Josias de Souza, Folha.com
Dilma Rousseff acertou com o vice Michel Temer que o próximo presidente de Furnas Centrais Elétricas será indicado pelo PMDB.
Simultaneamente, escalam o noticiário informações que enrolam a estatal elétrica em lençóis enodoados.
Deve-se aos repórteres Chico Otavio e Tatiana Farah a revelação da penúltima encrenca vinculada a Furnas.
Envolve uma empresa chamada Oliveira Trust Servicer. Foi criada para construir e explorar uma hidrelétrica em Goiás: a Serra do Facão.
Pois bem, os repórteres manusearam um lote de atas de reuniões da diretoria de Furnas.
Justapostas, as atas revelam a evolução de um negócio de aparência inusitada.
Menos de oito meses depois de refugar a aquisição de um lote de ações da Oliveira Trust, Furnas pagou pelos papéis R$ 73 milhões acima do valor original.
A transação serviu aos interesses da Companhia Energética Serra da Carioca II. Uma empresa que integra o Grupo Gallway.
Um dos diretores do Gallway chama-se Lutero de Castro Cardoso. Apresenta-se como representante do grupo o doleiro Lúcio Bolonha Funaro.
Cardoso e Funaro são ligados ao deputado federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ), a quem se atribui o apadrinhamento de gestores de Furnas.
À época em que a transação esquisita foi efetivada, presidia Furnas um dos indicados de Eduardo Cunha, o ex-prefeito carioca Luiz Paulo Conde.
Uma das atas manuseadas pelos repórteres anota o resultado de reunião da diretoria de Furnas realizada em 4 de dezembro de 2007.
O texto informa que, nesse encontro, Furnas abdicou do direito de adquirir ações que a fariam sócia da Oliveira Trust. Coisa prevista em acordo de acionistas.
Noutra ata, datada de 9 de janeiro de 2008, informa-se que o mesmo lote de papéis foi adquirido pelo grupo Galway. Negócio de R$ 6,96 milhões.
Decorridos quase sete meses, a diretoria de Furnas voltou a se reunir. O resultado do encontro consta de ata lavrada no dia 29 de julho de 2008.
O documento anota que Furnas aprovou a compra do mesmo lote de ações que refugara. O preço? R$ 80 milhões. Diferença de R$ 73 milhões.
A cifra assegurou a Furnas o controle de 29,89% do capital de um empreendimento que leva o nome da hidrelétrica goiana: Serra do Facão Participações S/A.
Procurada, Furnas manifestou-se por meio de uma nota. Alegou que, entre uma reunião e outra, a empresa Serra da Carioca injetou R$ 75 milhões na sociedade.
Algo que, segundo a nota, “justifica integralmente a diferença” que a estatal topou pagar pelos papéis. Como se deu a injeção de capital? Furnas absteve-se de explicar:
“O aporte foi feito pela Serra da Carioca à Serra do Facão Participações; portanto, esse registro deve ser solicitado a eles”.
Por que o lote de ações foi refugado em janeiro de 2008? “Naquela ocasião era necessário manter o caráter privado da Serra do Facão...”
“O que só seria possível se um investidor privado fosse substituído por outro de mesma natureza”, escreveu Furnas em sua nota explicativa.
A grana que bancou a transação veio do velho e bom BNDES. “Foi um processo normal de negociação para concessão de financiamento desse porte”, diz Furnas.
Lutero de Castro Cardoso, o já mencionado diretor da Gallway trabalhara na Cedae, estatal de saneamento do Rio. Indicou-o Eduardo Cunha.
Procurado pelos repórteres para manifestar-se sobre a transação de Furnas, Lutero não respondeu aos pedidos de entrevista.
O doleiro Lúcio Bolonha Funaro é figurinha carimbada de escândalos que costumam eletrificar a cena política.
Em 2005, por exemplo, Funaro frequentou o banco da CPI dos Correios. Foi instado a explicar uma despesa que o ligava a Eduardo Cunha por laços de generosidade.
O doleiro custeara, em 2003, o aluguel e outras despesas de um flat ocupado pelo deputado do PMDB numa hospedaria brasiliense: o Blue Tree Tower.
Os repórteres procuraram o doleiro. Queriam ouvir a versão dele sobre Furnas. Não o encontraram.
Antes da posse e nos dias que sucederam sua chegada ao gabinete presidencial, Dilma Rousseff manifestara a intenção de “deserduadizer” Furnas.
Mostrava-se convencida de que a influência de Eduardo Cunha sobre a estatal resultava em efeitos deletérios.
Ao informar a Temer que o PMDB continuará dando as cartas em Furnas, Dilma parece ter entregado os pontos.
Diz-se que condicionou a ocupação à indicação de técnicos. Como se um técnico indicado por político fosse privilegiar o Estado em detrimento do padrinho.