Editorial do Jornal do Brasil
Tisnada por uma já extensa galeria de instabilidades - alicerçada, sobretudo, pela beligerância do coronel Hugo Chávez - a América do Sul assistiu nas últimas semanas a episódios preocupantes, para os quais a diplomacia brasileira voltou a revelar timidez. Temporariamente, ressalte-se, foi superado o gravíssimo problema decorrente da incursão, em solo equatoriano, das forças do governo colombiano para destruir um acampamento das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Mas só temporariamente.
Primeiro veio o cumprimento dos presidentes Alvaro Uribe e Rafael Correa e, de quebra, um abraço sorridente do primeiro com Chávez. Na semana passada, porém, a reunião da Organização dos Estados Americanos (OEA), em Washington, pecou pela falta de objetividade em propostas, e a hostilidade entre delegações da Colômbia e do Equador foi reativada. Havia a expectativa de que os chanceleres de ambos os países dessem um passo adiante no processo de paz. Entraram e saíram da reunião da mesma maneira: sob rancores e acusações mútuas.
São mais graves, porém, os indícios de que as autoridades sul-americanas ignoram as perigosas relações entre as Farc e o tráfico internacional, e dos guerrilheiros com as autoridades da região. Esta é a principal (e compreensível) razão para o dedo em riste dos Estados Unidos e da Colômbia sobre essas vinculações. Tais relações vêm atormentando as fronteiras de todos os países da região. Diferentemente do que defendeu, por exemplo, o assessor especial para Assuntos Internacionais da Presidência, Marco Aurélio Garcia, as Farc estão longe de ser um problema apenas dos colombianos. De fato, nasceram e cresceram na Colômbia. Mas se multiplicaram com tentáculos bem forjados fora dos limites colombianos. Com a instalação da guerrilha no vizinho Equador, trouxe ainda a Venezuela de Hugo Chávez ao rol de protagonistas do impasse diplomático. Suas ligações com o narcotráfico confirmam as conclusões de que o grupo deixou há muito tempo de competir apenas com o governo Uribe.
Que a inviolabilidade das fronteiras seja uma cláusula-pétrea das relações diplomáticas da América do Sul só os delirantes ousarão duvidar. Mas é preciso ressaltar que a inóspita fronteira entre Brasil e Colômbia foi eleita pelos narcotraficantes - sócios das Farc, repita-se - como uma das principais rotas de saída da cocaína colombiana para o Brasil, vizinhos sul-americanos mais distantes, Europa e Estados Unidos. É inquietante ouvir do ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, o argumento de que a própria ONU não classifica as Farc como uma organização terrorista. Trata-se de um legalismo que mais torna obscuro do que ilumina o problema.
Mas passemos. Terroristas ou guerrilheiras, as forças "revolucionárias" colombianas constituem o braço armado de um narcotráfico que ganhou feições aterrorizantes. Está-se diante, portanto, de um problema de segurança nacional. As evidências são antigas. Fernando Beira-Mar, um dos maiores criminosos e traficantes brasileiros, foi capturado nas selvas colombianas em 2001. No ano passado morreu o suspeito de ser o segurança pessoal de Beira-Mar em suas visitas a negócios à Colômbia. Tomás Medina Caracas (conhecido por Negro Acácio) era, também, um dos responsáveis por gerenciar a renda gerada pelo tráfico internacional das Farc. Se tais argumentos não forem suficientes, que se faça a conta da destruição e dos efeitos nefastos que as drogas trazem à sociedade.
Como autoproclamado líder latino-americano o Brasil ainda deve uma atuação mais enfática no combate ao narcotráfico. Neste terreno, não há espaços para tibieza.
Tisnada por uma já extensa galeria de instabilidades - alicerçada, sobretudo, pela beligerância do coronel Hugo Chávez - a América do Sul assistiu nas últimas semanas a episódios preocupantes, para os quais a diplomacia brasileira voltou a revelar timidez. Temporariamente, ressalte-se, foi superado o gravíssimo problema decorrente da incursão, em solo equatoriano, das forças do governo colombiano para destruir um acampamento das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Mas só temporariamente.
Primeiro veio o cumprimento dos presidentes Alvaro Uribe e Rafael Correa e, de quebra, um abraço sorridente do primeiro com Chávez. Na semana passada, porém, a reunião da Organização dos Estados Americanos (OEA), em Washington, pecou pela falta de objetividade em propostas, e a hostilidade entre delegações da Colômbia e do Equador foi reativada. Havia a expectativa de que os chanceleres de ambos os países dessem um passo adiante no processo de paz. Entraram e saíram da reunião da mesma maneira: sob rancores e acusações mútuas.
São mais graves, porém, os indícios de que as autoridades sul-americanas ignoram as perigosas relações entre as Farc e o tráfico internacional, e dos guerrilheiros com as autoridades da região. Esta é a principal (e compreensível) razão para o dedo em riste dos Estados Unidos e da Colômbia sobre essas vinculações. Tais relações vêm atormentando as fronteiras de todos os países da região. Diferentemente do que defendeu, por exemplo, o assessor especial para Assuntos Internacionais da Presidência, Marco Aurélio Garcia, as Farc estão longe de ser um problema apenas dos colombianos. De fato, nasceram e cresceram na Colômbia. Mas se multiplicaram com tentáculos bem forjados fora dos limites colombianos. Com a instalação da guerrilha no vizinho Equador, trouxe ainda a Venezuela de Hugo Chávez ao rol de protagonistas do impasse diplomático. Suas ligações com o narcotráfico confirmam as conclusões de que o grupo deixou há muito tempo de competir apenas com o governo Uribe.
Que a inviolabilidade das fronteiras seja uma cláusula-pétrea das relações diplomáticas da América do Sul só os delirantes ousarão duvidar. Mas é preciso ressaltar que a inóspita fronteira entre Brasil e Colômbia foi eleita pelos narcotraficantes - sócios das Farc, repita-se - como uma das principais rotas de saída da cocaína colombiana para o Brasil, vizinhos sul-americanos mais distantes, Europa e Estados Unidos. É inquietante ouvir do ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, o argumento de que a própria ONU não classifica as Farc como uma organização terrorista. Trata-se de um legalismo que mais torna obscuro do que ilumina o problema.
Mas passemos. Terroristas ou guerrilheiras, as forças "revolucionárias" colombianas constituem o braço armado de um narcotráfico que ganhou feições aterrorizantes. Está-se diante, portanto, de um problema de segurança nacional. As evidências são antigas. Fernando Beira-Mar, um dos maiores criminosos e traficantes brasileiros, foi capturado nas selvas colombianas em 2001. No ano passado morreu o suspeito de ser o segurança pessoal de Beira-Mar em suas visitas a negócios à Colômbia. Tomás Medina Caracas (conhecido por Negro Acácio) era, também, um dos responsáveis por gerenciar a renda gerada pelo tráfico internacional das Farc. Se tais argumentos não forem suficientes, que se faça a conta da destruição e dos efeitos nefastos que as drogas trazem à sociedade.
Como autoproclamado líder latino-americano o Brasil ainda deve uma atuação mais enfática no combate ao narcotráfico. Neste terreno, não há espaços para tibieza.