quarta-feira, julho 11, 2007

Bebendo todas

Luiz Antonio Ryff, NoMínimo

Enquanto no Brasil o etanol é visto como o pote no final do arco-íris por governo e empresários, na Rússia é praticamente o oposto. E por motivos diferentes. Por aqui há a expectativa de que o produto se popularize mundialmente como um combustível alternativo ao petróleo. Já na Rússia…

Uma pesquisa feita no país revelou que metade das mortes de homens em idade de trabalho está associada ao consumo de álcool, que lá é tomada como água – literalmente, já que o nome da bebida nacional, a vodka, é “aguinha”.

O problema afeta toda a Europa, particularmente o leste. Mas, na Rússia, o governo considera a situação uma catástrofe nacional. O alcoolismo é apontado como um dos principais fatores para que os homens por lá tenham uma expectativa de vida baixíssima, comparada a das mulheres – uma média de 59 anos contra 72 anos, uma das mais baixas entre os países industrializados. Por conta disso, e da baixa taxa de natalidade, a população na Rússia vem diminuindo cerca de 700 mil por ano.

Segundo dados de 2005, 72% dos homicídios e 42% dos suicídios têm alguma ligação com alcoolismo. E no inverno é comum encontrar nos jornais histórias de bêbados que morreram congelados na neve, após quedas ou escorregadelas.

Os cientistas da London School of Hygiene and Tropical Medicine analisaram a causa mortis de 1.750 homens de 25 a 54 anos ocorrida entre 2003 e 2005 em Izhevsk, na região dos montes Urais. Ela foi escolhida por ser uma típica cidade industrial, onde as taxas de mortalidade estão na média nacional.

Na pesquisa, até familiares foram entrevistados para analisar os hábitos de consumo dos parentes mortos. Descobriram que abuso do álcool foi a causa de 43% dessas mortes. Os dados foram comparados com a de 1.750 homens ainda vivos.

O pior é que nem tudo o que os russos sorvem às talagadas é vodka, cerveja ou qualquer outra coisa apropriada para ser ingerida. Há um rol esdrúxulo que inclui loção pós-barba, perfume, produtos de limpeza, tinturas médicas… São produtos baratos, vendidos em farmácias, e que contém até 97% de álcool – nível mortal para consumo.

Uma embalagem de 100ml de Hawthorn, uma tintura popular, tem mais de 90% de álcool e pode ser comprada por 15 rublos (pouco mais de R$ 1), enquanto a garrafa de 700 ml da vodka mais barata, com 40% de álcool, é vendida por cinco vezes mais.

Aqueles que ingerem álcool dessa forma pouco ortodoxa têm nove vezes mais chance de morrer do que os outros. O mais triste é que essa opção está ligada à situação social e financeira. Entre os que consomem esses produtos, 47% estão desempregados – enquanto aqueles que ficaram só na vodka e na cerveja o índice cai para 13%. Para esses coitados, todo dia é zeca-feira…