O Estado de São Paulo
No final de 2009 o Relatório do Mercado (Focus) previa um déficit das transações correntes do balanço de pagamentos de US$ 20,1 bilhões para 2010, que, na realidade, chegou a US$ 47,5 bilhões. O mesmo relatório prevê, agora, um déficit de US$ 67,4 bilhões para 2011, ligeiramente superior aos US$ 64 bilhões que o Banco Central (BC) estimou, ao divulgar o resultado das contas externas de 2010. No Relatório de Inflação de dezembro de 2009, o BC havia previsto um déficit de US$ 40 bilhões, o que parece indicar que suas previsões se mostram mais próximas da realidade.
A conta de transações correntes tem grande importância, por que nela se inclui a conta financeira, da qual fazem parte os Investimentos Diretos Estrangeiros (IDEs) que têm permitido cobrir o déficit, e, mais ainda, por que representa a cobertura de melhor qualidade do déficit, na medida em que contribuem para criar empregos e riqueza no país onde são investidos, embora a sua contrapartida seja a remessa de lucros e dividendos.
Um exame rápido das contas externas revela uma evolução que deveria preocupar o governo. Em 2009, o déficit em transações correntes ficou em US$ 24,3 bilhões, mas, graças à conta financeira, apresentamos um superávit de US$ 46,6 bilhões no conjunto do balanço de pagamentos, ou seja, o déficit das transações correntes representou apenas 52,0% do resultado final do balanço de pagamentos. Em 2010, essa relação ficou em 96,7%. Tendo em conta as previsões do BC para o déficit em transações correntes deste ano, o superávit no balanço de pagamentos ficará em apenas US$ 4,6 milhões, isso é, nossas reservas crescerão somente essa quantia, numa mostra clara da fragilidade das contas externas.
Na estimativa do BC para este ano, os IEDs - cuja entrada era ligeiramente superior ao déficit em transações correntes - cobrirão apenas 33% do déficit, o que significa que vamos depender essencialmente de ingressos especulativos (entradas no mercado de ações, compra de títulos de renda fixa, etc.) para cobrir todo o déficit das transações correntes, ou de empréstimos externos, que geram novos encargos.
Cabe às autoridades acompanhar com muita atenção a evolução das contas externas, lembrando do que dizia o ex-ministro Mario Henrique Simonsen sobre o efeito mortífero do déficit em transações correntes. Não dá para encarar passivamente uma previsão de um superávit de apenas US$ 11 bilhões da balança comercial, quando obtivemos US$ 20 bilhões no ano passado.