terça-feira, abril 24, 2012

Riso causa medo no Sindicato dos Jornalistas de Brasília


Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa
Blog do Noblat

Ao ler que o Sindicato dos Jornalistas pediu para a Presidência da República e o Itamaraty proibirem a participação em futuras entrevistas coletivas do grupo de jornalismo humorístico CQC, baseado em um incidente durante a coletiva de Ms. Clinton, fiquei assustada.

Gente, pensei, que será que esses doidos fizeram com a frágil Hillary? A taquicardia provocada pelo susto começou a amainar ao ler que era o Sindicato dos Jornalistas de Brasília. Bem, pensei, meno male. De Brasília? Ora, ora…

E continuei a ler até saber que a grosseria foi oferecer à secretária de Estado uma daquelas máscaras que usamos no carnaval. Ué? Isso lá ofende alguém? Ou o que ofendeu foi o pessoal do Sindicato não ter tido a mesma ideia genial, já que a sutileza não é o forte dos personagens oficiais daquela triste cidade?

Sim, Brasília é uma cidade triste, caturra, estranha. Tem muita autoridade, gente chata, mal humorada ou que só ri quando o vento sopra a seu favor. E não me digam que é implicância ou qualquer coisa no gênero pois em meu coração há lugares especialíssimos para cinco crianças ali nascidas e que eu amo de paixão.

No extraordinário livro O nome da Rosa, Umberto Eco se vale da Poética de Aristóteles e de incontáveis citações para desenvolver uma doutrina a respeito do Riso, repleta de implicações teológicas e culturais.

Seu porta-voz para essa doutrina é o monge bibliotecário Jorge de Burgos que teme o riso por alarmante e espiritualmente perigoso, pois rir afasta o medo e sem o medo, a fé não seria possível. Ou seja, sem o medo do Demônio, não haveria mais necessidade de Deus.

Aparentemente o pessoal do Sindicato dos Jornalistas de Brasília – é bom repetir, de Brasília! – concorda com Jorge de Burgos e teme que o riso leve os brasileiros a raciocinar e a reexaminar com mais rigor aquilo que lhes é dito pela Imprensa Oficial, a que não ri, e que perca a fé no que lhes é dito. Só pode ser isso.

Nas décadas de 60 e 70, um jovem professor de matemática formado em Harvard, Tom Lehrer, excelente compositor, letrista e pianista, fazia shows de imenso sucesso com músicas de sátira política que não perdoavam nada nem ninguém.

Pois bem, corre nos EUA uma lenda urbana contando que quando Henry Kissinger recebeu o Premio Nobel da Paz, em 1973, Lehrer largou a sátira política por achar que o Nobel dado ao ex-secretário de Estado tornava a sátira política obsoleta.

Se é verdade ou não, pouco importa. O fato é que realmente o Nobel da Paz para Kissinger foi um dos mais vivos exemplos de sátira política, comparável talvez à declaração de Ms. Clinton sobre dona Dilma: um “exemplo global de luta pela transparência e contra a corrupção”.

*Razão tinha Billy Blanco