Adelson Elias Vasconcellos
Sobre a visita de Obama, sinceramente, não há muito a dizer. Os analistas, de um lado e outro, esgotaram todos os pontos e os pingos para registrar a visita e as consequências que elas poderão gerar tanto para americanos quanto brasileiros.
Mesmo que possa resvalar no lugar comum dos comentários, destaco algumas coisinhas: a primeira, o objetivo com que Obama encarou esta visita ao Brasil. Estreitar laços para ampliação de negócios de interesse dos americanos. Durante o tempo que aqui esteve, não se ouviu do presidente americano nenhuma referência à pretensão brasileira de um lugar permanente no Conselho de Segurança da ONU, ao contrário, por exemplo, do compromisso ou recomendação que fez em relação à Índia.
Pouco antes de sua chegada, o Brasil se abstivera de votar sanções à Líbia. E se novas votações houver em que se esteja julgando regimes autoritários e tiranos mundo afora, o Brasil, como tem sido praxe desde 2003, sempre ficará a favor das tiranias, mandando para o espaço os tais direitos humanos.
E isto não é recomendável aos olhos dos americanos. Por isso, a reserva de Obama em relação tema.
Outro detalhe, mas que não chega a ser surpresa alguma, foi a ausência de Lula no almoço oferecido aos ex-presidentes brasileiros. Numa ocasião em que o ex não poderia ser a estrela do show, cumprir papel de coadjuvante não cai bem ao orgulho de Lula. Daí porque sua ausência, sua falta de educação, e até sua falta de espírito público. Mais do que nunca, o “cara” precisaria de tratamento psicológico para entender que o mundo não gira em torno de sua pessoa.
Outro ponto, queria destacar estes novos tempos de mediocridade que infesta o Brasil. Em nenhum momento de seus discursos, Obama elevou a categoria de valor, a cor de sua pele. Destacou copisas como trabalho, amor, esforço pessoal e igualdade de oportunidades que um país democrático é capaz de oferecer. Seria nada além do óbvio não fossem os próprios brasileiros, terminada a reunião no Teatro Municipal a destacarem este aspecto.
Por fim, classifico a visita menor do que poderia ter sido. Ir ao Rio fazer turismo, até aí tudo bem. Mas o motor do país é São Paulo, o país é uma plena quase plena, poderia ter ido ao Congresso, mas tais visitas ficaram devendo. Pode ser que as negociações abertas em abertas em Brasília, deem um novo e necessário impulso ao relacionamento entre Brasil e Estados Unidos. Mas esta uma oportunidade para termos avançado bem mais em questões econômicas, por exemplo. Assim, e apesar das palavras elogiosas nos discursos e das boas intenções demonstradas entre sorrisos, creio que a parceria “estratégica” entre as duas nações está mais cheia de diferenças e desconfianças de parte a parte, do que de avanços em negócios benéficos para os dois lados, principalmente, para o Brasil, carente de investimentos em muitas áreas prioritárias além de alta tecnologia. Oportunidades como estas não surgem todo o dia. Não podemos nos dar ao luxo de desperdiçá-las só para mostrarmos o quanto somos diferentes. Diferenças existem, sim: eles são ricos, e nós, pobres. E, sem abdicar de nossa autonomia e independência, é possível nos aproveitarmos desta parceria com os americanos muito mais do que, aparentemente, o governo petista está disposto.
Precisamos amadurecer rapidamente nestas “visitações” de mandatários de um país a outro. Agora foi com Obama. Deveríamos ter concedido os dois dias da visita a negociar questões econômicas pendentes e abrir oportunidade em favor do país. Deixamos um dia, metade do tempo, para turismo.
Em sua primeira visita internacional Dilma foi à Argentina. Boa parte do tempo foi gasto em questões de pura fantasia e delírio. Na semana passada, contudo, repetindo o comportamento delinquente que vem mantendo já há alguns anos, os hermanos impuseram novas barreiras à importação de produtos brasileiros. Desta vez, foram calçados e tratores. Ou seja, não sei o que Dilma tratou com Christina Kirchner. Mas estas barreiras era uma das questões que a agendados encontros deveria ter priorizado. Pelo visto, foi outra oportunidade desperdiçada.
Convenhamos, no campo das relações bilaterais, nas quais deveríamos priorizar a abertura de mercados e atrair investimentos, ainda não saímos do jardim de infância.
Uma subcultura que nos diminui –
Um dos jornalistas que mais admiro é Reinaldo Azevedo. É dele um texto – excelente e oportuno – que tem revirado a internet com uma fúria insana e estúpida. Reinaldo criticou que o Brasil tenha submetido a Família Obama, em sua passagem pelo Rio de Janeiro, a duas sessões de capoeira, como se tais exibições pudessem elevar o povo brasileiro a um andar superior dentre as nações do planeta.
A crítica do jornalista é oportuna sim e, mesmo aqueles que discordam, deveriam antes se ater ao que foi escrito e criticado e, dentro do contexto, arrolarem suas opiniões contrárias.
Porém, no Brasil destes tempos de insensatez, onde a divergência e a diferença são enxotadas lomba abaixo, discordar do fascismo dos “politicamente corretos” merece ser chicoteado em praça pública, ser desqualificado e humilhado e, se pudessem, ser expulso do país.
Ora, antes mesmo de sair dos Estados Unidos em direção ao Brasil, Obama, para defender-se dos que o criticavam pela data da viagem ser em um momento ruim – Japão, Líbia e Oriente Médio – defendeu-se dizendo que ia em busca de oportunidades de negócios em favor da geração de empregos para o país. Aqui, o Brasil tão carente de tecnologia e investimentos no curto prazo, com questões graves a discutir como a taxação do etanol, do suco de laranja, dos laminados de aço, etc, além da questão do algodão ainda pendente, deveríamos como digo acima, ter aproveitado a visita para esgotar estas questões, ao invés de dedicar um dia inteiro para exibição de valores culturais. Nada contra a capoeira, mas por que ela deve ser oferecida em sessão dupla para o presidente americano que aqui veio para tratar de negócios? Está na hora do Brasil ser grande e maduro não apenas nos discursos, mas também nas ações. Até porque capoeira é nossa única manifestação cultural com sangue de brasilidade. Tais expressões dizem muito mais da África do século passado do que do Brasil do século XXI.
Há alguns dias atrás publiquei aqui um estudo dando conta de que os negros brasi9leiros tem seu DNA muito mais europeu do que africano, como considero um atraso este debate de cor de pele ser moeda de valor para agraciar uns e penalizar outros. O que conta no indivíduo é sua cor, e sim seu caráter, e isto independe da coloração. Há bons e maus em todos os gêneros e cores.
Se é para mostrar o quanto evoluímos como país, o melhor que se tinha a fazer era sentar do outro lado da mesa e ali colocar em debate as diferenças de tratamento dos americanos em relação aos nossos produtos. Era mostrar e oferecer aos americanos as ricas oportunidades de negócios que o Brasil tem para oferecer. Era abrir uma imensa janela de oportunidades para que seus empresários pudessem investir aqui dentro favorecendo nosso desenvolvimento. Perder metade do tempo com espetáculos dançantes só serviu para mostrar o quanto ainda precisamos nos despir dos vês do colonialismo cultural. Faltou, neste quesito, submeter a família Obama a um ritual de pajelança indígena. Afinal, os índios estão aqui há mais tempo do que os negros.
