Adelson Elias Vasconcellos
Dilma concedeu, pela primeira vez desde que assumiu, uma longa entrevista a um jornal, Valor Econômico, através do qual é possível conhecer o seu pensamento. Se durante a campanha, dona Dilma já fazia afirmações assustadoras sobre questões econômicas, agora, investida no cargo, certas “ideologias” e “conceitos” ou precisam ser revistos, ou, na dúvida, que nada diga em relação a certas coisas.
A entrevista é bastante longa para ser reproduzida. Como de hábito, prefiro apanhar o essencial e discorrer sobre ele.
Não foi à toa que, durante a campanha, Dilma precisou ser socorrida várias vezes a cada declaração que manifestava. Como também não é por outra razão que tem se mantido quase muda nestes primeiros meses de governo: Dilma não consegue emitir conceitos, principalmente na área econômica, que façam um mínimo sentido. Atropela a intenção de fazer com a possibilidade de poder fazer.
Começo pela confusão que a presidente fez em relação a medidas de controle da inflação. E começo por perguntar de quem é a culpa pelo surto observado no país de um ano para cá? Dos empresários maus, que resolveram, sem mais nem menos, tornarem-se inimigos do desenvolvimento? Dos trabalhadores que insistem em obter ganhos maiores em seus salários? Dos consumidores que passaram a preferir comprar apenas os produtos mais caros?
Ora, quem embalou o crescimento de 7,5% do PIB em 2010 foi o próprio governo do qual Dilma dividiu o palanque. Nem mais nem menos. E o objetivo pela gastança desenfreada, com amplo leque de medidas para expansão do consumo interno, foram obras do governo de que participou, buscando vencer as eleições de 2010. Esta maldade inflacionária desceu do Planalto feito enxurrada apenas com o propósito eleitoral. Nada além disto. Citem uma única grande reforma patrocinada pelo governo Lula que tivesse por meta afastar os entraves de um crescimento sustentável?
Nada. Tudo foi caso pensado para que a explosão de “boas notícias” na área econômica eclodisse na maré vermelha do pleito de 2010. Esqueceram apenas que um dia a conta seria apresentada ao distinto público eleitor-contribuinte. Agora, precisamos refazer o caminho e isto tem um custo que Dilma parece não ter se dado conta ou, se sabe, não quer confessar para não mexer no mito do governo anterior.
Ou bem uma coisa ou outra: ou se dá a devida importância ao equilíbrio fiscal, ou seja se gasta no exato limite do que se arrecada, ou a estabilidade econômica duramente conquistada irá para o espaço.
Assim, medidas restritivas ao crédito, elevação de juros ao consumidor e do compulsório dos bancos, forçam o consumo a se manter numa camisa de força que provocará, evidentemente, redução no ritmo de crescimento. Redução dos gastos públicos como anunciado, com corte de 50 bilhões, só pelo anúncio não se obterá o efeito desejado. É preciso podar despesas e investimentos. E isto forçará obrigatoriamente a redução do ritmo de crescimento.
Agora como acreditar que este governo tenha uma postura séria em relação ao equilibro fiscal quando, ao lado do corte, se anuncia expansão dos gastos no mesmo nível, com uma injeção de 55 bilhões no BNDES?
Ora, a questão central ainda é, ao meu ver, o diagnóstico equivocado e de palanque puramente eleitoral que o governo tem feito sobre as causas da inflação presente. Parece-me que Dilma tem certo receio de que a leitura correta dos diferentes fatores que alimentam a inflação, vá lhe tirar votos preciosos. É preciso ser mais sensato nesta leitura, e ver que uma das causas – porque a inflação se alimenta de diferentes causas – é sim o excesso de gastos públicos alimentando a demanda interna. Restringir a demanda interna não se faz apenas pela restrição ao crédito por parte dos consumidores na iniciativa privada. Se faz, também, pelo lado de menor gasto público e isto, necessariamente, obriga que o governo corte investimentos. Não dá é para manter o ritmo atual sem inflação, apenas jogando-se pelo lado mais fácil.
O governo precisa modernizar e atualizar seu pensamento. Quando se combate a inflação, é preciso primeiro enxergar TODOS os motivos que a alimentam. A gastança pública não pode ser esquecida. O governo é parte do problema sim, e DEVE ser, também, parte da solução. Enquanto no país tal leitura foi ignorada, o que se viu foram planos mirabolantes resultarem com o agravamento da inflação e todos os males sociais que ela nos causou por vinte anos. Foi a partir do Plano Real, com o equilíbrio das contas públicas, que o País pode enfim recuperar sua saúde econômica e voltar a crescer.
