domingo, janeiro 07, 2007

GameCorp: onde foi parar o dinheiro da Telemar?

por João Luiz Mauad
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© 2007 MidiaSemMascara.org
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O Diário Oficial do Estado de São Paulo publicou, no último dia 23/12, ante-véspera do Natal, o balanço patrimonial e demais demonstrações contábeis referentes ao exercício de 2005 da empresa GameCorp S/A, inscrita no CNPJ sob o nº 07.121.705/0001-06. Para os que não se lembram, a GameCorp é aquela empresa que tem como sócios a BR4 Participações Ltda – da qual participa o filho do Exmº Presidente da República - e uma subsidiária da Telemar - a Telemar Internet Ltda.
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O primeiro ponto a se destacar é que o referido relatório foi publicado com quase 8 meses de atraso, já que a lei brasileira prevê como prazo legal para a publicação das demonstrações contábeis - para empresas não obrigadas à publicação trimestral - a data de 30 de abril do ano subseqüente ao encerrado.
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Uma rápida e superficial análise econômico-financeira do material disponível na Internet revela alguns dados interessantíssimos, dentre os quais destacaríamos os seguintes:
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1 - Liquidez: Apesar de ter apresentado um prejuízo elevado, os índices de liquidez da sociedade são invejáveis. O ILC (Índice de Liquidez Corrente) apurado foi de 2,48. Este índice é resultado da divisão entre os valores totais do Ativo Circulante (disponibilidades financeiras de curto prazo: $ 2.063.333) e do Passivo Circulante (obrigações de curto prazo: $ 830.475). O resultado encontrado demonstra que o endividamento da empresa com terceiros, especialmente bancos, é muito baixo (somente $ 77.379) e que o enorme prejuízo da "aventura empresarial" foi quase que integralmente financiado por capitais dos sócios.
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2 - Imobilização: O balanço demonstra também um baixo índice de imobilização do capital (perto de 10%), cujo valor declarado é de $ 547.425 (já descontada a depreciação). Esse número é resultado da soma, segundo as notas explicativas dos administradores, dos seguintes itens: Acervo - $ 200.000; Equipamentos de Informática: $ 259.444; Móveis e Equipamentos: $ 58.165; Softwares: $ 12.501; Benfeitorias em imóveis de terceiros: $ 17.315.
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3 - Rentabilidade: Aqui começam os problemas. Mesmo para uma empresa nova, cujo início das atividades, conforme se lê nas notas explicativas, foi em março de 2005, o prejuízo verificado no ano foi imenso, qualquer que seja o ângulo analisado. O resultado líquido do período foi negativo em $ 3.479.623, o que representa 126% da receita bruta da prestação de serviço que somou $ 2.750.023. Prejuízos são normais na atividade empresarial e ocorrem todos os dias. No entanto, produzir perdas superiores ao valor da própria receita bruta não é comum. Vale notar que este resultado fez despencar o patrimônio líquido da empresa - em apenas dez meses de atividade - de $ 5.200.000 para parcos $1.730.377. Trocando em miúdos, os $ 2.500.000 investidos pela Telemar em 31 de janeiro de 2005, equivalentes a 35% do capital social da G.C., valiam, no final do mesmo ano, parcos $ 605.631. Um negócio altamente ruinoso, para dizer o mínimo.
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É interessante destacar que, mesmo na esfera exclusivamente operacional, vale dizer, sem que se computem as despesas indiretas, a GameCorp apresentou um prejuízo de $ 590.071, ou 25% da receita líquida dos serviços prestados que foi de $ 2.358.145. Isso seria, grosso modo, como se um feirante montasse uma barraca de abacaxis em que vendesse cada fruta por um real, mesmo pagando por elas $ 1,25).
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4 - Despesas não operacionais: O prezado leitor investiria dinheiro numa companhia que gasta mais com as atividades "meio" (administrativas) do que com o próprio objeto do negócio? Não? Eu também não. Mas foi justamente isso o que aconteceu com esse colosso do capitalismo tupiniquim. Vejam bem: enquanto os custos diretos dos serviços prestados no ano totalizaram $ 2.948.216, as despesas não-operacionais alcançaram estratosféricos $ 3.487.613. É isso mesmo. Não há qualquer erro aí. A firma do Lulinha gastou 18% a mais com as atividades burocráticas do que no próprio negócio.
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Infelizmente, malgrado tão detalhistas em determinados itens, como a relação do imobilizado ou as obrigações sociais a pagar, as notas explicativas dos administradores não trazem uma linha sequer sobre esta que é a maior rubrica de todo o balanço, o que nos obriga a um exercício exploratório para tentar compreender um pouco melhor o que realmente ocorreu durante o ano de 2005.
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Dentre as obrigações lançadas no passivo circulante, há um item denominado "Obrigações sociais", que vem a ser o somatório dos salários e pró-labores (remuneração dos sócios-gerentes), acrescidos dos encargos sociais sobre eles incidentes, a pagar na época do fechamento do balanço. Uma vez que havia no caixa dinheiro em volumes mais do que suficientes para o pagamento destas despesas, podemos supor que se tratavam de encargos salariais referentes ao mês de dezembro, cujo adimplemento estava previsto para ocorrer no início de janeiro. Ora, se acrescentarmos a estas despesas 1/12 de 13º salário e mais 1/9 de férias (provisões), acharemos um valor mensal provável para as despesas indiretas com pessoal administrativo de, aproximadamente, $ 143.836. Salvo melhor juízo, como houve somente 10 meses de atividade no ano (a partir de março), o total anual com pessoal administrativo girou em torno de $ 1.438.613.
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Se as despesas não-operacionais somaram a bagatela de $ 3.487.613, existe aí uma diferença de aproximadamente $ 2.000.000, cujo destino somente os administradores da companhia podem saber. De concreto, o balanço nos diz que não há despesas financeiras líquidas, já que a empresa operou com um resultado financeiro positivo, derivado de aplicações no mercado aberto, de $ 598.061 (já descontadas as despesas financeiras no montante de $ 28.145). Sobram, então, somente as despesas administrativas correntes, como aluguel, papelaria, cafezinho, luz, gás, telefone, honorários de terceiros (advogados, contadores, etc.) e outras. Como a empresa dispõe de um único estabelecimento, normalmente essas despesas não alcançariam nem 10% dos tais $ 2.000.000, sobram cerca de $ 1.800.000 a serem explicados.
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Problema meu? Talvez, afinal há dinheiro público investido na Telemar, a qual, por sua vez, possui 35% da GameCorp. Com efeito, o mínimo que se poderia requisitar dos administradores da G.C. é que explicassem melhor o péssimo resultado apresentado, principalmente no que se refere às despesas não-operacionais, a fim de que não pairem quaisquer sombras de dúvida sobre a boa aplicação dos recursos (indiretamente públicos) investidos na empresa.
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(*)O autor é empresário e formado em administração de empresas pela FGV/RJ.