terça-feira, maio 29, 2007

A saída pela janela

Villas-Bôas Corrêa, Jornal do Brasil

Há um lado cômico na estabanada aflição do Congresso, enterrado até o pescoço no escândalo do ano, investigado pela Polícia Federal (PF) na Operação Navalha. Desde que vazaram as primeiras informações sobre o vulto da roubalheira envolvendo ministros, governadores, prefeitos, parlamentares, muita gente passa noites em claro.

Antes que se desenrole todo o novelo das denúncias cabeludas, a crise saltitará de um lado para o outro, deixando vítimas pelo caminho. Mas o maior foco de angústias fixou-se nos dois palácios geminados do Legislativo, com a confirmação pela PF da lista com 40 parlamentares distinguidos com os mimos da construtora Gautama, especialista em obras inacabadas e na generosa distribuição de propinas aos que a ajudam a meter os gadanhos no dinheiro público.

A lista fantasma, com a indicação do total dos fregueses de caderno do empreiteiro Zuleido Veras - um ilustre desconhecido lançado com estrépito no charco da notoriedade - excitou a curiosidade dos que receiam pelo pior e dos que querem conhecer os colegas que pisaram na bola e em outras porcarias.

O ângulo patusco mistura aflição para sair da zona escura e pena na coleta de assinaturas para a instalação da explosiva CPI mista da Câmara e do Senado, para investigar a Operação Navalha, com a paúra dos que procuram o jeito de pular pela janela.

A amaldiçoada lista com nomes de parlamentares de todos os partidos, além de cifras, emendas e seus autores destinando verbas para obras da Gautama, do empreiteiro Zuleido Veras, deve chegar à Câmara, juntamente com o inquérito, uma vez atendido o pedido encaminhado pelo seu presidente, deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP), ao Supremo Tribunal de Justiça (STJ). E que promete tomar todo o cuidado para evitar o risco de vazamento para a imprensa: vai guardar o documento no cofre, trancado a sete chaves.

Avisa: "Não vou abrir aquilo sozinho. Só em companhia de cinco ou seis líderes". Zelo justificável, pois vários suspeitos tiveram suas identidades conhecidas. O pânico é geral, atinge todos os partidos.

No meio do vendaval, lançado na rua da amargura, o ex-ministro de Minas e Energia Silas Rondeau desespera-se com o caiporismo que mancha a ficha limpa de toda uma vida, com o envolvimento, no olho do furacão, com a mais grave e exposta das velhacarias apuradas pela PF. Proclama a sua inocência, jura que vai prová-la, ao mesmo tempo em que as evidências são documentadas pelas gravações pelo circuito interno do andar do gabinete do ministro. A voracidade da Gautama farejou no projeto de eletrificação no Piauí, do Programa Luz para Todos, vinculado ao Ministério de Minas e Energia, uma boa chance de faturar alto. A quadrilha agiu com rapidez , conseguiu fraudar a licitação e acionou seu contacto junto ao gabinete do ministro, o assessor Ivo Almeida Costa, para acertar as coisas.

A papelada andou depressa. Foram enviados R$ 120 mil da Bahia, sede da empresa, para Brasília, sendo R$ 100 mil combinados como propina. No dia 13 de março, a diretora da Gautama, Maria de Fátima Palmeira, é flagrada no corredor do gabinete do ministro, com um envelope pardo, presumivelmente com o dinheiro. Atenta às instruções do lobista Sérgio Sá, entra na sala de Silas Rondeau. E dela a moça sai sem o envelope.

Francamente, são provas acachapantes. Não basta o desmentido indignado para apagar o excelente trabalho da PF, que seguiu todos os passos da longa negociação.

Cadê o envelope? E os supostos R$ 100 mil que ficaram no gabinete do ministro?

Pelo menos o envelope e o dinheiro devem ser devolvidos. Esperemos.