Fernando Canzian, Folha de São Paulo
Um estudo recente e bastante completo do FMI revela que cerca da metade do crescimento de economias emergentes como o Brasil depende de fatores externos.O levantamento leva em conta preços de commodities, ritmo de importações das economias mais avançadas, fluxos de investimentos para os emergentes, entre outros.
Um estudo recente e bastante completo do FMI revela que cerca da metade do crescimento de economias emergentes como o Brasil depende de fatores externos.O levantamento leva em conta preços de commodities, ritmo de importações das economias mais avançadas, fluxos de investimentos para os emergentes, entre outros.
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Fica claro que os 3,7% de crescimento alcançados pelo Brasil em 2006 (com o PIB já revisado) dependeram em grande medida do que aconteceu com o mundo, especialmente com os EUA e a China. Juntos, os dois países são hoje os dois motores da economia mundial.
Fica claro que os 3,7% de crescimento alcançados pelo Brasil em 2006 (com o PIB já revisado) dependeram em grande medida do que aconteceu com o mundo, especialmente com os EUA e a China. Juntos, os dois países são hoje os dois motores da economia mundial.
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Para se ter uma idéia da irrelevância brasileira no atual contexto global, basta considerar que os EUA foram responsáveis por 19,7% do crescimento mundial em 2006. A China, por 15,1%. A União Européia, por 14,7%. Já o Brasil, por 2,6%.Se o mundo como um todo tivesse crescido a metade dos 5,4% de 2006, é possível que o Brasil evoluísse parcos 1,3%.
Para se ter uma idéia da irrelevância brasileira no atual contexto global, basta considerar que os EUA foram responsáveis por 19,7% do crescimento mundial em 2006. A China, por 15,1%. A União Européia, por 14,7%. Já o Brasil, por 2,6%.Se o mundo como um todo tivesse crescido a metade dos 5,4% de 2006, é possível que o Brasil evoluísse parcos 1,3%.
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Pode-se argumentar, corretamente, que sorte faz parte da vida. E que Lula é um cara de sorte. O presidente surfa no melhor cenário econômico mundial dos últimos 30 anos. Basta deslizar a prancha nessa onda para ir para frente. "Tran-ki-lis", como disse nosso líder-Muçum outro dia.
Pode-se argumentar, corretamente, que sorte faz parte da vida. E que Lula é um cara de sorte. O presidente surfa no melhor cenário econômico mundial dos últimos 30 anos. Basta deslizar a prancha nessa onda para ir para frente. "Tran-ki-lis", como disse nosso líder-Muçum outro dia.
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Mas o Brasil é um país de urgências. Uma geração inteira já adulta nunca viu a economia crescer de verdade. Nunca teve oportunidades novas, interessantes e bem remuneradas. O número absurdo de pessoas hoje atrás de vagas em concursos públicos é apenas um dos sintomas dessa doença nacional.
Mas o Brasil é um país de urgências. Uma geração inteira já adulta nunca viu a economia crescer de verdade. Nunca teve oportunidades novas, interessantes e bem remuneradas. O número absurdo de pessoas hoje atrás de vagas em concursos públicos é apenas um dos sintomas dessa doença nacional.
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Nossa sorte é que não se espera nenhuma grande turbulência financeira pela frente. Ou não. É paradoxal, mas, infelizmente para o Brasil, as ameaças parecem estar longe. Dificilmente a abulia lulista acordará de seu sono "nunca neste país" tão esplêndido.
Nossa sorte é que não se espera nenhuma grande turbulência financeira pela frente. Ou não. É paradoxal, mas, infelizmente para o Brasil, as ameaças parecem estar longe. Dificilmente a abulia lulista acordará de seu sono "nunca neste país" tão esplêndido.
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Quase quatro meses se passaram desde a posse de Lula 2. O "PACtóide" do presidente não passa de uma campanha na TV. As tais reformas imprescindíveis são tão necessárias quanto inexistentes. A da Previdência é discutida em um fórum modorrento. A tributária certamente resultará em mais carga de impostos. Pois uma coisa é certa: nada mais certo neste país do que apostar em aumento contínuo do gasto público.
Quase quatro meses se passaram desde a posse de Lula 2. O "PACtóide" do presidente não passa de uma campanha na TV. As tais reformas imprescindíveis são tão necessárias quanto inexistentes. A da Previdência é discutida em um fórum modorrento. A tributária certamente resultará em mais carga de impostos. Pois uma coisa é certa: nada mais certo neste país do que apostar em aumento contínuo do gasto público.
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No final, com a ajuda dos outros, vamos mais ou menos bem. Mas estamos mal. É mais uma inacreditável perda de tempo. Desta vez, nas mãos do presidente mais bem avaliado desde a redemocratização e reeleito com uma vantagem de 20 milhões de votos.
