segunda-feira, abril 23, 2007

ENQUANTO ISSO...

Desembargador acusa MP de "inveja e armação"

O desembargador federal José Ricardo Regueira atribuiu ontem sua prisão na Operação Furacão, "a uma armação do Ministério Público." Beneficiado por um habeas-corpus do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Cezar Peluso, o desembargador foi solto no sábado e ontem pela manhã voltou ao Rio de Janeiro. Antes de embarcar, Regueira circulou pelas lojas do Aeroporto Juscelino Kubitschek, em Brasília, onde conversou com a reportagem. "Os verdadeiros criminosos estão do outro lado. Tenho bom gosto, sou requintado, as pessoas têm inveja", afirmou.

Detido no dia 13, citado em inquérito da Polícia Federal sobre um esquema de venda de sentenças para a indústria do jogo, Regueira ficou nove dias na Superintendência da Polícia Federal em Brasília. Desembargador do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2), no Rio, disparou farpas não só contra o Ministério Público, mas também contra a PF. "Eles me prenderam porque moro num lugar tranqüilo", afirmou. "Quero ver se eu mudar para a Favela da Rocinha. Duvido que aqueles caras subam lá no morro para me prender."

Depois afirmou que a PF é ineficiente no policiamento dos aeroportos. "Boa parte das armas usadas pelas facções criminosas chega pelos aeroportos."

Com dois charutos no bolso da camisa jeans, barbeado e com cabelos cuidadosamente penteados e fixados com gel, o desembargador citou como exemplo do seu requinte e apuro intelectual uma viagem recente, na qual fez o Caminho de São Tiago, em Santiago de Compostela, na Espanha.

No aeroporto, Regueira gastou R$ 175,90, pagos com cartão de crédito, numa livraria. A lista de compras não era exatamente requintada, mas incluía um título sugestivo, que ele fez questão de exibir: "O Inocente - Uma História Real de Crime e Injustiça", do autor de best sellers John Grisham, sobre as falhas do sistema judiciário americano. Entre as outras obras compradas estavam um livro do Dalai Lama, "Quando Ele Voltar", de Ricky Medeiros; "Virtudes Para Outro Mundo Previsível", do teólogo e ex-padre Leonardo Boff; e "O Morro das Ilusões", da médium Zíbia Gasparetto.

Regueira viajou com a mulher, a juíza federal Lana Maria Fontes Regueira. Deixou a sala de desembarque do Aeroporto Tom Jobim, no Rio, sozinho, assobiando. Posou para o fotógrafo fazendo sinal de positivo. Disse que sua prisão foi um contratempo menor. "Depois que perdi meu filho (o advogado Acrisio Bicudo Fontes Neto, morto num assalto em setembro de 2004, com dois tiros na cabeça) e esses m... (numa referência à polícia) não fizeram nada, todo o resto é café pequeno."
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Além de Regueira, foram beneficiados pelo habeas-corpus do Supremo o desembargador José Eduardo Carreira Alvim, seu colega a no TRF-2 e o procurador da República no Rio João Sérgio Leal Pereira.
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No Rio, o governador Sérgio Cabral (PMDB) comentou ontem o caso do secretário da Habitação, Noel de Carvalho, que teve um assessor acusado pela PF de receber dinheiro do bicho na campanha eleitoral de 2006. Na sexta-feira, Carvalho afirmou que colocara o cargo à disposição. "Ainda não falei com o Noel. Vou conversar. Ele tem uma trajetória de vida brilhante e merece todo o nosso carinho."

Enquanto isso...

Desembargador tentou esconder frota de carros antigos

SÃO PAULO - Um dia antes de a Polícia Federal deflagrar a Operação Têmis, o desembargador Roberto Haddad, investigado no suposto esquema de venda de sentenças, escondeu parte de sua coleção de carros antigos. A manobra, no entanto, acabou sendo flagrada por câmeras de circuito interno de TV da garagem do seu prédio no Itaim-Bibi, na Zona Sul de São Paulo. As imagens, que mostram toda a frota estacionada na noite anterior à operação e podem identificar inclusive quem retirou os veículos, já estão em poder da PF.

A análise de todo o material apreendido será feita durante esta semana na sede da Superintendência da Polícia Federal em São Paulo, na Lapa. Haddad é apontado pela força-tarefa que reúne a PF, a Procuradoria da República e a Receita como um dos principais personagens da suposta organização montada no Tribunal Regional Federal da 3ª Região.

O desembargador aprecia veículos antigos e é sócio, com seu irmão, de uma oficina de restauração de carros na Rua Adolfo Gordo, no bairro de Campos Elísios, no centro da capital. A oficina chegou a ser revistada na manhã de sexta-feira pelas equipes federais.

Para a PF, a manobra comprova a suspeita de que houve vazamento de informações e que os investigados foram alertados, com antecedência, sobre a Têmis. Em vários locais vasculhados, não houve apreensão de papéis importantes. No apartamento onde o desembargador Haddad mora, na Rua Pedroso Alvarenga, em Pinheiros, na zona oeste, foram achados R$ 10 mil, US$ 1,7 mil e relógios Rolex, mas nenhum documento judicial.

Os investigadores descobriram que alguns integrantes do grupo, ao serem avisados por um funcionário da empresa Telefônica sobre o monitoramento , trocaram de aparelhos celulares para evitar o grampo. Segundo o delegado Luiz Roberto Ungaretti de Godoy, os suspeitos chegaram a destruir documentos e queimar provas há cerca de um mês. A PF vai pedir agora ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) autorização para apreender carros do desembargador O Estado não conseguiu localizar Haddad neste domingo.

COMENTANDO A NOTICIA: Claro que cada um tenta se defender como pode. A afirmação de que o Ministério Público tenha inveja do Judiciário é uma daquelas tolices que o melhor que se tem a fazer é simplesmente ignorá-la. Fazer de conta de que não a ouviu. O que não faltam neste caso na Operação Furacão (prefiro assim, em português mesmo), foram provas, foram evidências, documentos e gravações dando conta da patifaria que se praticava dentro do Poder Judiciário, por gente que deveria zelar pelo cumprimento da lei , e não aproveitar-se do cargo para andar fora dela. É de se esperar que os culpados sejam exemplarmente punidos. O Judiciário tem este dever não apenas constitucional, mas porque não pode atestar a si mesmo mais ilegal além do que já foi. Até porque é de esperar uma grande pressão vinda das ruas. Eles podem ser tudo, burros é que não são. Porém, a punição que se esperar tem que estar à altura do crime praticado, mas não só isso: terá que considerar quem o praticou. Não poderá haver “contemplações”, porque quando juízes e desembargadores se colocam do outro lado do balcão, isto é, na qualidade de réus e cúmplices de crimes, seja de que natureza forem, eles o fazem com plena consciência de seus atos e se valem de seus cargos para delinqüir. Entre alguém que rouba um pote de margarina por que tem (não que isto seja desculpa, é crime de roubo igual), e alguém investido do poder de justiça rouba e corrompe por ganância ou por espírito criminoso, este último precisa ter uma punição maior. Do contrário, estaremos construindo um sociedade desigual, onde a lei privilegia alguns em detrimento de outros. E este não é o seu espírito.