.
Eu ia fazer piada com o Sérgio Cabral. Diria que ele e Lula estão tão afinados que não será surpresa se, neste fim de semana, o governador pedir ajuda ao presidente para passar protetor solar nas costas. Queria só brincar com a política de bom relacionamento que o nosso Serginho vem desenvolvendo com grande sucesso no Rio de Janeiro. Afora o presidente, se dá bem com o Serra, o Aécio, o Hartung... Depois dos Garotinho, o carioca anda em estado de graça com a simpatia do cara que elegeu.
.
.
Como diz a minha ex-namorada Miriam Leitão, “no Rio, até cético está doido para acreditar”. A imprensa anda tão empolgada com o estilo do governador que nem se deu conta que sua excelência, revoltada com as condições de atendimento ao público em vistoria ao Hospital Getúlio Vargas, mandou demitir o médico que fora nomeado há menos de 24h para dar um jeito na situação. Peralá! Não faço a menor idéia se o tal Sebastião Neves é bom médico ou administrador, mas sua demissão não faz o menor sentido dentro do que o governo classifica como “tolerância zero na Saúde”. Que diabos o governador esperava encontrar no Getúlio Vargas?
.
.
Um dia antes, ele já havia classificado como genocídio o que viu no hospital estadual Albert Schweitzer, em Realengo. Se for aos presídios, às delegacias, ao Maracanã, se rodar pelas estradas estaduais, se entrar nas escolas públicas, se caminhar pelo Rio de Janeiro como um cidadão qualquer vai ficar estupefacto com o estado de coisas a que chegamos. Cabe a pergunta: onde diabos andava Sérgio Cabral na época que era senador, deputado, presidente da Assembléia Legislativa, vereador... Vale lembrar que os Garotinho fizeram seu sucessor, Cabral é a continuidade do PMDB no poder.
.
.
E, no entanto, todo dia o carioca abre o “Globo” e lá está ele, o governador, com a máscara facial do estarrecimento pela descoberta do descaso do Estado com a população. Sabe carinha de “eu não sabia”? Sai dessa, governador! O senhor já está eleito, não precisa mais desse expediente de posar de homem bom na primeira página dos jornais. Não lhe cabe denunciar e sim consertar os estragos que todo carioca está careca de saber quais são.
.
.
Na noite de quinta-feira, horas depois de demitir o pobre coitado que acabara de assumir o Getúlio Vargas, gostei de ver o governador no show do Chico Buarque no Canecão. Tomara que não tenha ficado chocado com as coisas que o ex-marido da Marieta diz na letra de “Subúrbio” sobre o lado da cidade onde não tem brisa nem verde-azuis, não tem frescura nem atrevimento, um lugar que não figura no mapa, que é contra-senha, é cara a tapa. Sabe onde é governador? Lá onde não tem moças douradas, não tem turistas, não sai fotos nas revistas. Onde não tem claro-escuro, a luz é dura, a chapa é quente, é pau, é pedra, é fim de linha, é lenha, é fogo, é foda, governador.
.
.
Se melhorar um pouquinho tudo isso, já está bom demais. Não dá é pra fingir que não sabia como é dura a vida do pobre, meu Deus, que pesadelo, vamos acabar com isso já!!! Só aos poetas se permitem delírios como os de Chico Buarque em “Outros sonhos”, sobre um lugar onde “de mão em mão o ladrão relógios distribuía e a polícia já não batia”. Não! Os guris que a gente vê por aí inertes no chão não falam de astronomia, governador. No avesso da montanha, é labirinto. Cuidado para não se perder nos caminhos que levam à presidência em 2010. Ao trabalho!