Janaína Figueiredo
O Globo
Projeto que prevê a expropriação da petrolífera espanhola Repsol-YPF será votado no Senado nesta quarta-feira
BUENOS AIRES — Depois de ter anunciado a expropriação de 51% da Repsol-YPF, projeto que será votado pelo Senado argentino na quarta-feira (25), o governo da presidente Cristina Kirchner está concentrado em conseguir sócios privados para a nova companhia estatal de petróleo do país. Depois de ter conversado semana passada com a Petrobras e a Total, segunda-feira, o ministro do Planejamento, Julio De Vido, junto com o parceiro no comando da intervenção da YPF, o vice-ministro da Economia, Axel Kicillof, se reuniram com representantes da Exxon, Chevron e Apache. A estatal chinesa Sinopec também estaria na lista de possíveis interessados que está sendo estudada pelo governo argentino.
A estratégia da Casa Rosada foi considerada previsível pelo ministro das Relações Exteriores da Espanha, José Manuel Garcia-Margallo, que descartou a possibilidade de que a YPF e o governo argentino possam financiar as dívidas da empresa e futuros investimentos sem a ajuda de novos aliados no setor privado.
— Nos próximos cinco meses os vencimentos da YPF atingem US$ 1,6 bilhão — lembrou o ministro espanhol.
Segundo ele, “não parece estranho pensar que o governo argentino esteja procurando um sócio a quem vender o que foi expropriado à Repsol”.
— Nesse caso, teríamos sido expropriados para sermos substituídos por outro parceiro privado — disse Garcia-Margallo.
Em seu discurso do último dia 16 de abril, a presidente argentina antecipou sua decisão de realizar joint ventures entre a nova YPF e empresas nacionais e estrangeiras que estejam interessadas em associar-se com a estatal argentina. Esse foi um dos recados levados por De Vido sexta passada às autoridades da Petrobras, em Brasília. Domingo à noite, os interventores da YPF divulgaram uma nota na qual informaram que a empresa precisa “gerar novos investimentos que permitam aumentar a produção de gás e petróleo do país”.
A falta de investimentos e de uma política energética eficiente provocaram uma grave crise energética que vem sendo denunciada por especialistas há mais de cinco anos, mas só foi reconhecida pelo governo no dia em que Cristina comunicou a expropriação da Repsol-YPF. Entre 2003 e 2011, as reservas de petróleo do país recuaram 6% e as de gás despencaram 41%. No mesmo período, a produção de petróleo caiu 18% e a de gás 7%, segundo dados do Instituto Argentino de Energia (IAE).
Segundo o jornal “El Cronista”, o governo Kirchner pretende selar acordos com empresas privadas que permitam anunciar, no curto prazo, investimentos por um total de US$ 15 bilhões. De acordo com o diário argentino, muitos dos projetos já estavam sendo conversados com a Repsol e, no entanto, seriam apresentados pela Casa Rosada como inéditos. Muitos estariam relacionados à exploração de gás não convencional, uma das grandes apostas do governo Kirchner.
Depois de ser aprovado no Senado, com o voto até mesmo do senador e ex-presidente Carlos Menem (1989-1999), autor da privatização da Repsol-YPF, o projeto de expropriação da empresa será votado na Câmara semana que vem. Em ambas as casas,o governo contará com o apoio de sua bancada majoritária e, também, de parte da oposição que considera necessário recuperar recursos estratégicos do país.
******COMENTANDO A NOTÍCIA:
Toda e qualquer nação tem direito de nacionalizar empresas privadas instaladas em seu território. É do jogo. Mas há regras, e uma delas diz respeito a justa indenização. Outra, é que se crie e se aprove primeiro uma lei que estabeleça os limites em que a nacionalização irá ou poderá acontecer. No caso da YPF, o governo autoritário da Argentina não fez nada disso. Agiu dentro do mais puro populismo e totalitarismo. Tanto é assim que o ato de dona Cristina Kirchner foi imediatamente condenado pela comunidade internacional.
Pois bem: sabem os argentinos que seu governo não tem recursos suficientes para reverter o atual quadro pelo qual aquele país de exportador passou a importador de combustíveis. É a lógica do mercado. Tanto a presidente manipulou os preços internos que acabou inviabilizando a produção.
Agora, depois da patacoada com a espanhola Repsol, fica a pergunta mágica: quem será o estúpido que se aventurará em aceitar o “convite” da Argentina para investimentos numa empresa cuja gestão é manipulada de forma arbitrária por um governo autoritário?
Claro que não faltará à presidente Kirchner um Hugo Chavez maluco qualquer capaz de acenar com a sua PDVSA. Mas investidor privado nenhum, ao menos neste momento nebuloso, perderá o juízo torrando seu dinheiro na agora estatal YPF.
Em tempo: conforme vimos no post anterior, o banco Itaú pode ter de arcar com um prejuízo monstro de US$ 280 milhões. É de se perguntar se o governo brasileiro não atuará junto ao governo de Cristina Kirchner em defesa do interesse do país, ou este será mais um capítulo de abandono do interesse brasileiro em favor do interesse dos outros?
