O DRAMALHÃO DO SENADOR
Adelson Elias Vasconcellos, Comentando a Notícia
Pois então: Renan Calheiros ocupou a tribuna do senado para um ato de auto-comiseração. Esperava, e em parte conseguiu, que sua leitura em defesa de si mesmo, provocasse a reversão do sentimento que ficou após as denúncias publicadas pela Revista VEJA, sobre pagamentos de sua responsabilidade, feitos pela Construtora Mendes Junior, e no escritório desta.
Aqui não me interessa a título do quê tais pagamentos foram feitos. São de foro íntimo do senador, ou melhor, do cidadão Renan Calheiros.
Na Tribuna da Imprensa, o jornalista Hélio Fernandes desancou o pau nas denúncias da revista Veja. Acho que ou o Hélio fez a leitura errada, ou está enxergando má fé onde ela não existe. Primeiro, que a VEJA como que recebeu o prato pronto e servido. Tudo veio à tona a partir da Operação Navalha da Polícia Federal. Não me consta que a Revista VEJA componha as agendas das ações da PF. Depois, algumas informações foram oferecidas para o conhecimento público a partir das gravações feitas pela própria PF. Portanto, fora ainda do alcance da Veja. Somente a partir de parte do conteúdo das gravações, é que se foi atrás da informação jornalística.
Na análise que o Hélio faz do caso, ele começa por desqualificar a revista, para depois, e somente depois, se ater a matéria publicada. Em primeiro lugar, a revista Veja não vive de verbas públicas, e sim da venda de suas revistas nas bancas e assinaturas, e da verba publicitária dos anunciantes, cuja imensa maioria se tratam de empresas privadas. Portanto, analisar a biografia dos Civitas não faz da denúncia feita pela Veja mais ou menos importante.
É importante que Calhjeiros é um política que está no batente já por aproximadamente 30 anos, ou seja, ao longo de 30 anos Calheiros vive de verba pública, aquela que nós pagamos em impostos. Se ele desejar ter dez filhos fora do casamento com dez mulheres diferentes isto é problema moral e sexual dele. Contudo, a partir do momento em que os pagamentos das pensões alimentícias foram feitas ou com verbas públicas, ou através do uso da influência pelos cargos que ocupa no poder na sua relação com fornecedores ou prestadores de serviços para o Estado, então se está diante de um caso que é sim do interesse público. Não o filho ou a mulher, mas o dinheiro que serve para bancar suas obrigações paternais, conjugais e extra-conjugais. E considere-se mais um detalhe: Renan Calheiros é o quarto homem na linha sucessória, portanto, não se trata de um político do baixo clero. Trata-se nada mais nada menos do que o Presidente do Congresso nacional. Portanto, suas relações no cargo são de interesse público.
Além disto, se nos depararmos em analisar o seu discurso, ele praticamente mas abre dúvidas do que esclarece. Na verdade, Calheiros não desmentiu a denúncia da Veja. E o que é pior: o advogado de Mônica Velloso, entrevistado pelo Jornal Nacional da Rede Globo, garantiu que os pagamentos feitos por Renan se deram exatamente da forma como a revista publicou. Portanto, onde está a leviandade ? Onde está a sacanagem ? Onde se plantou mentiras ? É preciso se atentar que até nos valores há enormes diferenças que o senador não esclareceu. Há brechas, há contradições que o discurso não esclareceu. Não vale apelar para o emocionalismo barato e rasteiro tal qual Renan tentou usar para defender-se. A tal ponto que até Ideli Salvati mostrou-se comovida, a ponto de “...defender a preservação do espaço democrático do Senado, tão duramente conquistado...” De onde Ideli foi buscar que este espaço estivesse ameaçado pelo fato do senador Renan ser acusado de usar dinheiro de empreiteira para pagar pensão alimentícia ? A se confirmar a denuncia como verdadeira, ele sim, na qualidade de Presidente do Senado, é que estaria maculando aquela casa e o cargo com uso de sua influência para ser abastecido por uma prestadora de serviço do governo. Estivesse pagando do seu bolso, como em parte ele comprovou tudo bem. Mas e o restante ?
Na verdade há muita coisa que precisa e deve ser esclarecida. Pelo cargo que ocupa, Renan Calheiros não pode ficar pendurado na suspeita, isto seria desonroso para a já tão conturbada imagem do congresso.
