucesso

Augusto Nunes, Jornal do Brasil

Ao fim de cinco meses de apagão, o presidente da República zangou-se. "Eu quero prazo, dia e hora para a gente anunciar ao Brasil que não vamos mais ter problemas nos aeroportos brasileiros", cobrou Lula do ministro da Defesa, Waldir Pires, durante uma reunião promovida em março no Palácio do Planalto. Bom de conversa e ruim de serviço, o bom baiano mostrou que não pega nem no tranco.

Só na semana passada, 100 dias depois do vigoroso ultimato, Waldir ergueu-se do sarcófago - estacionado, paradoxalmente, numa feira de novidades aéreas promovida na França - para responder à cobrança de Lula. "O problema dos aeroportos não será resolvido antes de um ano", informou o ministro da Defesa.

Com a fisionomia serena de piloto em céu de brigadeiro, Waldir preveniu que a escala no inferno pode não ser tão curta. "Um ano ou talvez mais, porque a solução depende da contratação e treinamento de mais controladores de vôo", ressalvou. Ele sorria como só conseguem sorrir, no oitavo mês do apagão, os clientes preferenciais da frota da FAB.

E os passageiros comuns?, observou um jornalista. Devem seguir o conselho de Marta Suplicy, conformar-se com o estupro e transformar saguões congestionados em templos da gandaia? "A uma mulher bonita e inteligente, qualquer declaração é permitida", desconversou Waldir.

Bonito, isso. Mais bonito, só o espetáculo do crescimento econômico localizado, quinta-feira, no meio dos escombros da aviação civil, pelo ministro Guido Mantega. "Os problemas ocorrem pelo aumento do fluxo, que reflete um pouco o sucesso da economia", anunciou o ministro.

"É a prosperidade do país, é mais gente viajando, mais aviões, mais rotas", festejou o descobridor da face luminosa do apagão. A demanda cresceu, é verdade. Esse fato não autoriza Mantega a estender ao país o painel de encantos e prazeres sugerido pela contemplação do mundo familiar.

Dinheiro é o que não falta na casa do ministro, premiado há semanas com um aumento de salário. Ali reina a prosperidade, sugerem extravagâncias cultivadas pela atriz Marina Mantega. A colunista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, revelou recentemente uma delas. A cada 20 dias, Marina apara as sobrancelhas com o maquiador Cayo Lanza, o mais caro do Brasil.

Por um trabalho que dura 10 minutos, o artista da pinça cobra R$ 110. Um dólar por pêlo extraído - não é coisa para qualquer um. É coisa para filha de ministro. "Pra ficar bonita, tudo compensa", argumenta a dona das sobrancelhas.

Também freguês da Fabtur, é natural que o chefe da família ache que mais gente anda viajando, que as rotas se multiplicam, que sobram aviões. A clientela da empresa não pára de fazer o que os brasileiros comuns só tentam. Em vão.

É o preço do sucesso, ensinou Mantega. O aparente monumento à inépcia é outra prova da competência do governo. Além de relaxar e gozar, portanto, todo passageiro do apagão deve gritar um "viva Lula!" a cada vôo cancelado.

Cabôco Perguntadô
A Justiça paulista decidiu que Flávio Maluf, o primogênito do doutor Paulo, terá de depositar R$ 220 mil por mês na conta da ex-mulher Jacqueline, a título de pensão alimentícia. Impressionado com a cifra (recordista brasileira), o Cabôco têm três perguntas a fazer. Primeira: quanto embolsa mensalmente esse filho de um campeão? Segunda: de onde vem tanto dinheiro? Terceira: o que ainda espera o Congresso para transformar Flávio Maluf no primeiro senador honorário da República brasileira?

Yolhesman Crisbelles
A taça da semana vai para o ministro Gilmar Mendes, vice-presidente do Supremo Tribunal Federal, pelo trecho do texto que justificou o arquivamento do pedido de interpelação proposto pela jornalista Mônica Veloso contra Renan Calheiros:

Não é cabível, quando ausente a demonstração de circunstância ensejadora da ambigüidade no discurso supostamente contumelioso, a obtenção de provas penais pertinentes à definição da autoria do fato delituoso.

Falta assunto ou falta vergonha?
Na segunda-feira, o presidente Lula concedeu aumentos salariais de até 139,75% aos ocupantes de cargos de confiança. Na terça, acrescentou 626 cabides a esse espantoso guarda-roupa onde agora se penduram 22.189 companheiros de fé, 80% dos quais filiados ao PT.

Marco Aurélio Garcia, assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais (e garoto-antipropaganda do Programa Saúde Bucal), não gostou das críticas da imprensa. "Isso é falta de assunto", esbravejou. A Garcia, só falta vergonha.

Uma cabeleira à espera da chuva
Os políticos italianos perceberam que acabara a paciência do povo (e, com ela, a impunidade da bandidagem vip) quando o ex-primeiro-ministro Bettino Craxi foi alvejado por uma chuva de moedas à saída de um hotel em Milão. Que tal importar o método e começar a fase de testes com o suplente de senador Wellington "Bom Cabelo" Salgado (PMDB-MG), sargentão da tropa de choque de Renan Calheiros?

Como é homem rico, a nuvem da tempestade reservada a Salgado será formada só por moedas de 5 centavos.

O número 2 é um perigo
Pai da idéia de alojar no primeiro escalão o agora ministro Roberto Mangabeira Unger, o vice-presidente José Alencar acredita que prestou um relevante serviço à nação. "Faz 40 anos que esse homem dá aulas em Harvard, a melhor universidade do mundo", admira-se o número 2. "Meu sonho era ser professor na minha cidade. Nem isso consegui".

No Brasil, o que é ruim sempre pode piorar. Toda vez que Alencar abre a boca, os mais ferozes adversários do presidente da República desejam longa vida a Lula.