terça-feira, maio 29, 2007

Foi para o cemitério

Sebastião Nery, Tribuna da Imprensa

Nestor Rocha, ex-vereador carioca e conselheiro do Tribunal de Contas do Município do Rio, foi dias atrás a Buenos Aires com a mulher, a bela jornalista Liliana Rodrigues, festejar o aniversário da filha Nicoli. Teve um infarto no hotel, foi socorrido a tempo e hospitalizado. No Rio, os amigos ficaram aflitos. As notícias eram boas, mas notícia de coração nunca tem muita garantia. O empresário Murilo Barbosa Lima, companheiro de praia no calçadão de Ipanema-Leblon, foi lá ver como estava a situação. Do aeroporto, seguiu direto para o Hotel Caesar Park:
- O doutor Nestor Rocha já voltou para cá ou ainda está no hospital?

O recepcionista conferiu no computador, informou todo sério:

- O doutor Rocha acaba de sair para o cemitério.
.
Murilo quase teve seu próprio infarto. Liberado pelos médicos naquela manhã, Nestor tinha ido visitar o famoso Cemitério da Ricoleta.

Revolução do celular
Em Brasília, não se pode mais perguntar por ninguém. Todo mundo saiu, sumiu. Não está em casa, não está no trabalho. E nunca se sabe se foi para a rua, para o hospital ou para o cemitério. Ninguem sabe de ninguém. O melhor é se esconder. A Cidade da Esperança de JK virou a cidade do medo. Reclamam porque a Polícia Federal consegue grampear, ouvir, gravar, seguir tanta gente ao mesmo tempo. As civilizações são sempre assim. Inventam o futuro e querem que tudo continue acontecendo como no passado. Não prestaram atenção na fantástica revolução do telefone celular.

Caminhada
O sujeito sai para a caminhada matinal no Parque do Flamengo, no Parque do Ibirapuera em São Paulo, no da Cidade em Brasília, etc. E leva o celular. Começa a trabalhar freneticamente. Liga para o deputado do esquema, combina uma emenda no Orçamento. Liga para o assessor do ministro, comunica que a emenda está assegurada. Liga para a tesouraria, acerta o empenho rápido da verba. Liga para o Planalto, consegue a garantia da liberação do dinheiro. Liga para o chefe e informa que está tudo resolvido. Só falta agora a empresa providenciar o dinheiro, o pagamento, para cada um dos "operadores": depositado no banco, entregue no aeroporto, no hotel, no escritório, mandado em envelopes, em pastas, em maletas. Quando a caminhada de uma, duas horas acabou, missão cumprida. Todos os telefonemas dados, tudo resolvido. Para ele e para a Polícia Federal.

Polícia Federal
A polícia já estava com a gravação completa, o CD prontinho. Era só ouvir e tirar. Duas horas de escuta que valeram por meses de trabalho. Se fosse até bem pouco tempo, o caminhante matinal teria que voltar para casa ou ir para o escritório, esperar uma linha, chatear as secretarias, às vezes pegar um avião, para tentar falar com a turma toda. Quando conseguia ligar, muita gente já não estava em casa, no trabalho. Ia gastar um, dois, vários dias. Com o celular, ele mesmo, sozinho, fez tudo em um mínimo de tempo. E quanto mais era fácil, mais abertamente ele falava e se encalacrava. Dizem que a polícia está mais preparada, mais organizada, mais competente, mais independente. Deve estar. Mas, sem a revolução do celular, não estaria.

Doce de leite
O pânico do telefone, do celular, já começou a se espalhar. Todo mundo com medo de estar grampeado, ouvido. Não falou claro no telefone, do outro lado avisam logo que é para explicar bem, não deixar qualquer dúvida. O mesmo Murilo, que foi a Buenos Aires ver o Nestor Rocha, na volta passou por Montevidéu e trouxe uma caixa de doce de leite uruguaio para um amigo, também empresário, que o considera o melhor doce de leite do mundo: - Fulano, passei em Montevidéu e trouxe aquele doce de leite para você. - Você está maluco, Murilo? Falando no telefone em doce de leite do Uruguai? Explica logo, bem direitinho, que é doce de leite mesmo, aquele maravilhoso. E diz a marca. Podem pensar que é dinheiro de doleiro.

Jaques Wagner
O marítimo e impoluto governador Jaques Wagner, da Bahia, não precisa se preocupar com nada disso. Ele tem seu álibi para tudo: a agência de propaganda Leiaute. Ela fez sua campanha de 2000 para prefeito de Camaçari, a de 2002 para governador, a de 2004 para eleger o prefeito Luís Caetano e a de 2006 para governador. E até hoje, cinco meses depois, a Leiaute continua a agência oficial do governo, sem licitação nenhuma.
.
Apavorado com a tempestade da Navalha, sábado, em um pezinho da página 26 do jornal "A Tarde", de Salvador, o governador publicou um aviso de "concorrência pública" para "prestação de serviços de publicidade para órgãos e entidades da Administração Direta e Indireta do Poder Executivo". Cada um tem a agência de propaganda que merece. Marcos Valério operou o Mensalão na SGB. Wagner tem a "Leiaute", onde Zuleido se reunia.

Mangabeira
Sabem por que se chama "Ministério do Futuro" o que Lula criou para o gringo-baiano Mangabeira Unger, que dizia que "o governo Lula é o mais corrupto que o País já teve"? É para dar tempo a Unger de aprender português.