Além disto, leiam o discurso na íntegra e vocês perceberão um dado curioso: Renan Calheiros em momento algum se dirige à revista VEJA de forma enfática, de forma incisiva para desmenti-la, ele como que vai escorregando pelas bordas, tentando construir pelo emocionalismo uma história favorável. Mas não se vê coisas do tipo “A Revista VEJA mentiu, os pagamentos que fiz estão aqui, eis os recibos, eis os extratos bancários e os recibos de depósito bancário”. Não, ele foi rodeando numa encenação lamuriosa sem jamais acusar como caluniosa a denúncia. Aliás, se ao defender-se, ele mentisse e os fatos mais tardes viessem denunciá-lo, sua posição seria insustentável. Mostrou alguma coisa, mas não suficiente para descaracterizar a reportagem. A novela vai prosseguir, há algumas coisas que foram omitidas e outras que permanecem em aberto. Aguardemos, portanto, os próximos capítulos. O dramalhão, desta vez, promete. E justificaria sim uma CPI, não pelo caso em si, que não seria o bastante, porém ele dá fechamento a toda uma longa e tenebrosa novela de relações nem sempre esclarecidas entre o governo e as empreiteiras. Elas não começam com o governo Lula, se arrastam há bem mais tempo. O espaço de uma CPI não seria suficiente para abraçar investigação sobre todo o histórico deste relacionamento um tanto promíscuo. E, se mesmo não se pudesse prender ninguém, já seria o bastante para que estas relações e negociações passassem a realizar-se com um pingo maior de moralidade. Como resultado, alguns milhões seriam poupados nas próximas licitações.
Interessante: a Construtora Gautama, considerando-se o universo das empreiteiras, pode-se dizer ser um peixe de porte médio. Imaginem se chegarmos no topo do ranking o que por lá não acontece ? O que tem isto a ver com a defesa de Renan ? É simples: a depender de Renan e de outros caciques tanto do senado quanto da câmara, não haverá CPI da empreiteiras coisíssima nenhuma. Eles sabem bem o que se esconde dentro desta cumbuca. Renan deixa isto claro no seu discurso. Bem piegas por sinal. Tanto que sequer ameaçou a Veja de um processo por calúnia. Compreendo: não houve calúnia.
Mas é muito bom que esta caca seja exposta. Se o povo continuar escolhendo estes ratos de porão, não poderá reclamar deles continuarem a praticar aquilo em que mais se especializaram ao longo do tempo: relações promíscuas e fechamento de caixa ... Se é para expor nossa mediocridade é bom que seja, pelo menos, às claras, sem hipocrisia.
Adelson Elias Vasconcellos, Comentando a Notícia
Pois então: Renan Calheiros ocupou a tribuna do senado para um ato de auto-comiseração. Esperava, e em parte conseguiu, que sua leitura em defesa de si mesmo, provocasse a reversão do sentimento que ficou após as denúncias publicadas pela Revista VEJA, sobre pagamentos de sua responsabilidade, feitos pela Construtora Mendes Junior, e no escritório desta.
Aqui não me interessa a título do quê tais pagamentos foram feitos. São de foro íntimo do senador, ou melhor, do cidadão Renan Calheiros.
Na Tribuna da Imprensa, o jornalista Hélio Fernandes desancou o pau nas denúncias da revista Veja. Acho que ou o Hélio fez a leitura errada, ou está enxergando má fé onde ela não existe. Primeiro, que a VEJA como que recebeu o prato pronto e servido. Tudo veio à tona a partir da Operação Navalha da Polícia Federal. Não me consta que a Revista VEJA componha as agendas das ações da PF. Depois, algumas informações foram oferecidas para o conhecimento público a partir das gravações feitas pela própria PF. Portanto, fora ainda do alcance da Veja. Somente a partir de parte do conteúdo das gravações, é que se foi atrás da informação jornalística.
Na análise que o Hélio faz do caso, ele começa por desqualificar a revista, para depois, e somente depois, se ater a matéria publicada. Em primeiro lugar, a revista Veja não vive de verbas públicas, e sim da venda de suas revistas nas bancas e assinaturas, e da verba publicitária dos anunciantes, cuja imensa maioria se tratam de empresas privadas. Portanto, analisar a biografia dos Civitas não faz da denúncia feita pela Veja mais ou menos importante.
É importante que Calhjeiros é um política que está no batente já por aproximadamente 30 anos, ou seja, ao longo de 30 anos Calheiros vive de verba pública, aquela que nós pagamos em impostos. Se ele desejar ter dez filhos fora do casamento com dez mulheres diferentes isto é problema moral e sexual dele. Contudo, a partir do momento em que os pagamentos das pensões alimentícias foram feitas ou com verbas públicas, ou através do uso da influência pelos cargos que ocupa no poder na sua relação com fornecedores ou prestadores de serviços para o Estado, então se está diante de um caso que é sim do interesse público. Não o filho ou a mulher, mas o dinheiro que serve para bancar suas obrigações paternais, conjugais e extra-conjugais. E considere-se mais um detalhe: Renan Calheiros é o quarto homem na linha sucessória, portanto, não se trata de um político do baixo clero. Trata-se nada mais nada menos do que o Presidente do Congresso nacional. Portanto, suas relações no cargo são de interesse público.
