Editorial do Jornal do Brasil
Soou meio déjà vu o discurso grave e solene do comandante da Aeronáutica, brigadeiro Juniti Saito, anunciando as duras medidas adotadas pela força para conter a disseminação do movimento dos controladores de vôo. Prisões, reforços de pessoal e equipamento, novas rotas aéreas para o Nordeste e para os vôos até os Estados Unidos e a Europa, nada disso é novo. Já havia sido anunciado como solução quando do espasmo anterior de insubordinação nos radares de Brasília.
Com mais de 1.200 vôos prejudicados em dois dias de enorme confusão, o brigadeiro empenhou a solenidade da farda ao prometer a passageiros tratados como gado que sob seu comando a ordem seria restabelecida e a dignidade de todos, resgatada. Embora tal oferecimento deva ser recebido com satisfação, não deixa de gerar a impressão de que não se teria chegado a este ponto se o presidente Lula, o ministro da Defesa e os inúteis burocratas da Anac tivessem deixado a cargo dos militares a gestão dessa crise. A questão, no entanto, é que, sem a fratura exposta, a nação também não ficaria sabendo das limitações e inconsistências do modelo centralizado na caserna.
Achar que o calvário interminável é uma lição positiva é ir mais longe do que a prudência e o bom senso recomendam. Nada justifica ou remedia o maior dos prejuízos provocados pela insubordinação de militares cooptados pelo sindicalismo. Perdemos a confiança, nós aqui no Brasil e os estrangeiros nos olhando de fora, no sistema como um todo.
São quase 10 meses sem que nenhum prejudicado tenha sido ressarcido dos prejuízos pessoais e profissionais que a incúria gerencial proporcionaram. As empresas aéreas, cuja culpa é semelhante, querem que o governo pague o prejuízo dos vôos cancelados, das despesas extras e da imagem comercial. Na prática, como essa entidade vive do dinheiro dos contribuintes, serão os próprios passageiros os encarregados de quitar a conta, se isso acontecer.
O futuro da aviação comercial brasileira, diante do quadro atual, depende do que vai ocorrer durante os Jogos Pan-Americanos. Vale lembrar que a competição no Rio ocorre em um mês de férias, ou seja, com o setor aéreo aquecido, e deve atrair milhares de passageiros, aeronaves e muito mais carga extra ao país. Este segmento, por sinal, não tem a mesma visibilidade que o de passageiros, mas trafega e usa os mesmos equipamentos em terra e no ar, e está igualmente perto do colapso - no ano passado, cresceu 11% contra 5%.
O dado ruim é perceber que, tantos discursos depois, o estrago já tenha sido feito por terem se tornado rotina. Os três últimos dias carimbaram isso no retrato desbotado que ilustra a capacidade de gerenciar o fluxo do transporte mais estratégico para qualquer Estado.
Felizmente, o discurso de Saito não teve o componente comum aos seus colegas no ministério Lula. Foi grave e solene, mas não amalucado. Não atribuiu a desgraça de consumidores à prosperidade da era do PT. Nem exortou a todos para que transmutassem o desconforto indignado em verbetes do Kama Sutra.
É consolador o silêncio oportuno do presidente Lula. Sua exigência de dia e hora para que a crise fosse encerrada foi desmoralizada pelos sargentos do Cindacta 1, pelos ministros e por aberrações como o aeroporto com 10 controladores e radares em São Paulo, onde nada pousa há quatro anos. Ou ainda o sumiço do presidente da Agência Nacional de Aviação Civil. Só se soube dele por ter tentado embarcar driblando as agruras que impõe se valendo dos próprios funcionários.
Certos estão os passageiros que, largados em Cumbica, cantavam: "Que país é esse?"
Soou meio déjà vu o discurso grave e solene do comandante da Aeronáutica, brigadeiro Juniti Saito, anunciando as duras medidas adotadas pela força para conter a disseminação do movimento dos controladores de vôo. Prisões, reforços de pessoal e equipamento, novas rotas aéreas para o Nordeste e para os vôos até os Estados Unidos e a Europa, nada disso é novo. Já havia sido anunciado como solução quando do espasmo anterior de insubordinação nos radares de Brasília.
Com mais de 1.200 vôos prejudicados em dois dias de enorme confusão, o brigadeiro empenhou a solenidade da farda ao prometer a passageiros tratados como gado que sob seu comando a ordem seria restabelecida e a dignidade de todos, resgatada. Embora tal oferecimento deva ser recebido com satisfação, não deixa de gerar a impressão de que não se teria chegado a este ponto se o presidente Lula, o ministro da Defesa e os inúteis burocratas da Anac tivessem deixado a cargo dos militares a gestão dessa crise. A questão, no entanto, é que, sem a fratura exposta, a nação também não ficaria sabendo das limitações e inconsistências do modelo centralizado na caserna.
Achar que o calvário interminável é uma lição positiva é ir mais longe do que a prudência e o bom senso recomendam. Nada justifica ou remedia o maior dos prejuízos provocados pela insubordinação de militares cooptados pelo sindicalismo. Perdemos a confiança, nós aqui no Brasil e os estrangeiros nos olhando de fora, no sistema como um todo.
São quase 10 meses sem que nenhum prejudicado tenha sido ressarcido dos prejuízos pessoais e profissionais que a incúria gerencial proporcionaram. As empresas aéreas, cuja culpa é semelhante, querem que o governo pague o prejuízo dos vôos cancelados, das despesas extras e da imagem comercial. Na prática, como essa entidade vive do dinheiro dos contribuintes, serão os próprios passageiros os encarregados de quitar a conta, se isso acontecer.
O futuro da aviação comercial brasileira, diante do quadro atual, depende do que vai ocorrer durante os Jogos Pan-Americanos. Vale lembrar que a competição no Rio ocorre em um mês de férias, ou seja, com o setor aéreo aquecido, e deve atrair milhares de passageiros, aeronaves e muito mais carga extra ao país. Este segmento, por sinal, não tem a mesma visibilidade que o de passageiros, mas trafega e usa os mesmos equipamentos em terra e no ar, e está igualmente perto do colapso - no ano passado, cresceu 11% contra 5%.
O dado ruim é perceber que, tantos discursos depois, o estrago já tenha sido feito por terem se tornado rotina. Os três últimos dias carimbaram isso no retrato desbotado que ilustra a capacidade de gerenciar o fluxo do transporte mais estratégico para qualquer Estado.
Felizmente, o discurso de Saito não teve o componente comum aos seus colegas no ministério Lula. Foi grave e solene, mas não amalucado. Não atribuiu a desgraça de consumidores à prosperidade da era do PT. Nem exortou a todos para que transmutassem o desconforto indignado em verbetes do Kama Sutra.
É consolador o silêncio oportuno do presidente Lula. Sua exigência de dia e hora para que a crise fosse encerrada foi desmoralizada pelos sargentos do Cindacta 1, pelos ministros e por aberrações como o aeroporto com 10 controladores e radares em São Paulo, onde nada pousa há quatro anos. Ou ainda o sumiço do presidente da Agência Nacional de Aviação Civil. Só se soube dele por ter tentado embarcar driblando as agruras que impõe se valendo dos próprios funcionários.
Certos estão os passageiros que, largados em Cumbica, cantavam: "Que país é esse?"