segunda-feira, março 24, 2008

Uma bofetada do governo nas brasileiras honestas.

Adelson Elias Vasconcellos

Janaína é uma brasileira que mora no Rio Grande do Norte. Apaixonou-se por um jovem espanhol, e resolveu visitá-lo na Espanha. Providenciou tudo o que a imigração exige para quem deseja visitar aquele país, mas, por azar seu, foi impedida de desembarcar. Para as autoridades daquele país, brasileiro é traficante de drogas e brasileiras são prostitutas. Mas, como lembra o Cláudio Humberto:”... Os espanhóis dizem que tentam conter a entrada de prostitutas brasileiras no país. Mas é o Brasil que reprime seriamente esse crime: há, hoje, 49 espanhóis presos por aqui, acusados por tráfico de mulheres...”.

Janaína ficou detida no aeroporto de Madrid por sete dias, incomunicável, humilhada, sem seus documentos, sem sua bagagem, tratada da forma mais indigna e desumana, e não recebeu nem do consulado ou da embaixada brasileiras sequer um segundo de atenção, muito embora seu caso tenha merecido a atenção da imprensa espanhola. Ou seja, não se tratou de desinformação de nossa diplomacia, e sim puro descaso. Não recebeu atenção nem lá, muito menos aqui quando chegou, apenas alguns jornalistas foram-na entrevistar para colher o testemunha de sua mágoa.

A ministra do Turismo quis ser mais do que realmente é. A reação que recebeu não lhe deve ter sido das mais agradáveis. Reproduzimos aqui a informação dada pelo Lauro Jardim na coluna Radar da Revista Veja:

Não foi exatamente tranqüilo o início do vôo 455 da Air France que na terça-feira passada decolou de São Paulo para Paris. A responsável pela trepidação foi Marta Suplicy, que ia para a China, com escala em Paris. Ao embarcar, o casal Marta e Luis Favre relaxou e decidiu não passar pela revista de bagagem de mão feita por raios X. Os Favre furaram a fila da Polícia Federal. Vários passageiros se revoltaram. Marta respondeu que, no Brasil, para as autoridades não valem as exigências que recaem sobre os brasileiros comuns. Os passageiros não relaxaram com a explicação. Continuaram a reclamar, mesmo com todos já embarcados. Deu-se, então, o inusitado: o comandante do Boeing 777 saiu do avião, chamou a segurança e disse que não decolaria até que todos os passageiros passassem suas bagagens de mão pelo raio X. Marta Suplicy deixou seu assento na primeira classe (Favre estava na executiva) e dignou-se fazer o que o comandante pediu. Nesse instante, os passageiros "relaxaram e gozaram".

Uma brasileira, Andréia, que tinha passado por Brasília, e tinha sido uma das “modelos” de aluguel de Jeany Mary Córner (lembram dela?), acabou indo para a Itália, e de lá para os Estados Unidos e lá, dentro de sua “especialização”, acabou fazendo carreira. Até que acabou envolvida com FBI e, de suas confissões, acabou colaborando para a renúncia do governador de Nova York. Acabou presa e foi deportada dos EUA.

Duas brasileiras: uma, pobre e honesta, foi visitar o noivo, acabou impedida de entrar por ser confundida pelas autoridades de imigração como “mais uma prostituta brasileira” de forma injusta, ficou presa no aeroporto por uma semana, e retornou para o seu país como uma cidadã magoada, humilhada e envergonhada de sua honestidade e retidão.

A outra, prostituta de profissão, e cafetina por especialização, envolveu-se com políticos nos EUA, como já acontecera em Brasília, acabou presa , ré confessa, e durante sua prisão, antes de ser deportada, recebeu “assistência consular” e teve seu caso acompanhado pela imprensa brasileira, o que seria normal por se tratar de uma brasileira, mas também de parte de nossas autoridades recebeu muito mais do que qualquer outro brasileira.

Nem é preciso colecionar os inúmeros casos de políticos safados que roubaram milhões e continuaram soltos para viverem suas vidas criminosas e imorais, sem serem importunados, nem pela Polícia, nem pela Justiça. E acabaram reeleitos contra todas as evidências de que o povo os repudiaria.

Os brasileiros ainda vivem os horrores do caos aéreo. Só quem passou pelo inferno dos aeroportos pode avaliar o nível degradante dos serviços prestados à população. E, mesmo assim, a Infraero, que já nos extorque as taxas de embarque aéreo mais caras do mundo, ainda fala em aumenta-las ainda mais. Mas não pensem que o caos acabou: ele apenas foi abafado. Talvez o inferno que vivemos, para este cretinos, não tenha sido doloroso o bastante, apesar de se ter colecionado mais de 350 cadáveres...

Pois bem, mesmo diante de toda a comoção provocada pelos recentes acontecimentos de brasileiros sendo barrados nos aeroportos no exterior, sendo tratados com total desrespeito por serviços de imigração da Inglaterra, Espanha, México, EUA, Itália, França, apenas para citar os mais comuns, nossos serviços consulares nestes países parecem terem sido criados apenas para atender criminosos presos por tráfico de drogas, ou prostitutas. Brasileiros e brasileiras honestas e trabalhadores, mesmo que injustamente detidos e trancafiados incomunicáveis, maltratados e desrespeitados em aeroportos no exterior, não merecem um segundo de cuidado.

