Carlos Brickmann
Estamos comemorando o aniversário da maior cidade italiana depois de Roma, da maior cidade japonesa fora do Japão, da maior cidade nordestina do Brasil. A cidade que é chamada de bairrista e elitista, mas teve entre seus prefeitos dois negros, uma nordestina, um matogrossense, dois fluminenses, um filho de imigrantes libaneses, um neto de imigrantes libaneses. É a capital de um Estado que colocou como seus representantes na Presidência da República dois fluminenses, um pernambucano e um matogrossense. Que, entre os diversos ditadores que assolaram o país, pode orgulhar-se de dizer que nenhum nela nasceu, nem cresceu, nem se familiarizou com sua vida.
E, no entanto, boa parte da imprensa diz que São Paulo é uma cidade preconceituosa, capital de um Estado preconceituoso. Sempre há, nas mentiras, um toque de verdade: os paulistas costumam chamar todos os nordestinos de "baianos" (já os cariocas sempre preferiram chamá-los de "paraíbas"). Adhemar de Barros usou a origem matogrossense de Jânio para torpedear sua candidatura, mas Jânio venceu a eleição. Quércia era conhecido como "calabrês", Mário Covas como "espanhol", Maluf como "turco", mas todos eles foram vitoriosos nas urnas.
Uma das coisas mais impressionantes, entre muitos jornalistas, é a falta de informações sobre São Paulo.
Há muitos anos, quando o Rio comemorou 400 anos, o governador Carlos Lacerda mandou fazer um imenso bolo de aniversário. Um garoto de São Paulo escreveu a Lacerda, pedindo que lhe enviasse um pedaço do bolo. Lacerda, excelente marqueteiro, preferiu mandar ao garoto três passagens para o Rio - ele, o pai e a mãe comeriam o bolo pessoalmente, a seu lado. Um jornal carioca mandou a pauta para a Sucursal paulistana, dando o endereço do menino, na rua Duque de Caxias. Na cidade de São Paulo havia na época cinco endereços possíveis, entre ruas, avenidas, praças e largos. E nada do garoto.
Houve as piadas de praxe ("desculpe termos mandado poucas informações, só o nome e o endereço, da próxima vez mandamos também a foto") e, no dia seguinte, veio no próprio jornal a informação completa: o garoto morava em Amparo, a 125 km da capital. O pauteiro era jornalista dos bons, mas não sabia que São Paulo tinha mais de 500 municípios, alguns a centenas de quilômetros da capital, todos com rua, praça e avenida Duque de Caxias.
Um repórter nordestino trabalhou por muitos anos em São Paulo. Certo dia, viajou para Ribeirão Preto. Voltou impressionadíssimo: pensou que o Interior fosse uma região agreste, e encontrou uma área riquíssima da qual não suspeitava, com agricultura próspera, indústria, comércio ativo. Era outro mundo.
Certa vez, Juscelino Kubitschek se queixou a Ulysses Guimarães de que São Paulo só gerava monstros políticos. Mas o próprio Ulysses não foi um monstro político. Foram políticos paulistas como ele, como Franco Montoro, como Olavo Setúbal, como Antônio Ermírio, que desistiram de seus sonhos presidenciais para juntar forças em volta do mineiro Tancredo Neves.
Cabe aos meios de comunicação buscar mais informação e exibir menos preconceito. A campanha divisionista, preconceituosa, que fez parte da luta pela Presidência, não é boa para ninguém e é péssima para o país. Não há vitória eleitoral que valha a estupidez do preconceito antipaulista. E que melhor ocasião do que o 457º aniversário da cidade criada pelo cacique Tibiriçá, pelos três notáveis jesuítas Manoel da Nóbrega, José de Anchieta e Manoel de Paiva, pelo judeu João Ramalho e sua esposa, a índia Bartira, filha de Tibiriçá, para lembrar à imprensa que este país é um melting pot que só tem sentido se recusar preconceitos?
Invasão de privacidade
Uma ampla matéria, num grande jornal, revela os salários de alguns dos principais apresentadores de programas policiais na TV. Erradíssimo: salário, exceto em casos específicos, definidos em lei, é tema de interesse exclusivo das partes. A menos que as partes considerem que é bom divulgar os valores, os valores não têm por que ser divulgados - entre outros motivos, porque ninguém tem nada com isso. A informação não tem relevância.
