Pedro do Coutto, Tribuna da Imprensa
Matéria assinada pela jornalista Bety Orsini, "Caderno Ela", "O Globo" de 24/2, sustenta ter sido encontrada, em algum lugar do Oriente, moeda cunhada dois mil anos antes de Cristo com a imagem de Cleópatra, rainha do Egito, na qual está acentuada a extensão de seu nariz. Tal moeda destruiria o mito da beleza da mulher que seduziu o imperador Julio Cesar e também Marco Antônio, que o sucedeu em Roma.
Foi um equívoco. Todos nós precisamos ter cuidado com a história e com o tempo. Antes de Bety Orsini, alguns jornais, inclusive "O Globo", haviam publicado que a moeda encontrada datava de 232 anos a.C. Outro erro. Em nenhuma das duas hipóteses tratava-se da Cleópatra famosa. Isso por um motivo muito simples. Ela - está na Enciclopédia Koogan-Houaiss e também na internet - nasceu em Alexandria no ano 69 antes de Cristo e morreu aos 39 anos de idade, portanto no ano 30 que antecede à era cristã.
Envolveu-se profundamente com Julio Cesar, que derrotou Pompeu e assumiu o poder absoluto em Roma exatamente 47 anos antes de Jesus Cristo nascer. Dois anos depois, os exércitos romanos garantiram Cleópatra no poder. Doze meses a seguir, portanto a 44 a.C., Julio Cesar foi assassinado no Senado, em Roma. O prédio está lá até hoje como marco histórico e turístico.
Portanto a moeda descoberta deve se referir a outra mulher, com o mesmo nome, mas que viveu em época diferente. Daí a confusão. Lendo-se a Koogan-Houaiss, verifica-se que não houve uma, porém nada menos que sete Cleópatras no Egito, todas elas rainhas. A que seduziu Cesar foi a sétima - e última. A moeda seguramente reproduz a face de uma antecessora, mas não a que ficou na história universal como símbolo oriental de poder e sedução. Não quero dizer com isso que somente a beleza seja sedutora. O poder de sedução da mulher, na minha visão masculina, não está unicamente na beleza. Encontra-se também no comportamento, no toque pessoal, na atmosfera que traz à sua volta. Mas esta é outra questão.
O que desejo é assinalar que as narrativas históricas exigem atenção. Dizer, como foi o caso agora, que Cleópatra viveu 2 mil anos antes de Cristo significa afirmar que existiu cerca de mil anos antes de Moisés. Deve-se sempre conferir os marcos fincados no tempo. Sem isso, podemos estar produzindo ou contribuindo para que se produzam versões irreais que nada acrescentam à cultura e ao conhecimento humano. O Evangelho de João, eis aí um exemplo, como acentua a Edição Loyola da Bíblia, na página 1.095, foi escrita entre os anos 95 e 100 de nossa era.
Como Jesus Cristo morreu aos 33 anos de idade, o texto daquele seu discípulo foi produzido, na melhor das hipóteses, 62 anos depois do desfecho de Jerusalém. Por que uma diferença de tanto tempo entre um fato e seu relato? Não há uma explicação lógica. Que idade teria João quando redigiu seu depoimento? E qual a razão dos espaços registrados entre as versões de João, Marcos, Mateus e Lucas, os quatro evangelistas?
Os quatro evangelhos ocupam apenas 133 páginas da Bíblia, parte do novo Testamento. As datas e as distâncias entre os testemunhos são um enigma. O historiador francês Ernest Renam, na segunda parte do século 19, em seu livro "A vida de Jesus", um clássico, já havia observado esta diferença de tempo, embora assinalasse a unidade dos textos de Mateus, Marcos e Lucas.
Para ele, apenas o de João era diferente na forma, não no conteúdo. Os três primeiros, inclusive, têm, segundo Renam, convergência de estilo. Mateus, Marcos e Lucas talvez tenham escrito, ou ditado suas versões, antes do ano 70, quando o exército de Roma arrasou Jerusalém. Mas João escreveu (ou ditou) depois, tais as referências que faz da geografia da cidade.
A Edição Loyola teve entre seus editores uma série de religiosos católicos e intelectuais, entre eles dom Marcos Barbosa, já falecido, que integrou a Academia Brasileira de Letras. Mesmo dentro da visão católica de apresentar a Bíblia, as exposições feitas são bastante liberais em matéria de pensamento e análise.
Tanto no caso de Cleópatra VII quanto no caso da Bíblia, formada na realidade não por dois livros, mas por 74 (47 judaicos, 27 cristãos), é sempre indispensável realizar-se uma pesquisa, uma releitura, para dirimir dúvidas e evitar equívocos. No caso da Bíblia, o Velho Testamento foi escrito mais de mil anos antes do Novo Testamento.
A primeira edição do livro dos livros foi feita por Gutemberg, criador da imprensa, na segunda metade do século 15. Atravessou assim uma extensão enorme de tempo. É natural que pontos tenham sido acrescentados aos relatos. Mais difícil é tal ocorrência na era do registro, a que nasceu exatamente quando Gutemberg concluiu seu projeto. A história, por isso, será sempre um desafio para todos. Cuidado com ela.
