domingo, janeiro 07, 2007

Ataque às feridas certas

Editorial Jornal do Brasil
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Como muitos previram, inclusive esta página, as primeiras horas do novo governo fluminense mostraram-se especialmente animadoras. Mais do que gestos simbólicos destinados a compatibilizar seus atos imediatos às manifestações de otimismo da população, o governador Sérgio Cabral foi ao ponto certo. Pôs o dedo em duas das mais graves feridas abertas no Rio de Janeiro: saúde e segurança pública.
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No primeiro caso, diagnosticou o descalabro da rede de hospitais e postos de saúde, a começar pelo drama do Hospital Albert Schweitzer, em Realengo, onde esteve por duas horas na quarta-feira.
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Na segurança, o governador Sérgio Cabral pediu ajuda federal para iniciar a contra-ofensiva clamada há décadas por uma população encarcerada pelo medo. Entre outras iniciativas, acertou o desembarque da Força Nacional de Segurança, formada por tropas de elite. (O grupo foi treinado para enfrentar conflitos deflagrados também em áreas urbanas. Agora poderá mostrar sua eficiência).
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Nenhum desses problemas é novo, mas nova parece ser a conjugação de astros favorável à resolução. Há um empenho bem-vindo e necessário para a união de esforços entre todas as esferas de governo. É inadmissível, por exemplo, que a leniência histórica das autoridades continue a desprezar a vida. Na saúde, conforme o governador constatou, o Estado promove um verdadeiro genocídio. As condições exibidas pelo Albert Schweitzer são só um aperitivo de um quadro de horrores que se espalha por praticamente toda a rede pública de saúde. A constatação de Cabral foi precisa: "O que o Estado faz aqui é cometer assassinatos. É genocídio".
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As palavras traduzem a perversidade imposta à população, sobretudo aos mais pobres. Emergências lotadas, falta de equipamentos e remédios, elevadores quebrados, obras paralisadas e poucos médicos e até a falta de segurança que atemoriza os profissionais da saúde costumam tornar tênue a distância que separa a vida e a morte nos hospitais e ambulatórios. Faltam recursos e competência.
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Para a ofensiva contra a violência, informou-se, por exemplo, que a Força Nacional começará a atuar no combate ao crime pelas divisas do Rio. A tropa se juntará às polícias militar, civil, federal e rodoviária para bloquear rodovias e limites do Estado com os vizinhos do Sudeste e, aos poucos, ocupar espaço na capital. A meta é impedir a entrada de armas e drogas no Rio, fragilizando as facções criminosas e limitando a movimentação de bandidos.
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Ao aceitar o apoio das tropas federais, Cabral demonstra que a desejada tranqüilidade do Rio deve estar acima de vaidades pessoais ou disputas partidárias. Importa aos brasileiros não o direito autoral da contra-ofensiva mas a execução de estratégias sensatas e eficientes, capazes de eliminar as cenas de pavor, destruição e morte como a que o Rio testemunhou há menos de 10 dias.
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Os esforços abarcarão não apenas as forças federais e fluminenses. A elas se integrarão meios disponíveis em outros Estados. Ressalte-se, por exemplo, a criação de um Gabinete Estratégico de Gestão Integrada em Segurança Pública, reunindo representantes dos governos do Rio, São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo. A idéia não é nova. O ex-presidente Fernando Henrique cogitou adotá-la. Também fez parte do Plano Nacional de Segurança Pública, lançado há dois anos, com alarde, pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Sua implementação, no entanto, especialmente no Rio de Janeiro, foi comprometida por problemas político-partidários.
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Tem-se agora mais uma chance de reduzir a distância entre as palavras e os atos dos novos governos. A oportunidade é única.