Fora isso, há o problema do risco: por que expor pessoas que não pediram para ser expostas, que não têm motivo para ser expostas? Não: a menos que a violação da intimidade das pessoas seja essencial ao interesse público, violá-la é inaceitável.
Um esforcinho!
O tema já foi tratado tantas vezes nesta coluna que está ficando até chato. Mas há ocasiões em que não é possível ignorar os erros de regência: as frases vão ficando difíceis, o entendimento é prejudicado, e uma das funções da imprensa - contribuir para o crescimento cultural de seus leitores - é esquecida.
Vejamos o texto de um grande jornal, daqueles em que muita gente aprendeu a ler (e, portanto, a escrever):
"(Fulano de tal) (...) afirma que não o bateu com arma de fogo".
Não é tão difícil, gente! O Manual de Redação ensina direitinho. É só consultá-lo. O equívoco oposto, de usar "lhe" no lugar de "o", é bem mais compreensível: em boa parte do país, usa-se coloquialmente o "lhe" em vez do "o". Construções como "vou encontrar-lhe em tal lugar", pela frequência com que são usadas, acabam se tornando familiares. Mas "não o bateu" não é usado em lugar nenhum, a não ser em páginas de jornais e revistas. Por que?
Talvez pelo mesmo motivo que leva um professor universitário, daqueles com armários cheios de diplomas nacionais e estrangeiros, a escrever num grande jornal a expressão "mal comportamento". Eta, professor-doutor "mau asçeçorado"!
É gostoso, é fácil
Não, não é hora de discutir norma culta, linguagem coloquial, jargão. O problema é escrever de maneira clara, precisa, concisa; é, mesmo violando aqui e ali as normas gramaticais, garantir que o texto seja compreensível e agradável. E há uma maneira infalível, simples e prazerosa de aprender a escrever bem: é ler muito. Ler tudo - autores consagrados, histórias em quadrinhos, Carlos Zéfiro, histórias descartáveis, daquelas que a gente lê no avião para passar o tempo e acaba deixando o livro por lá para não ter de carregá-lo. Histórias em quadrinhos, por exemplo, são ótimas para aprimorar a concisão do texto: ali se narra uma história em pouquíssimas palavras (que têm de caber nos balões), se bem que ajudadas pelos desenhos. Mas que é hoje a comunicação multimídia, senão palavras ajudadas por filmes, desenhos, ilustrações?
Aprender com prazer
Um ótimo lugar para ler com satisfação (até quem tem azia ao manusear jornais e usa livros para colorir) é o http://fernandoportela.wordpress.com, de um esplêndido jornalista, executivo, escritor - o adjetivo "esplêndido" se aplica aos três substantivos. Fernando Portela, pernambucano que migrou para São Paulo para integrar uma das mais brilhantes equipes já formadas na imprensa, a do Jornal da Tarde, escreve muito, muito bem, e é reconhecido, ao mesmo tempo, por seus comentários cortantes. Há quem diga que escova os dentes do Instituto Butantan e jamais mostra a língua para alguém, não por educação, mas para que não percebam que tem duas pontas. Portela vive num ambiente literário: sua esposa, Miriam, e sua filha, Mariana, são escritoras de ótima qualidade. E, desde que decidiu reduzir sua carga de trabalho no dia-a-dia, Portela se dedicou mais àquilo de que realmente gosta, criar histórias. São histórias curtas, gostosas, muito bem escritas; este colunista não perde oportunidade de acompanhá-las.
O blog de Portela também é leitura constante de um papa do jornalismo, Ricardo A. Setti, que fez de tudo na imprensa: foi repórter, cobriu política e economia, integrou a magnífica equipe do Jornal da Tarde, dirigiu revista de mulher pelada (foi a melhor fase da Playboy, confirmada pelos números de vendas), convenceu a filha de Fidel Castro a posar nua. Setti comanda hoje um blog em que mostra que é possível ter um pensamento original sobre os fatos. Setti sabe também que o jornalismo só vai melhorar quando mais jornalistas estiverem se dedicando à leitura. Recomenda especialmente o blog de Portela. E não tenha a menor dúvida, caro leitor: Ricardo Setti sabe o que diz.