terça-feira, março 22, 2011

E o governo invade a Vale

Comentando a Notícia


Não é de hoje que esta pedra está sendo cantada: o governo praticamente oficializou junto ao Bradesco, sua decisão de remover do comando da Vale o senhor Roger Agnelli.

Segundo se diz, Dilma pretende colocar no comando de uma empresa PRIVADA, alguém de confiança do GOVERNO.

Seria cômico não fosse o Brasil um país que adora andar na contramão do bom senso. Seja a intromissão estúpida uma vingança contra o senhor Agnelli, que vem sendo urdida desde 2008, ainda no governo Lula, ou apenas uma forma de intervenção contra o processo de privatização da companhia, que tirou dos apetites dos cretinos milhares de vagas e bocas ricas, a verdade é que o Bradesco poderia ensinar algumas regrinhas ao governo Dilma de decoro por exemplo.

Não há uma única justificativa para esta pressão imbecil. Em todos os ângulos que se for analisar, o comportamento da Vale pós privatização foi exemplar, e sob o comando privado tornou-se talvez a maior mineradora do mundo, gerando milhares de novos empregos, bilhões em arrecadação de impostos e divisas, afora os bilhões de reais em investimentos que atraiu . Desde que passou ao controle privado, a empresa apenas cresceu e prosperou.

Sinceramente, são ações destrambelhadas como essa que tornam o país menor, mais embusteiro, mais provinciano, mais atrasado. Já é demasiado o espaço que o Estado ocupa na economia, como também é sufocante a extorsão em impostos e contribuições que pratica sobre empresas e trabalhadores. Não é preciso ainda invadir o terreno privado para intrometer-se na gestão empresarial. Será que não há coisas mais importantes que estão a cobrar do governo melhor gestão? Será que todas as estatais estão sendo geridas dentro dos princípios da boa administração? Será que todas são tão lucrativas para o país como tem sido a Vale?

E os serviços públicos a cargo do Estado, estão todos sendo oferecidos à sociedade de forma plena, digna e decente, sem corrupção e desvios, cumprindo religiosamente os deveres constitucionais a que estão sujeitos?

Este desvio de conduta do governo Dilma Presidente é um péssimo sinal. Demonstra o apreço que o governo não tem pela liberdade da atividade empresarial. Não é por aí que se atrairá os necessários investimentos que o país precisa tanto, pelo contrário.

Texto de David Friedlander, no Estadão:

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Depois de dois anos de bombardeio pela imprensa, o governo pediu pela primeira vez ao Bradesco, de forma direta, o cargo de Roger Agnelli, presidente-executivo da Vale. Foi na última sexta-feira, numa conversa entre o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o presidente do Conselho de Administração do Bradesco, Lázaro Brandão. O banco, por meio da Bradespar, é um dos principais acionistas da empresa.

O objetivo da conversa foi oficializar a intenção do governo de trocar Agnelli e iniciar a negociação em torno de um nome para substituí-lo. Dentro do banco, havia a ideia de, não sendo possível manter o executivo, organizar um processo de transição. A ideia de Mantega, no entanto, é combinar tudo agora e fazer a troca na assembleia de acionistas da Vale marcada para abril.

O ministro também disse que o governo ainda não teria preferência por um eventual substituto e propôs ao Bradesco discutir nomes de executivos de fora ou mesmo da atual diretoria. Brandão ficou de discutir o processo dentro do banco.

Procurados oficialmente e informados do assunto, Bradesco, Mantega e Agnelli preferiram não se pronunciar. A assessoria de imprensa do Ministério da Fazenda disse apenas que o ministro Guido Mantega conversa com o Bradesco sempre que necessário.

Influência. Embora a Vale tenha sido privatizada em 1997, o governo exerce influência na companhia por meio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e de fundos de pensão de empresas estatais liderados pela Previ (dos funcionários do Banco do Brasil), que são acionistas da mineradora. Junto com a Bradespar (empresa de participações ligada ao Bradesco) e da trading japonesa Mitsui, eles controlam a Vale.

O governo nunca assumiu a intenção de trocar Agnelli, que era próximo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva até a crise de 2008. A fritura do executivo vinha sendo feita por meio de mensagens anônimas, antes atribuídas a Lula e agora à presidente Dilma Rousseff, dando conta do desconforto do Planalto com o comportamento de Agnelli na Vale.

De acordo com essas versões, o governo quer na Vale alguém mais alinhado com seus interesses e disposto a seguir uma programação planejada por Brasília. Numa comparação frequente, o governo gostaria que a Vale, maior produtora de minério de ferro do mundo e segunda maior mineradora do planeta, seguisse o exemplo da Petrobrás - embora a mineradora seja empresa privada, de capital aberto e milhões de acionistas.

Atritos
Perto dos dez anos na presidência da Vale, Agnelli teve acesso privilegiado aos gabinetes mais importantes de Brasília durante boa parte do governo Lula. Os ventos mudaram de lado na crise global de 2008, quando a Vale demitiu funcionários e suspendeu alguns investimentos - justamente no momento em que Lula dizia que a crise internacional era uma “marolinha” e não afetaria o Brasil.