Por J. R. Guzzo, Vida Real, EXAME
A crise nos aeroportos ilustra uma marca do governo Lula -- a obsessão por criar "heranças malditas" para si mesmo, para os próximos governantes e para o conjunto da população brasileira
Uma das inovações mais interessantes que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva trouxe para a administração pública brasileira é o Departamento de Gerência de Heranças Malditas. No começo, servia para jogar a culpa por tudo que havia de errado no governo anterior, ou nos que vieram antes dele. Depois, passou a encher o contêiner de problemas que será legado para o próximo governo, tarefa, aliás, na qual se encontra ativamente empenhado neste momento. Por fim, e esta talvez seja a grande novidade, conseguiu criar uma herança maldita para si próprio. Seu melhor exemplo é a crise dos aeroportos, que se destaca de diversas outras por juntar levante de militares, ameaça de CPI, suspeitas de corrupção na Infraero, um inédito calvário para o público e exibições de incompetência explícita. Ao longo de seis meses, o governo fez tudo o que era possível para criar e agravar o problema, até ver-se atropelado por um motim de sargentos da Aeronáutica e pelo abandono de postos por oficiais. Agora colhe o que plantou.
Há nisso uma notícia ruim e uma notícia boa. A notícia ruim é a herança em si -- pois o governo pode ficar mal na foto, mas quem paga mesmo por ela é o público em geral. Já a notícia boa só é boa para o presidente Lula. Sua popularidade, de acordo com as últimas pesquisas, navega em mar de almirante, já que céu de brigadeiro, hoje em dia, não está lá essas coisas. Apesar da calamidade nos aeroportos, da angústia diante da criminalidade e de tudo o que se vê em matéria de escândalos dentro e em volta de seu governo, quase dois terços dos entrevistados aprovam o desempenho do presidente. É um fenômeno. O público tem consciência dos problemas, de sua gravidade e da inépcia do governo para solucioná-los. Mas acha que Lula não é culpado pelas dificuldades -- ao contrário, parece convencido de que o presidente está lutando como um leão para resolver as coisas. Não consegue porque os outros, não se sabe direito quem, não deixam.
Lula é ajudado, sem dúvida, pelo atual desempenho da economia, que vai bem e mal ao mesmo tempo, mas está em seu melhor momento desde que tomou posse. A inflação de março foi a menor dos últimos sete anos. As reservas cambiais estão em 110 bilhões de dólares, algo que põe o Brasil numa situação de estabilidade jamais conhecida antes. O mercado financeiro vive em festa, com as bolsas de valores batendo recordes em cima de recordes. Setores vitais da economia, como a auto-indústria, estão vendendo mais do que nunca. A renda dos mais pobres subiu, mesmo porque a inflação baixa é sua melhor defesa. Já o espetáculo do crescimento entra em seu quinto ano de ensaios, sem data marcada para estrear. O conjunto da indústria mostra um desempenho para lá de fraco. O aumento nas exportações vem caindo de ano para ano desde 2004. É, em resumo, um caso clássico de garrafa metade cheia e meta de vazia -- o que para o governo está de excelente tamanho, já que ruim, mesmo, é garrafa vazia.
Com a combinação de estabilidade econômica e prestígio pessoal imune a problemas, não há, para Lula, por que esquentar a cabeça com os desastres do governo. Quando um presidente da República exige "dia e hora" para os aeroportos voltarem à normalidade e não acontece absolutamente nada, o normal seria sua desmoralização. Não é assim com Lula. O que fica, na cabeça da maioria da população, é que ele deu um basta na desordem. O presidente, já há tempos, tem dado mostras de que sabe trabalhar muito bem com esse tipo de percepção. Por isso mesmo, desenvolveu um estilo de governo onde o que vale, no fundo, não é tanto a capacidade de resolver problemas, mas a de convencer o público de que os problemas foram resolvidos. Na bagunça aérea, o que se fez até agora foi contornar um motim; nenhuma das causas reais da crise foi eliminada. Para quê? Se ou quando o caos se manifestar outra vez, o presidente dirá que foi "apunhalado pelas costas" ou algo assim. Da mesma forma, se o caldo grosso da corrupção na Infraero vier a derramar, o governo imagina que encontrará uma saída qualquer. O que não faz é resolver as coisas na hora certa. Lula nunca se interessou, por exemplo, em estabelecer uma relação entre o fato de haver 135 processos na Infraero, por todo o tipo de desmando, e a existência de algum problema ali. Vai ver, agora, o que dá para fazer. É a herança em construção.