Além disto, se nos depararmos em analisar o seu discurso, ele praticamente mas abre dúvidas do que esclarece. Na verdade, Calheiros não desmentiu a denúncia da Veja. E o que é pior: o advogado de Mônica Velloso, entrevistado pelo Jornal Nacional da Rede Globo, garantiu que os pagamentos feitos por Renan se deram exatamente da forma como a revista publicou. Portanto, onde está a leviandade ? Onde está a sacanagem ? Onde se plantou mentiras ? É preciso se atentar que até nos valores há enormes diferenças que o senador não esclareceu. Há brechas, há contradições que o discurso não esclareceu. Não vale apelar para o emocionalismo barato e rasteiro tal qual Renan tentou usar para defender-se. A tal ponto que até Ideli Salvati mostrou-se comovida, a ponto de “...defender a preservação do espaço democrático do Senado, tão duramente conquistado...” De onde Ideli foi buscar que este espaço estivesse ameaçado pelo fato do senador Renan ser acusado de usar dinheiro de empreiteira para pagar pensão alimentícia ? A se confirmar a denuncia como verdadeira, ele sim, na qualidade de Presidente do Senado, é que estaria maculando aquela casa e o cargo com uso de sua influência para ser abastecido por uma prestadora de serviço do governo. Estivesse pagando do seu bolso, como em parte ele comprovou tudo bem. Mas e o restante ?
Na verdade há muita coisa que precisa e deve ser esclarecida. Pelo cargo que ocupa, Renan Calheiros não pode ficar pendurado na suspeita, isto seria desonroso para a já tão conturbada imagem do congresso.
Além disto, leiam o discurso na íntegra e vocês perceberão um dado curioso: Renan Calheiros em momento algum se dirige à revista VEJA de forma enfática, de forma incisiva para desmenti-la, ele como que vai escorregando pelas bordas, tentando construir pelo emocionalismo uma história favorável. Mas não se vê coisas do tipo “A Revista VEJA mentiu, os pagamentos que fiz estão aqui, eis os recibos, eis os extratos bancários e os recibos de depósito bancário”. Não, ele foi rodeando numa encenação lamuriosa sem jamais acusar como caluniosa a denúncia. Aliás, se ao defender-se, ele mentisse e os fatos mais tardes viessem denunciá-lo, sua posição seria insustentável. Mostrou alguma coisa, mas não suficiente para descaracterizar a reportagem. A novela vai prosseguir, há algumas coisas que foram omitidas e outras que permanecem em aberto. Aguardemos, portanto, os próximos capítulos. O dramalhão, desta vez, promete. E justificaria sim uma CPI, não pelo caso em si, que não seria o bastante, porém ele dá fechamento a toda uma longa e tenebrosa novela de relações nem sempre esclarecidas entre o governo e as empreiteiras. Elas não começam com o governo Lula, se arrastam há bem mais tempo. O espaço de uma CPI não seria suficiente para abraçar investigação sobre todo o histórico deste relacionamento um tanto promíscuo. E, se mesmo não se pudesse prender ninguém, já seria o bastante para que estas relações e negociações passassem a realizar-se com um pingo maior de moralidade. Como resultado, alguns milhões seriam poupados nas próximas licitações.
Interessante: a Construtora Gautama, considerando-se o universo das empreiteiras, pode-se dizer ser um peixe de porte médio. Imaginem se chegarmos no topo do ranking o que por lá não acontece ? O que tem isto a ver com a defesa de Renan ? É simples: a depender de Renan e de outros caciques tanto do senado quanto da câmara, não haverá CPI da empreiteiras coisíssima nenhuma. Eles sabem bem o que se esconde dentro desta cumbuca. Renan deixa isto claro no seu discurso. Bem piegas por sinal. Tanto que sequer ameaçou a Veja de um processo por calúnia. Compreendo: não houve calúnia.
Mas é muito bom que esta caca seja exposta. Se o povo continuar escolhendo estes ratos de porão, não poderá reclamar deles continuarem a praticar aquilo em que mais se especializaram ao longo do tempo: relações promíscuas e fechamento de caixa ... Se é para expor nossa mediocridade é bom que seja, pelo menos, às claras, sem hipocrisia.