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Madrugamos no dia 23 de dezembro, antevéspera do Natal, na ansiedade de duas semanas de descanso, programado com cuidados especiais para aproveitar o tempo escasso. Um grupo familiar de dois casais: eu, Regina, minha mulher, o filho Marcos e a nora Angela.
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Com folgada antecedência, prevendo engarrafamento no trajeto até o Aeroporto Tom Jobim, saímos da Gávea às 7h30. Pista livre, meia hora depois passamos pelo check-in, despachamos as bagagens e enfrentamos a provação de 10h30 de espera na balbúrdia da crise na aviação civil.
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Perdemos um dia. Pernoite em Buenos Aires, por conta da Aerolíneas Argentinas, e na manhã de 24 chegamos a Mendoza para quatro dias de surpreendente aprendizado do que é ou pode ser uma cidade média, cercada do verde na sucessão de parques fantásticos, limpos, cuidados pela população e pelo governo, com tráfego intenso nas horas críticas, mas organizado e sob vigilância policial de impecável polidez.
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No carro alugado percorremos centenas de quilômetros na rodovia que se encosta à Cordilheira dos Andes. A presença ruidosa de grupos de brasileiros adverte para o risco de escorregar na basbaquice de descobrir a pólvora.
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Enfrento a arapuca na esperança de despertar a curiosidade dos desatentos para um passeio que merece a qualificação precisa de imperdível. Quilômetros de sucessão de paisagens do imponente maciço de pedra lava os olhos na fascinação da sucessão de quadros de uma riqueza de cores e desenhos formados ao longo de séculos pelas águas que escorrem nos degelos de todos os anos.
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Picos de mais de seis mil metros abrem espaço para a imponência do Aconcágua, eterno desafio às escaladas com várias vítimas.
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Vale a pena arriscar o deslocamento da mandíbula no constrangimento imposto pela inevitável comparação entre a degradação da violência, da insegurança, da sujeira, da irritação da imensa maioria das nossas cidades, com o comportamento educado, cortês, atencioso dos mendocinos.
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E que se repete na Buenos Aires de pazes feitas com o orgulho da recuperação econômica da Argentina, que deu a volta em crise mais grave e profunda do que a nossa e hoje se apresenta com índices de crescimento que se refletem na vertiginosa modernização da capital de modelo parisiense, com novos pontos de concentração de milionários e do comércio de shoppings e lojas luxuosas.
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Mas, em Buenos Aires, entre o Natal e o Ano Novo a presença maciça de brasileiros lota os hotéis e agita as avenidas e ruas com a algazarra da nossa alacridade. A turma conhece o caminho.
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Voltemos um pouco atrás. De Mendoza a Buenos Aires purgamos mais seis horas de espera. Embarcamos com seis malas e chegamos com cinco.Um susto aborrecido que durou menos de um dia: a Aerolineas Argentinas foi rápida e exemplar na localização e entrega em domicílio da mala dos presentes portenhos.Em dois dias de atualização com as novidades políticas da terra, descobri que o desfrute das choradas férias anuais com relativo conforto e respeito está virtualmente estatizado, virou privilégio dos maiorais do governo e, claro, também dos ricos.
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Em mais uma singularidade do presidente Lula, aos seis dias do segundo mandato o governo entrou em férias e dispersou-se pelos quatro cantos do mundo. A começar pelo exausto reeleito que se autoconcedeu dez dias de vadiação por conta da pródiga Viúva. Para que não se diga que o governo ficou acéfalo, a dupla formada pela poderosa ministra Dilma Rousseff e o ascendente ministro Tarso Genro foi informalmente incumbida de tocar a rotina e preparar o plano para as obras prioritárias na arrancada de desenvolvimento prometida para este ano.
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Até lá, na Esplanada dos Ministérios às moscas, ministros e secretários que não sabem se ficam ou serão dispensados, bocejam no tédio do constrangimento: se inventam moda e propõem novidade, serão criticados pelo oferecido açodamento de quem quer continuar roendo o osso delicioso do poder; se não fazem nada justificam a justa avaliação de que não fazem falta nenhuma..Para não ficar de fora da pândega, a Câmara dos Deputados enlameia-se no escândalo da convocação de 23 suplentes de deputados e o Senado de quatro suplentes de senadores para as vagas dos titulares que se licenciam para ocupar cargos no Executivo, durante um mês de recesso parlamentar.
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Para não fazer nada, para bater pernas nos corredores vazios ou lustrar com os fundilhos das calças a poltrona do gabinete privativo do renunciante, cada um dos felizardos sorteados pela mega-sena parlamentar embolsará, além dos subsídios de R$ 12,8 mil, os penduricalhos das mordomias, vantagens, verba indenizatória, verba de gabinete e quatro passagens, num total que beira os R$ 100 mil.
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Convocar e pagar regiamente senadores e deputados para um mês de exercício de mandato com o Congresso fechado, em recesso, é um recorde de caradurismo..Não há dúvida: estamos começando bem o ano novo. Nele entramos pisando firme com o pé direito calçado com o borzeguim oficial.