Contudo, a tal Andréia, prostituta e cafetina, presa e também acusada de porte de drogas, cumpriu pena e acabou deportada apenas porque dedurou um político grandão, ganhou lugar na 1ª classe como cortesia, e tratamento VIP de parte da INFRAERO. Ah, em tempo: segundo a “moça”, o luxo da viagem teve a ajuda do “bispo” Macedo, aquele mesmo da Igreja Universal.

É justo, portanto, que todas as demais brasileiras se perguntem: será que vale mesmo a pena serem esposas e mães dedicadas, trabalhadoras, honestas e responsáveis, num país que dá tratamento vip para as “outras”, que enveredam pela avenida fácil da prostituição, que envergonham todas as demais brasileiras no exterior com o estigma de que “brasileira é puta” ?

Qual o critério da INFRAERO para conceder a esta “moça” melhor tratamento do que para todos os demais brasileiros, no país ou exterior? E o que os brasileiros, especialmente as mulheres, detidos injustamente nos serviços de imigração no exterior, deverão fazer para merecer de parte de nossos “diplomatas” tanto paparico, atenção e “assistência” ? Uma carteirinha de “puta sindicalizada”, ou talvez uma estrelinha do PT na lapela ? Ou será que o “bispo” Macedo se lembrou da bofetada que acabou dando em todas as milhares de devotas de sua “Igreja” que preferem o caminho da retidão?

Querem saber: às vezes, diante destas calamidades, envergonha sermos brasileiros, ainda mais quando somos honestos e trabalhadores. O país parece adorar muito mais os cafajestes, gigolôs, trapaceiros de todos os matizes e canastrões de toda a espécie.

A seguir, reportagem do Estadão sobre esta página que representa muito da devassidão que corrói a sociedade brasileira.


Cafetina recebe regalias na volta ao Brasil e negocia entrevistas

Andreia Schwartz ganhou lugar na 1ª classe como cortesia; Infraero providenciou tratamento especial

VITÓRIA - Condenada pela Justiça americana por explorar a prostituição e por porte de drogas, Andréia Schwartz viveu seus momentos de glória no retorno ao Brasil, sábado, 22. A viagem de Nova York a São Paulo, pela American Air Lines, foi na primeira classe, apesar da sua condição de deportada. O luxo, segundo ela, teve a ajuda inicial do "bispo Macedo", da Igreja Universal do Reino de Deus, dona da Rede Record.

Em retribuição, foi para este canal de TV sua primeira entrevista, por telefone, do aeroporto de Guarulhos. "Alguns veículos estão me levando a sério, como a Record. O bispo Macedo pagou minha passagem na classe executiva para eu voltar dos Estados Unidos", admitiu, neste domingo, 23, nas conversas com jornalistas.

O "up grade" da classe executiva para a primeira classe - na qual viajou ao lado de Pelé, sem que este se desse conta de quem era a companheira de viagem - foi cortesia da companhia aérea. Não foi o único mimo prestado. Para preservá-la, o comandante insistiu diversas vezes ao microfone a proibição aos passageiros da classe comum de passearem pelas demais classes. Parecia um recado ao jornalista do The New York Post que tentava desesperadamente aproximar-se da brasileira.

Andréia embarcou em Nova York com o brasileiro Dival Ramiro. Ele se apresenta para muitos como jornalista free lancer, que vende matérias para o Daily News e para o New York Times. Mas, usa também no bolso um cartão de visitas no qual aparece como diretor da fábrica de bebidas energéticas Flash Power. Na casa da mãe da cafetina, na semana passada, a identidade era outra: policial.

O que Ramiro tenta mesmo é intermediar as entrevistas de Andréia com órgãos de imprensa. Já ofereceu as declarações dela pelo preço de R$ 15 mil dólares. Para que ela não falasse com os repórteres em Guarulhos, ele desviou sua saída pela sala de embarque e a conduziu a um shopping, onde ela cuidou dos cabelos e das unhas.

Não é à toa que em Vila Velha até os amigos mais próximos da deportada torcem o nariz para ele. Também seus familiares confessam não estarem satisfeitos com esta aproximação. Maldosamente, foi apelidado por alguns repórteres como "cafetão da cafetina". Andréia domingo, 23, o classificou como um bobo, mas admitiu que irá contratar um assessor de imprensa. Ela pretende cobrar cachê pelas suas entrevistas a órgãos estrangeiros.

Os momentos de glória da brasileira culminaram com sua chegada ao Espírito Santo. Para evitar a "ameaça" dos jornalistas que desde cedo se postaram no aeroporto de Vitória, a Infraero providenciou que ela descesse do avião direto em um carro, no qual foi levada ao estacionamento externo do aeroporto, sem passar pelo terminal de passageiros.

"Sempre que solicitado, a Infraero dispensa tratamento especial a passageiros muito assediados. Foi uma decisão pontual para evitar o risco à integridade dela", justificou neste domingo, 23, o assessor de imprensa da Infraero em Vitória, Luiz Ximenes, sem explicar que risco era este já que apenas jornalistas a aguardavam às 22h30, quando o avião pousou.