segunda-feira, março 24, 2008

A hora do jornalismo

Reinaldo Azevedo

O primeiro aspecto relevante a se destacar sobre a reportagem de VEJA deste fim de semana — a que informa a existência de um dossiê preparado pelo governo para tentar chantagear as oposições na CPI dos Cartões — é o comportamento do governo. Como era de se esperar, negou a existência da tramóia, mas mandou investigar o “vazamento de informações”. Deu pra entender? O Planalto determinou que se apure um FATO que ele nega existir. Não estranho tanto. Estamos, afinal, em plena era do surrealismo na política. Estou pondo o ponto final em O País dos Petralhas, o livro. Acreditem: dava para perceber que chegaríamos a este ponto.

Como era esperado, a Al Qaeda eletrônica entrou em ação, com o auxílio do subjornalismo de aluguel, gente que vive da papa fina da grana oficial — a sua grana, caro leitor. E o que pedem esses monumentos morais? Ora, já que teve acesso a uma parte do dossiê, então a revista deveria ter divulgado as “informações”. Vocês entenderam? Os petralhas queriam que VEJA fizesse o serviço sujo em seu lugar: eles armam o dossiê, a exemplo daquele preparado pelos aloprados, e a revista serve de porta-voz da chantagem. Quebraram a cara.
VEJA cumpriu o seu papel ao fornecer pistas do que os novos aloprados andam “investigando”, mas não aceitou ser, digamos, o Chávez das Farc; rejeitou, é óbvio, a parceria no crime. Caso se limitasse a divulgar as “denúncias” oficiosas, estaria coonestando o banditismo, escolhendo o caminho da acusação fácil — e os atingidos que dessem um jeito de desmentir depois. Mas a revista escolheu o caminho correto e mais difícil: informou a armação, especificou as linhas gerais de seu conteúdo, deixou claro que o estado está sendo usado para a chantagem política. Afinal, o governo não quer popularizar o seu dossiê para investigar tudo, doa a quem doer. Não!!! Ao contrário. O dossiê foi vazado aos jornalistas para que não se investigue nada — de agora ou de antes.

Dado que os petistas não têm, como se vê, interesse em proteger o governo FHC, é claro que o dossiê é uma forma de autoproteção. Os neo-aloparados pretendiam contar com uma mídia dócil, servil, faminta de notícias & escândalos, servindo a seus propósitos. A estratégia era — e é ainda — ficar pingando boatos nesta ou naquela colunas para intimidar os adversários. Ora, estivesse o governo fazendo um documento oficial e legal, a ser entregue a uma instância competente de investigação, e tivesse tido a revista acesso a seu conteúdo, a abordagem teria sido outra: informar a sua existência e seu conteúdo em detalhes. Mas não! Estamos falando de uma operação do mundo das sombras, do mercado negro da política, disposta a usar o jornalismo como pistoleiro involuntário.

Era rigorosamente o que pretendiam os “aloprados” em 2006. A diferença agora, já disse, é que não estamos falando de notórios marginais, que operam nas sombras. A tramóia está nos órgãos do estado — e o que se faz é característica de um estado policial. É para onde caminha essa gente caso os demais atores políticos e a sociedade civil caiam em sua trama ou mesmo se calem diante de seu ardil.

A Controladoria Geral da União e a Casa Civil que venham a público para dizer o que há nos tais documentos; que assumam a responsabilidade de ter mandado investigar o outro governo e preparado, então, uma peça acusatória. Assim, os acusados podem ao menos se defender.

A imprensa não é braço do estado policial.