Matéria assinada pela jornalista Bety Orsini, "Caderno Ela", "O Globo" de 24/2, sustenta ter sido encontrada, em algum lugar do Oriente, moeda cunhada dois mil anos antes de Cristo com a imagem de Cleópatra, rainha do Egito, na qual está acentuada a extensão de seu nariz. Tal moeda destruiria o mito da beleza da mulher que seduziu o imperador Julio Cesar e também Marco Antônio, que o sucedeu em Roma.
Foi um equívoco. Todos nós precisamos ter cuidado com a história e com o tempo. Antes de Bety Orsini, alguns jornais, inclusive "O Globo", haviam publicado que a moeda encontrada datava de 232 anos a.C. Outro erro. Em nenhuma das duas hipóteses tratava-se da Cleópatra famosa. Isso por um motivo muito simples. Ela - está na Enciclopédia Koogan-Houaiss e também na internet - nasceu em Alexandria no ano 69 antes de Cristo e morreu aos 39 anos de idade, portanto no ano 30 que antecede à era cristã.
Envolveu-se profundamente com Julio Cesar, que derrotou Pompeu e assumiu o poder absoluto em Roma exatamente 47 anos antes de Jesus Cristo nascer. Dois anos depois, os exércitos romanos garantiram Cleópatra no poder. Doze meses a seguir, portanto a 44 a.C., Julio Cesar foi assassinado no Senado, em Roma. O prédio está lá até hoje como marco histórico e turístico.
Portanto a moeda descoberta deve se referir a outra mulher, com o mesmo nome, mas que viveu em época diferente. Daí a confusão. Lendo-se a Koogan-Houaiss, verifica-se que não houve uma, porém nada menos que sete Cleópatras no Egito, todas elas rainhas. A que seduziu Cesar foi a sétima - e última. A moeda seguramente reproduz a face de uma antecessora, mas não a que ficou na história universal como símbolo oriental de poder e sedução. Não quero dizer com isso que somente a beleza seja sedutora. O poder de sedução da mulher, na minha visão masculina, não está unicamente na beleza. Encontra-se também no comportamento, no toque pessoal, na atmosfera que traz à sua volta. Mas esta é outra questão.
O que desejo é assinalar que as narrativas históricas exigem atenção. Dizer, como foi o caso agora, que Cleópatra viveu 2 mil anos antes de Cristo significa afirmar que existiu cerca de mil anos antes de Moisés. Deve-se sempre conferir os marcos fincados no tempo. Sem isso, podemos estar produzindo ou contribuindo para que se produzam versões irreais que nada acrescentam à cultura e ao conhecimento humano. O Evangelho de João, eis aí um exemplo, como acentua a Edição Loyola da Bíblia, na página 1.095, foi escrita entre os anos 95 e 100 de nossa era.
Como Jesus Cristo morreu aos 33 anos de idade, o texto daquele seu discípulo foi produzido, na melhor das hipóteses, 62 anos depois do desfecho de Jerusalém. Por que uma diferença de tanto tempo entre um fato e seu relato? Não há uma explicação lógica. Que idade teria João quando redigiu seu depoimento? E qual a razão dos espaços registrados entre as versões de João, Marcos, Mateus e Lucas, os quatro evangelistas?
Os quatro evangelhos ocupam apenas 133 páginas da Bíblia, parte do novo Testamento. As datas e as distâncias entre os testemunhos são um enigma. O historiador francês Ernest Renam, na segunda parte do século 19, em seu livro "A vida de Jesus", um clássico, já havia observado esta diferença de tempo, embora assinalasse a unidade dos textos de Mateus, Marcos e Lucas.
Para ele, apenas o de João era diferente na forma, não no conteúdo. Os três primeiros, inclusive, têm, segundo Renam, convergência de estilo. Mateus, Marcos e Lucas talvez tenham escrito, ou ditado suas versões, antes do ano 70, quando o exército de Roma arrasou Jerusalém. Mas João escreveu (ou ditou) depois, tais as referências que faz da geografia da cidade.
A Edição Loyola teve entre seus editores uma série de religiosos católicos e intelectuais, entre eles dom Marcos Barbosa, já falecido, que integrou a Academia Brasileira de Letras. Mesmo dentro da visão católica de apresentar a Bíblia, as exposições feitas são bastante liberais em matéria de pensamento e análise.
Tanto no caso de Cleópatra VII quanto no caso da Bíblia, formada na realidade não por dois livros, mas por 74 (47 judaicos, 27 cristãos), é sempre indispensável realizar-se uma pesquisa, uma releitura, para dirimir dúvidas e evitar equívocos. No caso da Bíblia, o Velho Testamento foi escrito mais de mil anos antes do Novo Testamento.
A primeira edição do livro dos livros foi feita por Gutemberg, criador da imprensa, na segunda metade do século 15. Atravessou assim uma extensão enorme de tempo. É natural que pontos tenham sido acrescentados aos relatos. Mais difícil é tal ocorrência na era do registro, a que nasceu exatamente quando Gutemberg concluiu seu projeto. A história, por isso, será sempre um desafio para todos. Cuidado com ela.