sexta-feira, janeiro 28, 2011

O “Córrego Seco” de Dom Pedro

Sebastião Nery

RIO – No dia 25 de março de 1822, o príncipe D. Pedro saiu às pressas do Rio, alarmado com as notícias de uma rebelião em Minas, chefiada por dois portugueses, o tenente-coronel Pinto Peixoto. comandante da guarnição de Vila Rica (Ouro Preto), e o juiz Cassiano Esperidião de Melo Matos.

Havia receios de que a junta de governo de Minas estivesse preparando a separação da província do resto do Brasil. Era preciso agir rápido. Maior população do país, cerca de 600.000 habitantes, Minas era também uma das mais poderosas do ponto de vista político e econômico.

Minas
D. Pedro estava acompanhado de apenas dez pessoas, incluindo o padre Belchior, que mais tarde seria testemunha do Grito do Ipiranga. Uma aventura de alto risco: um sequestro ou atentado ao herdeiro da coroa portuguesa comprometeria todo o processo de independência do Brasil. Uma viagem, além de arriscada, muito desconfortável.

Maria Graham, viajante inglesa que na época esteve no Brasil, conta que D. Pedro viajava “o dia inteiro, por estradas precárias e perigosas, molhado até os ossos pelas chuvas tropicais”, e que, ao entardecer contentava-se em “jantar um bocado de toucinho e farinha de mandioca”. À noite, dormia em lugares improvisados, usando como cama uma porta ou uma janela arrancada da parede para protegê-lo do chão frio.

Petrópolis
Nada parecia abalar o ânimo de D. Pedro. Estava fascinado com o que via pelo caminho. Era a primeira vez que se embrenhava pelo interior do Brasil desde que chegara ao Rio em 1808, um menino de apenas nove anos, na companhia do pai, D. João, e da mãe, Carlota Joaquina.

Desconhecia a paisagem e os habitantes do interior do país que o pai havia deixado aos seus cuidados ao retornar a Lisboa em 1821.

Ao passar pela fazenda do Padre Correa, também chamada de “Córrego Seco” (vejam que ironia, nestes dias de tragédia na serra!), no alto da serra fluminense, ficou tão encantado com o lugar que mais tarde compraria a propriedade. Ali seria criada a cidade de Petrópolis, onde seu filho, D. Pedro II, se refugiaria no verão com a corte do Segundo Reinado.

José Bonifacio
Antes de partir para Minas, D. Pedro ouvira um conselho curioso do paulista José Bonifácio:

- “Não se fie Vossa Alteza Real em tudo o que lhe disserem os mineiros, pois passam no Brasil pelos mais finos trapaceiros do universo, fazem do preto branco, mormente nas atuais circunstâncias em que pretendem mercês e cargos públicos”.

Os mineiros o acolheram de braços abertos. D. Pedro percorreu Barbacena, São João Del Rey, Vila Rica e localidades menores. Foi aclamado e festejado por onde passou. Em Vila Rica, em vez de enfrentar qualquer resistência, foi recebido de joelhos pelo tenente-coronel Pinto Peixoto, que se tornou um de seus mais fiéis aliados. Melo Matos, o outro chefe rebelde, foi preso e despachado para o Rio de Janeiro.

Encerrada a jornada vitoriosa, D. Pedro retornou à capital em disparada, percorrendo 530 quilômetros em apenas quatro dias e meio.

Friburgo
Outra curiosidade, que tem tudo a ver com a catástrofe que desabou agora sobre a região serrana do Rio : a chegada dos suíços a Nova Friburgo, na serra fluminense, em 1818. Dos primeiros 2.000 imigrantes, 531 morreram de fome, doenças e maus tratos (26,5%), mas a colônia vingou e hoje é a bela cidade que se lança à recuperação depois do desastre.

Friburgo era parte de um projeto antigo, de “branqueamento” da população, defendido por diferentes ministros e conselheiros da coroa, em Portugal e no Brasil. Coube a uma das suíças de Nova Friburgo, Maria Catarina Equey, a honra de amamentar o príncipe Pedro de Alcântara, futuro imperador Pedro II, nascido em 2 de dezembro de 1825.

A família imperial acreditava ser mais saudável empregar nessa tarefa uma mulher branca, européia e católica, do que as negras amas de leite tão comuns nas casas dos senhores de escravos do Brasil colonial.

Laurentino
Essas historias, e tantas outras, estão em um livro imperdível que, desde o ano passado, não sai da lista dos mais vendidos de todos os jornais e revistas : “1822”, Editora Nova Fronteira), do jornalista e historiador Laurentino Gomes, um pesquisador serio, de texto leve, enxuto, didático.

Há três anos que ele também está nas listas dos mais vendidos do Brasil e de Portugal, com outro excelente best-seller :“1808”, sobre a vinda de Dom João VI e da corte portuguesa para o Brasil, fugindo de Napoleão.