Até mesmo durante o governo Lula, várias foram as advertências que fizemos no sentido de que a obra da estabilidade não estava de todo pronta. Precisávamos avançar nas reformas faltantes para criar as condições necessárias para um crescimento sustentável de longo prazo. Contudo, o que se viu antes, e como agora parece querer desenhar-se, é que se tenta manter o que já se tem, mesmo diante de novas exigências, apenas para lustrar uma competência de governo com vistas a ele se manter em poder do mesmo partido.
Antes, o mundo exterior empurrou o Brasil e, de certa forma, ainda nos impulsiona pelo aumento da demanda por commodities. Mas o ritmo frenético de antes não se repete mais. Neste sentido, precisamos dar continuidade às reformas que ainda nos faltam. Reforma política é importante? Claro que é, mas não é a prioridade das prioridades. Onde estão as reformas previdenciária e tributária? De outro lado, a expansão dos gastos públicos, com o aumento do tamanho do Estado não pode se dar em velocidade maior do que o crescimento do PIB, ou fora dos limites do razoável, como, da mesma forma, não se pode alargar o lado das despesas de forma tão irresponsável. E isto tem sido praxe desde 2003. A estabilização é base do crescimento. Esta lição aprendemos duramente ao longo de décadas de desmandos. E ela não acontece por acaso. Exige dos governantes disciplina e responsabilidade nos gastos. A ambição política não pode tomar lugar da racionalidade econômica e em limites suportáveis do país, sob pena e risco do retrocesso doentio que nos custou anos de atraso e subdesenvolvimento.
O mais prudente, portanto, seria dona Dilma descer do palanque e se concentrar no Brasil real, nas suas dificuldades e necessidades presentes. Não é possível fazer tudo a um só tempo. Esta escada deve ser subida degrau a degrau, para se chegar ao topo sem sustos nem tropeços.
Sendo assim, e tomando-se por base os conceitos emitidos por Dilma Presidente na entrevista, o governo chegou a um ponto em que dos dois caminhos abertos a sua frente, terá que optar para seguir apenas por um. Ou o governo opta por dar continuidade ao seu projeto de poder e esquece de vez o caminho da governança com estabilidade, e lá adiante pague o preço político que vai lhe custar, ou escolhe este último também com custo político, porém com imensos benefícios para toda a sociedade. A lembrar dona Dilma em seus programa de culinária na TV, não se faz omelete sem quebrar os ovos. Portanto, sem contenção de gastos, sejam correntes ou de investimentos, não se conseguirá sustentar a estabilidade atual. O grande problema do grupo petista no poder, é que não foi ele quem pagou o preço político das reformas impostas pelo Plano Real. Recebeu o prato pronto e servido. Agora, diante da dificuldade, que é muito mais oriundo de questões internas, não consegue encontrar o caminho da racionalidade. Para que tal seja possível, o passo inicial é desenhar o diagnóstico correto que, segundo se depreende pelos conceitos expostos por Dilma em sua entrevista, está muito longe de ser feito.
Na reportagem que abaixo reproduzimos informa-se que as contas públicas desandaram em fevereiro. Pelo terceiro mês consecutivo, a atividade industrial segue lomba abaixo e o emprego da indústria segue estagnado. Fechar os olhos para esta realidade, com o doce encanto de que se produzirá o milagre de estancar a inflação, mantendo o ritmo de gastos, com as contas públicas desandando e a atividade e o emprego industrial em declínio fruto da forte valorização da moeda, é delírio supremo.
Repito: as condições da economia mundial mudaram e não se tem perspectiva de, no curto prazo, voltar ao ritmo pré-crise. Internamente, há uma série de indicadores alertando para as dificuldades e cobrando do governo ações mais rápidas sob pena e risco de se perder o controle tanto do equilíbrio fiscal quanto do próprio desenvolvimento. Assim, é bom que Dilma Presidente desça logo do palanque, a passe a governar com a seriedade que o momento exige. Ou trate de comprar um bom livro de economia. Uma boa leitura lhe fará bem, e o Brasil sairá no lucro se souber aplicar os ensinamentos.