segunda-feira, abril 23, 2007

O futuro no organograma de Lula

José Paulo Kupffer, NoMínimo

O presidente Lula acaba de criar o Ministério do Futuro. Se esse novo apêndice no organograma do governo já é meio estranho, o convidado para ocupá-lo não faz por menos. Vindo do PDT, passando pela coordenação da campanha de Ciro Gomes à Presidência em 2002, e hoje estacionado no PRB do vive-presidente José Alencar e da Igreja Universal, Roberto Mangabeira Unger já disse a Lula que aceita.

Mangabeira Unger é aquele intelectual brasileiro cheio de idéias inconvincentes, que fala com forte sotaque americano e é, pelo menos até segunda ordem, radicado nos Estados Unidos, onde mantém uma cátedra na Escola de Direito da prestigiosíssima Harvard. Tempos atrás, ele chegou a pedir o impeachment de seu novo chefe, a quem acusou de comandar o maior esquema de corrupção já montado no País. Mas, algum tempo depois, como é moda entre os intelectuais brasileiros, pediu que esquecessem o que tinha dito e escrito sobre Lula e o mensalão e aderiu ao governo.

No burocratês brasiliense, o Ministério do Futuro atende pelo nome de Secretaria de Ações de Longo Prazo. Ela vai absorver o Núcleo de Assuntos Estratégicos, aquele que foi criado em 2005 para acomodar Luiz Gushiken, antes de sua saída do governo, nos desdobramentos do imbróglio do mensalão, e do qual nunca se soube de que assuntos e estratégias se ocupou. A nova secretaria ficará também com o Ipea, o think tank econômico do governo, que sempre foi vinculado ao Ministério do Planejamento e cuja independência, pelo menos até aqui, não foi arranhada nem nos piores anos da ditadura militar.

Quem pensa que Lula anda inventando a roda quadrada – e este seu trigésimo sexto ministério seria uma novidade a comprovar a tese – engana-se, com o perdão do trocadilho, redondamente. Há quase 50 anos, um saborosíssimo texto do economista, diplomata e ministro Roberto Campos, em março de 1961, na revista “Senhor” original, “Uma reformulação das leis de Kafka”, já falava num outro governante que montara um ministério com trinta e três pastas, sendo uma delas algo como um Ministério do Futuro.

Campos conta, no texto, que o Kafka (não o Franz, mas o Alexandre Kafka, primo distante do escritor, economista que veio para o cá fugindo da guerra e que representou o Brasil e outros países no FMI durante décadas), ao tempo em que serviu na ONU, convenceu-se de que era “injusta a acusação de que os africanos, a despeito de sua inexperiência em planejamento, são imprevidentes. Narra Campos: “É que [Kafka] já havia sido visitado por um dos trinta e três ministros designados por [Patrice] Lumumba: o ‘Ministro do Futuro’, que outra designação não se pode dar ao ‘Ministre des Classes Moyennes’ do Congo [República Democrática do Congo]”.

Calma, calma, claro que há diferenças entre os Ministérios do Futuro de Lula e de Lumumba. Uma das maiores talvez seja a de que, no caso do Congo do início dos anos 60, as classes médias, conforme a visão sarcástica de Campos, ainda eram alguma coisa para ser criada. Já no Brasil, a classe média, segundo a visão – um pouco dramática, convenhamos – dela própria, faz tempo que não teria futuro algum.