segunda-feira, março 24, 2008

"Sucesso brasileiro é de curto prazo"

Guilherme Botelho , Jornal do Brasil

Um dos maiores estudiosos da economia global - e de suas bolhas - Robert Brenner, professor de história da Universidade da Califórnia, avalia, em entrevista exclusiva ao JB, que a crise é um produto da fraqueza da economia real e uma profunda ruptura do sistema de crédito bancário. Para ele, cortes de empregos, de investimentos e de aumentos salariais colaboraram para o encolhimento econômico americano. Brenner é pessimista. Prevê uma recessão que vai piorar ainda mais a situação imobiliária e financeira. A crise não é de liquidez, mas de solvência, resume. A saída, acredita, será o governo comprar e recapitalizar algumas das grandes instituições financeiras dos EUA. Sobre o Brasil, o historiador critica os juros "altíssimos" e atribui o crescimento do país a um período de bonança global, com preços elevados de matérias-primas. Agora, a sustentabilidade do Brasil será testada, avisa.

O senhor considera a crise devastadora, profunda e conseqüência de uma crise capitalista maior. Por quê?
- A crise atual é tão séria porque expressa, ao mesmo tempo, profunda fraqueza de longo prazo da economia real e uma grande ruptura do sistema de crédito bancário. A expansão durante o atual ciclo econômico tem sido de longe a mais fraca no período pós-guerra na Europa, no Japão e, especialmente, nos EUA, mesmo em face ao maior estímulo governamental da história - possível pela bolha imobiliária, déficits fiscais reaganescos e uma moeda em declínio. Por trás desse crescimento retardado está o baixo lucro dos investimentos que, no atual ciclo, não conseguiram atingir os já reduzidos níveis dos anos 90. Para voltar a tais níveis de retorno financeiro, empresas radicalmente cortaram empregos, investimentos e aumentos salariais. Isso prejudicou a demanda agregada e o impulso para que a empresa expandisse, abrindo o caminho para o encolhimento da economia nos EUA na segunda metade do ano passado.

Quais os princípios por trás dessa bolha americana?
- Em geral, o que está por trás da bolha imobiliária é bem parecido com o que incentivou a bolha dos fundos de investimento dos anos 90. Governos capitalistas do pós-guerra estimularam suas economias através de déficits keynesianos. Mas durante as décadas de 70 e 80, os gastos ficaram cada vez menos eficientes. No início dos anos 90, liderados pelos EUA, as economias capitalistas avançadas tentaram fugir da dependência de empréstimos governamentais, estabelecendo abruptamente orçamentos balanceados. Mas esse movimento de fuga da dependência do Estado em direção ao mercado livre criou um grande choque na demanda, levando à pior performance econômica pós-guerra entre 1990 e 1995 para as economias centrais. Nesse contexto de recessão e estagnação, Greenspan e o Federal Reserve foram obrigados a usar o preço keynesiano de ativos para manter a economia rodando. Eles baixaram as taxas de juros, para elevar os preços das equities, para permitir que famílias e empresas pudessem emprestar, consumir e investir mais. Isso criou o boom da Nova Economia. Quando a bolha do mercado de ações estourou, crash e recessão se sucederam. Greenspan se mexeu para inflar nova bolha, desta vez no mercado imobiliário.
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Como a bolha imobiliária difere da anterior?
- Existem duas diferenças principais. A primeira é que a crise imobiliária veio no acordar do crash do mercado de ações e da recessão de 2000 a 2001. Isso deixou a economia em uma condição mais fraca, com grande capacidade de produção ociosa, baixas taxas de retorno e dívidas corporativas gigantescas. A economia estava tão enfraquecida que Greenspan teve pouca escolha a não ser inflar a bolha imobiliária.