A crise nos aeroportos ilustra uma marca do governo Lula -- a obsessão por criar "heranças malditas" para si mesmo, para os próximos governantes e para o conjunto da população brasileira
Uma das inovações mais interessantes que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva trouxe para a administração pública brasileira é o Departamento de Gerência de Heranças Malditas. No começo, servia para jogar a culpa por tudo que havia de errado no governo anterior, ou nos que vieram antes dele. Depois, passou a encher o contêiner de problemas que será legado para o próximo governo, tarefa, aliás, na qual se encontra ativamente empenhado neste momento. Por fim, e esta talvez seja a grande novidade, conseguiu criar uma herança maldita para si próprio. Seu melhor exemplo é a crise dos aeroportos, que se destaca de diversas outras por juntar levante de militares, ameaça de CPI, suspeitas de corrupção na Infraero, um inédito calvário para o público e exibições de incompetência explícita. Ao longo de seis meses, o governo fez tudo o que era possível para criar e agravar o problema, até ver-se atropelado por um motim de sargentos da Aeronáutica e pelo abandono de postos por oficiais. Agora colhe o que plantou.
Há nisso uma notícia ruim e uma notícia boa. A notícia ruim é a herança em si -- pois o governo pode ficar mal na foto, mas quem paga mesmo por ela é o público em geral. Já a notícia boa só é boa para o presidente Lula. Sua popularidade, de acordo com as últimas pesquisas, navega em mar de almirante, já que céu de brigadeiro, hoje em dia, não está lá essas coisas. Apesar da calamidade nos aeroportos, da angústia diante da criminalidade e de tudo o que se vê em matéria de escândalos dentro e em volta de seu governo, quase dois terços dos entrevistados aprovam o desempenho do presidente. É um fenômeno. O público tem consciência dos problemas, de sua gravidade e da inépcia do governo para solucioná-los. Mas acha que Lula não é culpado pelas dificuldades -- ao contrário, parece convencido de que o presidente está lutando como um leão para resolver as coisas. Não consegue porque os outros, não se sabe direito quem, não deixam.
Lula é ajudado, sem dúvida, pelo atual desempenho da economia, que vai bem e mal ao mesmo tempo, mas está em seu melhor momento desde que tomou posse. A inflação de março foi a menor dos últimos sete anos. As reservas cambiais estão em 110 bilhões de dólares, algo que põe o Brasil numa situação de estabilidade jamais conhecida antes. O mercado financeiro vive em festa, com as bolsas de valores batendo recordes em cima de recordes. Setores vitais da economia, como a auto-indústria, estão vendendo mais do que nunca. A renda dos mais pobres subiu, mesmo porque a inflação baixa é sua melhor defesa. Já o espetáculo do crescimento entra em seu quinto ano de ensaios, sem data marcada para estrear. O conjunto da indústria mostra um desempenho para lá de fraco. O aumento nas exportações vem caindo de ano para ano desde 2004. É, em resumo, um caso clássico de garrafa metade cheia e meta de vazia -- o que para o governo está de excelente tamanho, já que ruim, mesmo, é garrafa vazia.
Com a combinação de estabilidade econômica e prestígio pessoal imune a problemas, não há, para Lula, por que esquentar a cabeça com os desastres do governo. Quando um presidente da República exige "dia e hora" para os aeroportos voltarem à normalidade e não acontece absolutamente nada, o normal seria sua desmoralização. Não é assim com Lula. O que fica, na cabeça da maioria da população, é que ele deu um basta na desordem. O presidente, já há tempos, tem dado mostras de que sabe trabalhar muito bem com esse tipo de percepção. Por isso mesmo, desenvolveu um estilo de governo onde o que vale, no fundo, não é tanto a capacidade de resolver problemas, mas a de convencer o público de que os problemas foram resolvidos. Na bagunça aérea, o que se fez até agora foi contornar um motim; nenhuma das causas reais da crise foi eliminada. Para quê? Se ou quando o caos se manifestar outra vez, o presidente dirá que foi "apunhalado pelas costas" ou algo assim. Da mesma forma, se o caldo grosso da corrupção na Infraero vier a derramar, o governo imagina que encontrará uma saída qualquer. O que não faz é resolver as coisas na hora certa. Lula nunca se interessou, por exemplo, em estabelecer uma relação entre o fato de haver 135 processos na Infraero, por todo o tipo de desmando, e a existência de algum problema ali. Vai ver, agora, o que dá para fazer. É a herança em construção.