Opinião, Jornal da Tarde
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Foram reproduzidos com muito destaque pelos jornais nos últimos dias dois slogans lançados pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em seus discursos de posse. Um contém quatro substantivos: “pressa, ousadia, coragem e criatividade”. O outro, três verbos de ação: “crescer, acelerar, incluir”.
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Foram reproduzidos com muito destaque pelos jornais nos últimos dias dois slogans lançados pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em seus discursos de posse. Um contém quatro substantivos: “pressa, ousadia, coragem e criatividade”. O outro, três verbos de ação: “crescer, acelerar, incluir”.
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Críticos recalcitrantes discutem a prioridade da pressa, condenada pela sabedoria popular em dois ditados. “A pressa é inimiga da perfeição”, reza um. “O apressado come cru”, define outro. Ainda que a perfeição seja uma tarefa humana inatingível, não é lúcido tornar o exato oposto a ela como uma busca do ideal. Ousadia, como todas as palavras, pode também ter um significado pouco dignificante. Ousados, por exemplo, foram Waldomiro Diniz ao achacar o bingueiro; Marcos Valério ao fazer funcionar o esquema de troca de apoio parlamentar por dinheiro que Roberto Jefferson apelidou de “mensalão”; e os ditos “aloprados” quando tentaram impingir à sociedade o falso dossiê antitucano. Não se pode dizer que nada disso seja construtivo, não é mesmo? Coragem é sempre bom ter, desde que se explicite para quê. E criatividade só é positiva se usada para a construção de algo sólido e útil para a maioria. A criatividade de vender gato por lebre do marketing político, por exemplo, não é algo de que a sociedade brasileira sinta falta.
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Diante da evidência de que o Brasil já cresce, mas a um ritmo frustrante, se comparado com o resto do mundo, é louvável que o governo prometa crescer e acelerar, sem perder de vista a divisão mais equânime dos resultados desse crescimento, prevista no terceiro verbo. Mas o chefe do governo ficou devendo o complemento do advérbio de modo, pois, ao não contar como fará as três coisas, passa a impressão de que ele não conhece bem o caminho das pedras. E, ao gozar dez dias de férias, antes de pegar no batente, o presidente se mostra caudatário da voz pouco laboriosa ironizada por seu conterrâneo Ascenso Ferreira no poema célebre: “Hora de comer, comer; hora de dormir, dormir; hora de trabalhar? Pernas pro ar que ninguém é de ferro.” Se ele trocasse os três verbos por um só, “trabalhar”, o cidadão brasileiro ficaria mais feliz. Principalmente se ele provasse que sabe o que fará e não fizesse, como tem feito, segredo disso.