Qual a segunda diferença?
- A segunda diferença é que a bolha imobiliária veio impulsionada pela bolha do mercado de crédito. O Fed e outros bancos centrais trouxeram taxas reais de juros para baixo de zero, estimulando empréstimos gigantescos. Grandes instituições financeiras, incluindo bancos, lucraram enormemente comprando hipotecas direta e indiretamente, empacotando-as em títulos e outros papéis relacionados a elas e vendendo para investidores institucionais de vários tipos. Mas, para assegurar um fluxo contínuo de hipotecas, essas instituições tomavam riscos cada vez maiores, empurrando a venda de hipotecas para famílias pouco preparadas para elas. Quando a bolha do mercado imobiliário estourou e os preços das casas começaram a baixar, ficou óbvio que um número cada vez maior de residências não seria capaz de cobrir as obrigações das hipotecas. Isso naturalmente levou a um grande declínio no valor dos papéis baseados em hipotecas. Como bancos e outras instituições financeiras não só vendiam securities, como também as guardavam, direta ou indiretamente, foram atingidos por uma grande baixa no preço de seus ativos. O resultado agregado foi a dificuldade cada vez maior de se pegar dinheiro emprestado, especialmente já que muitos dos principais credores eram os mesmos bancos e instituições financeiras que estavam encarando o colapso no valor de seus ativos baseados em hipotecas. É o enfraquecimento dos bancos como credores que impõe uma grande ameaça à economia.

A deterioração do setor imobiliário americano é apenas o começo? Qual o pior cenário possível?
- O cenário mais preocupante, mas com mais chances de acontecer, de uma forma ou de outra, é que o enfraquecimento do setor financeiro e da economia real vão se reforçar mutuamente. Como a economia estava tão dependente da bolha imobiliária, a deflação da bolha já estava levando, na metade do ano passado, o país à uma recessão. A recessão deve piorar a crise imobiliária, aumentando o número de calotes e baixando o preço das casas. Mas, se a crise imobiliária piorar, também irá piorar a crise do setor financeiro, que iria impactar na habilidade dos bancos e outras instituições de emprestar para corporações e famílias, exacerbando a recessão.

Que papel os governos e os bancos centrais deveriam ter? Como o senhor vê as últimas ações das autoridades?
- Não será fácil sair desta crise, já que o problema não é de liquidez (a falta de acesso a empréstimos e dinheiro) o que teria sido aliviado pela recente baixa do juros. É, na verdade, uma crise de solvência, ou seja, as perdas devastadoras de capital, do tipo que liquidaram o Bear Stearns. Por essa razão, alguns argumentam que, para rebater a crise, o governo americano não terá escolha a não ser intervir, comprar e recapitalizar algumas das grandes instituições financeiras.

Em 2003, o senhor disse que a política econômica de Lula era suicida. Os níveis de crescimento da economia brasileira nos últimos anos, o crescimento do mercado de ações, mais os elogios recebidos internacionalmente por sua estabilidade, reservas internacionais e superávit comercial o fizeram mudar de opinião?
- Eu argumentei que as austeras políticas neoliberais de Lula, especialmente seus juros altíssimos, eram contraproducentes, e que sua insistência em manter o mercado de capitais aberto era perigoso. O Brasil tem ido bem nos últimos anos, mas o período é curto demais para nos permitir tirar qualquer conclusão sobre a viabilidade do plano econômico do governo. Isso porque o que está por trás do recente crescimento não se deve tanto a uma mudança em casa, mas sim à gigantesca expansão da economia global, aliada ao crédito fácil. Especialmente com a moeda inicialmente tão baixa, o Brasil foi capaz de tomar vantagem do rápido crescimento do PIB mundial para aumentar exportações de forma extraordinária e angariar reservas, o que certamente o irá ajudar na próxima crise. Portanto, o sucesso brasileiro está confinado a um período muito pequeno, de curto prazo.

A pergunta então seria: a expansão brasileira é sustentável?

- Os problemas crescentes no centro capitalista irão testar o dinamismo da economia brasileira. A economia européia está rapidamente desacelerando, com a bolha imobiliária deflacionando em alguns países, enquanto o euro sobe, depreciando exportações. O Japão encara cenário parecido. A estagnação ou crise dos países avançados ajuda a conter o crescimento chinês, que tem sido muito dependente do aumento das exportações, e que provavelmente também será afetado pelas medidas do governo, cada vez mais austeras, para conter a inflação. Uma desaceleração do crescimento chinês de 10% para 7%, mais problemas nas economias avançadas, acabará com o boom dos preços das commodities e reduzirá a demanda significativamente, com conseqüências negativas, mais cedo ou mais tarde, para o Brasil.