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Mas que ninguém se engane: os programas sociais que colocaram Lula nesse patamar têm um custo e um limite. Aparentemente, já alcançados. Agora, precisamos de outro salto, estrutural. O que o "intuitivo" Lula está esperando? Uma crise?
Mas que ninguém se engane: os programas sociais que colocaram Lula nesse patamar têm um custo e um limite. Aparentemente, já alcançados. Agora, precisamos de outro salto, estrutural. O que o "intuitivo" Lula está esperando? Uma crise?
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A metade. A metade do que crescemos ainda depende dos outros, não de nós.
A metade. A metade do que crescemos ainda depende dos outros, não de nós.
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"No 'tik', no laundry".
A frase, proferida pelo ator Jack Nicholson no tão desagradável quanto violento "Os infiltrados", é o que há de melhor no filme. Revela muito sobre os EUA e a sua mais recente tragédia, o massacre de mais de 30 estudantes por um sul-coreano maluco, reprimido e violento da Virgínia.
"No 'tik', no laundry".
A frase, proferida pelo ator Jack Nicholson no tão desagradável quanto violento "Os infiltrados", é o que há de melhor no filme. Revela muito sobre os EUA e a sua mais recente tragédia, o massacre de mais de 30 estudantes por um sul-coreano maluco, reprimido e violento da Virgínia.
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A expressão brota como um bordão dos "chinas" nos EUA, responsáveis pela limpeza das roupas dos americanos em lavanderias tão quentes quanto baratas. É a regra: sem o ticket, o cliente não pode levar a sua roupa limpa.
A expressão brota como um bordão dos "chinas" nos EUA, responsáveis pela limpeza das roupas dos americanos em lavanderias tão quentes quanto baratas. É a regra: sem o ticket, o cliente não pode levar a sua roupa limpa.
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A frase de Nicholson no filme, em uma transação criminosa com os "maus chinas", é carregada de preconceito. Revela como os americanos, senhores da ordem, podem ser perversamente cínicos ao serem cobrados pelos "chinas" do outro lado do balcão em sua obrigação: a de levar a porcaria do "tik" à lavanderia. Mostra, via Hollywood, a ponta do iceberg do que ocorre nas relações diárias entre americanos e "os outros".
A frase de Nicholson no filme, em uma transação criminosa com os "maus chinas", é carregada de preconceito. Revela como os americanos, senhores da ordem, podem ser perversamente cínicos ao serem cobrados pelos "chinas" do outro lado do balcão em sua obrigação: a de levar a porcaria do "tik" à lavanderia. Mostra, via Hollywood, a ponta do iceberg do que ocorre nas relações diárias entre americanos e "os outros".
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Nada justifica o recente massacre nos EUA. Aliás, quase nada, já que ele aconteceu. Mas cabe lembrar que os verdadeiros EUA são um país branco, protestante e estranho. A ladainha da "terra da liberdade", do "leite e do mel" não se encaixa com a realidade de muitos imigrantes ou dos próprios negros norte-americanos na Nova Orleans pré e pós Katrina --ferrados no durante e no depois.Também não se encaixa na hipercompetitividade e na execração observável, diária, contra os menos preparados, fracos e de pele um pouco menos clara. Seja na escola de tecnologia da Virgínia ou no mercado de trabalho do dia a dia --everywhere.
Nada justifica o recente massacre nos EUA. Aliás, quase nada, já que ele aconteceu. Mas cabe lembrar que os verdadeiros EUA são um país branco, protestante e estranho. A ladainha da "terra da liberdade", do "leite e do mel" não se encaixa com a realidade de muitos imigrantes ou dos próprios negros norte-americanos na Nova Orleans pré e pós Katrina --ferrados no durante e no depois.Também não se encaixa na hipercompetitividade e na execração observável, diária, contra os menos preparados, fracos e de pele um pouco menos clara. Seja na escola de tecnologia da Virgínia ou no mercado de trabalho do dia a dia --everywhere.
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A ladainha é puro marketing de um capitalismo muito avançado e implacável. Que se alimenta e vibra com o sucesso de cada um, com a competição entre todos. Com franca isonomia legal (por certo um extraordinário avanço), mas com forte dose de preconceito racial nas vantagens comparativas.
A ladainha é puro marketing de um capitalismo muito avançado e implacável. Que se alimenta e vibra com o sucesso de cada um, com a competição entre todos. Com franca isonomia legal (por certo um extraordinário avanço), mas com forte dose de preconceito racial nas vantagens comparativas.
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Parece natural que algo de doentio saia disso