domingo, janeiro 07, 2007

Réquiem para o Iraque

Por Pedro Porfírio, na Tribuna da Imprensa
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"O Oriente Médio é demasiado importante para ser deixado nas mãos dos árabes." Henry Kissinger, ex-secretário de Estado dos EUA
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O circo armado com todos os requintes de sadismo para o enforcamento de Saddam Hussein expõe a mais perversa estratégia de guerra já levada à prática pelos Estados Unidos, cuja política externa de assaltos e saques às riquezas alheias parece ser a única condição de garantia do seu ainda próspero "American Way of Life".
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Não tenha dúvida: cada cena do espetáculo foi milimetricamente concebida pelos serviços de espionagem e guerra suja dos EUA, hoje encabeçados por John Negroponte, com uma folha corrida de fazer inveja aos mais altos esbirros do nazismo. Até ser conduzido ao cargo de diretor nacional de Inteligência, esse inglês naturalizado norte-americano era o embaixador em Badgá, onde montou o projeto sinistro de dominação, à frente de 3 mil assessores e funcionários, o que fez da sua a maior embaixada norte-americana.
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Não se iluda: essa divulgação de uma "gravação de telefone celular" não aconteceu por acaso. Desde que as tropas invasoras puseram as botas no Iraque, naquele dramático 20 de março de 2003, os norte-americanos desenvolvem um projeto que vai muito além de sua mais fértil imaginação: o objetivo final é controlar diretamente todo o Oriente Médio, que segundo a "BP Statistical Review" concentra 61.7% de todas as reservas petrolíferas do planeta.
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Petróleo a qualquer preço
E para consolidar essa dominação, tal como pleiteou o vice-presidente Dick Cheney, em 1999, quando ainda era o presidente da maior companhia de serviços petrolíferos do mundo, a Halliburton, os Estados Unidos não medirão atitudes e nem tomarão conhecimento de valores morais ou escrúpulos.
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Falando no International Petroleum Institute, em Londres, o atual vice de Bush fez um diagnóstico sombrio sobre as perspectivas do mercado de petróleo. Seu pronunciamento foi anotado como uma senha por F. William Engladahl, um especialista independente: "`De acordo com algumas estimativas', declarou Cheney, `haverá uma média de dois por cento de crescimento anual na procura de óleo ao longo dos próximos anos, bem como, conservadoramente, um declínio natural de três por cento na produção das reservas existentes'.
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Cheney concluiu com uma nota alarmante: `Isto significa que em 2010 precisaremos de um acréscimo de 50 milhões de barris por dia'. Isto é o equivalente a mais de seis Arábias Sauditas da dimensão de hoje".
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A invasão do Iraque foi discutida internamente no governo norte-americano como uma questão de vida ou morte. À época, Negroponte, que já se celebrizara por conduzir a mais inescrupulosa intervenção norte-americana - a contratação de mercenários para uma guerra suja contra o governo sandinista da Nicarágua -, era embaixador no Conselho de Segurança da ONU.
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O plano foi elaborado na base do vai ou racha. Mesmo sem o apoio da ONU, as tropas dos Estados Unidos e Inglaterra quase reduziram a pó as grandes cidades iraquianas. Apesar disso, jamais conseguiram se impor diante de uma população que não aceita a agressão e reza todos os dias para se livrar dos impiedosos torturadores que submetem diariamente centenas de cidadãos árabes à humilhação, ao terror e à morte, com um balanço de 665 mil vítimas civis em 3 anos.
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A parte mais desonesta do plano foi explorar diferenças entre sunitas, xiitas e curdos, abrindo caminho a uma guerra civil na qual todos sairão perdendo e acabarão por aceitar qualquer "solução" imposta pela potência ocidental. Daí a transformação da execução de Saddam Hussein numa vingança xiita, "desaconselhada" pela Casa Branca, com os insultos sectários devidamente documentados e divulgados para acirrar mais os ânimos.
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Quem conhece a verdadeira história do Iraque sabe que nunca houve clima de guerra civil entre sunitas e xiitas. São todos islâmicos e é comum casamentos entre seguidores desses ramos da religião fundada por Maomé. Na Síria, a maioria sunita convive fraternalmente com os alauitas, drusos e cristãos, assim como em outros países árabes os bolsões de intolerância religiosa são inexpressivos.
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Xiitas odeiam EUA
Na verdade, não há nenhuma solidariedade entre os invasores e a maioria xiita do Iraque. Esta tem estreitas ligações com o governo do Irã, que teve confrontos muito maiores com os norte-americanos e amargou 8 anos de uma guerra provocada por Saddam Hussein, então com o apoio total do Ocidente e da antiga União Soviética, todos apavorados com a possível influência do regime dos aiatolás.
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Os xiitas têm verdadeira ojeriza pelo Ocidente e o Irã será a próxima bola da vez, logo depois de uma operação preparada contra a Síria, nos próximos seis meses, sob o pretexto de intervenção no Líbano.
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Aliás, os Estados Unidos estão igualmente preocupados com o movimento diplomático de Damasco, que estabeleceu relações diplomáticas com o governo de Bagdá e se apresenta como autoridade moral para facilitar entendimentos entre os iraquianos na direção da paz.
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Como o Iraque de Saddam, a Síria é governada pelo Partido Baath (Renascer), embora os dois países tivessem posturas conflitantes: o núcleo básico desse partido, fundado por Michel Afla e forte no Iraque, não admitia o socialismo, nem alianças com partidos comunistas, como acontece em Damasco. Se a Síria tiver apoio de outros países árabes, poderá jogar um papel capaz de evitar a guerra civil planejada pelos norte-americanos: daí a ameaça de uma intervenção até julho que vem.
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Com relação ao Irã, o que mais preocupa Washington não são tanto os seus progressos nucleares, mas sua proposta de criar a própria bolsa do petróleo dos países produtores, fugindo do controle das bolsas de Nova York e Londres. Mais uma vez, a questão das reservas petrolíferas determina as atitudes norte-americanas.
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Os Estados Unidos estão longe de sair do Iraque e, por conseqüência, do Oriente Médio. Saddam Hussein já não significava muito para o seu povo: todos os segmentos têm razões de sobra para não chorarem sua morte, a não ser lamentar o seu caráter perverso.
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Afinal, desde os tempos de capitão, ele se revelara um militar ambicioso, que acabou tendo mais tarde um papel de destaque na deposição, em 1959, do governo nacionalista do general Abdul Karin Kassen. Entre seus adversários, há quem diga que ele recebeu treinamento da CIA, tanto como Bin Laden, e sua morte, agora, pode ter sido uma espécie de "queima de arquivo". Mais dia, menos dia ele poderia contar uma história tenebrosa de parceria com os norte-americanos, que levou para o túmulo.
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Ainda voltarei ao assunto.