Revista Veja
"Nada é mais difícil e cansativo do que tentar demonstrar o óbvio." A frase, de Nelson Rodrigues, serve de epígrafe ao novo livro do economista Fabio Giambiagi, Brasil: Raízes do Atraso. Não à toa. Na obra, o economista tenta, de maneira quase aflitiva, convencer seus leitores do óbvio: o Brasil foi longe demais no assistencialismo e se esqueceu da competitividade. Em conversa com VEJA, Giambiagi, que trabalha no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), resumiu sua análise: "O modelo econômico brasileiro está muito mais preocupado em distribuir do que em criar riquezas. Quem se dá bem, hoje, são os que vivem do Estado, e não as pessoas e empresas que inovam e pagam impostos. Há um Brasil que sustenta o Estado e um Brasil que é sustentado pelo Estado. Vivemos numa sociedade paternalista que conspira contra o desenvolvimento do capitalismo".
Para reverter essa trajetória, Giambiagi argumenta que o país terá de sacrificar algumas de suas "vacas sagradas" – privilégios e distorções que impedem o bem-estar da maioria. Giambiagi não é um ultraliberal. Nem preconiza o fim da rede de proteção social. Opõe-se apenas ao paternalismo e ao protecionismo extremados. No livro, Giambiagi disseca as dez vacas sagradas que, segundo ele, levam ao atraso. A seguir, uma síntese das principais.
• Mínimo que não é mínimo
Em dezembro de 1994, o salário mínimo era de 70 reais. Se fosse corrigido pela inflação, seu valor atual seria 180 reais, e não 350. Houve um aumento real de quase 100%. Pode parecer justo, mas esse salário é pago sobretudo a aposentados rurais que nunca contribuíram para o INSS. O déficit dessas aposentadorias, no ano passado, foi de 28,5 bilhões de reais.
• Previdência imprevidente
A soma do déficit da previdência do setor privado e do funcionalimo público já passa de 100 bilhões de reais ao ano. Com o envelhecimento da população, o desequilíbrio tende a agravar-se. Sem estancar esse ralo, o país não terá recursos para investir em infra-estrutura.
• Direitos dos incluídos
O excesso de direitos trabalhistas faz com que, para manter um funcionário na formalidade, o empregador pague 1 real em tributos e contribuições para cada 1 real de salário. Além disso, o alto custo de demissão desestimula a contratação com carteira assinada. O resultado é mais informalidade.
• Protecionismo
Apesar da abertura recente, as empresas do país são ainda muito protegidas da concorrência internacional. O país deixa de absorver novas tecnologias e retarda ganhos de produtividade da economia.
• Viés anticapitalista
A ética anglo-saxã incentiva as pessoas que se dão bem pelo esforço próprio. Ela se alicerça no império da lei, de modo impessoal e valendo para todos. No Brasil, a tradição sociorreligiosa é de outra ordem: predomina o desejo de obter recursos e privilégios do setor público. Para muitos brasileiros, o lucro ainda é sinônimo de pecado.
Tudo óbvio? Mas nada é mais difícil e cansativo do que tentar demonstrar o óbvio...
"Nada é mais difícil e cansativo do que tentar demonstrar o óbvio." A frase, de Nelson Rodrigues, serve de epígrafe ao novo livro do economista Fabio Giambiagi, Brasil: Raízes do Atraso. Não à toa. Na obra, o economista tenta, de maneira quase aflitiva, convencer seus leitores do óbvio: o Brasil foi longe demais no assistencialismo e se esqueceu da competitividade. Em conversa com VEJA, Giambiagi, que trabalha no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), resumiu sua análise: "O modelo econômico brasileiro está muito mais preocupado em distribuir do que em criar riquezas. Quem se dá bem, hoje, são os que vivem do Estado, e não as pessoas e empresas que inovam e pagam impostos. Há um Brasil que sustenta o Estado e um Brasil que é sustentado pelo Estado. Vivemos numa sociedade paternalista que conspira contra o desenvolvimento do capitalismo".
Para reverter essa trajetória, Giambiagi argumenta que o país terá de sacrificar algumas de suas "vacas sagradas" – privilégios e distorções que impedem o bem-estar da maioria. Giambiagi não é um ultraliberal. Nem preconiza o fim da rede de proteção social. Opõe-se apenas ao paternalismo e ao protecionismo extremados. No livro, Giambiagi disseca as dez vacas sagradas que, segundo ele, levam ao atraso. A seguir, uma síntese das principais.
• Mínimo que não é mínimo
Em dezembro de 1994, o salário mínimo era de 70 reais. Se fosse corrigido pela inflação, seu valor atual seria 180 reais, e não 350. Houve um aumento real de quase 100%. Pode parecer justo, mas esse salário é pago sobretudo a aposentados rurais que nunca contribuíram para o INSS. O déficit dessas aposentadorias, no ano passado, foi de 28,5 bilhões de reais.
• Previdência imprevidente
A soma do déficit da previdência do setor privado e do funcionalimo público já passa de 100 bilhões de reais ao ano. Com o envelhecimento da população, o desequilíbrio tende a agravar-se. Sem estancar esse ralo, o país não terá recursos para investir em infra-estrutura.
• Direitos dos incluídos
O excesso de direitos trabalhistas faz com que, para manter um funcionário na formalidade, o empregador pague 1 real em tributos e contribuições para cada 1 real de salário. Além disso, o alto custo de demissão desestimula a contratação com carteira assinada. O resultado é mais informalidade.
• Protecionismo
Apesar da abertura recente, as empresas do país são ainda muito protegidas da concorrência internacional. O país deixa de absorver novas tecnologias e retarda ganhos de produtividade da economia.
• Viés anticapitalista
A ética anglo-saxã incentiva as pessoas que se dão bem pelo esforço próprio. Ela se alicerça no império da lei, de modo impessoal e valendo para todos. No Brasil, a tradição sociorreligiosa é de outra ordem: predomina o desejo de obter recursos e privilégios do setor público. Para muitos brasileiros, o lucro ainda é sinônimo de pecado.
Tudo óbvio? Mas nada é mais difícil e cansativo do que tentar demonstrar o óbvio...