Hugo Souza, Opinião & Notícia
Não são de hoje os esforços da Igreja Católica em seu santo ofício de “depuração” do Carnaval. Muito pelo contrário.
O desfile das escolas da samba já teve plásticos pretos
cobrindo alegorias por decisão judicial
A relação da Igreja Católica com o Carnaval costuma ser de distanciamento, literalmente. No Rio de Janeiro, onde a maior festa popular do Brasil tem uma dimensão ainda mais especial, a maioria das paróquias da arquidiocese de São Sebastião realiza retiros espirituais a fim de que seus fiéis tenham a oportunidade de aproveitar o feriado para, em vez de cair na folia, buscar maior interlocução com Deus, o que não é exatamente compatível com os excessos do corpo, a distração da mente e o rodízio de prazeres da carne desfilando nas ruas e na Avenida, exibido na TV e estampado nos jornais.
Esta postura, digamos, um tanto blasé por parte da Igreja Católica em relação ao Carnaval deve irritar ainda mais alguns profissionais da folia que vêm reagindo com fúria a notícia de que a Arquidiocese do Rio de Janeiro pretende enviar um emissário ao barracão da Beija Flor, escola de samba mais vitoriosa na Marquês de Sapucaí nos últimos anos, para ver de perto e talvez ouvir explicações sobre um carro alegórico repleto de imagens santas que a agremiação de Nilópolis pretende usar no desfile deste ano.
A alegoria da Beija-Flor, que representará o Céu, terá imagens como o rosto de Jesus Cristo, Nossa Senhora e anjos do Senhor. No carro irá desfilar o cantor Roberto Carlos, católico notório e fervoroso, o grande homenageado da escola em 2011.
(Fonte: O Dia)
Alegoria da Beija-Flor retratando Jesus
O carnavalesco Chico Spinoza foi um dos que criticaram a postura da Igreja: “Classifico como incompatível. O desfile de escola de samba não é lugar de religiosos. Eles têm que se preocupar com o templo deles”.
Mas o principal receio é que a Arquidiocese do Rio torça o nariz para o carro da Beija-Flor e que o desfile das escolas da samba no Rio de Janeiro volte a ter plásticos pretos cobrindo alegorias por decisão judicial, o que já aconteceu com a própria Beija-Flor, em 1989, quando uma imagem do Cristo Redentor foi para a Avenida coberta e sob os dizeres: “Mesmo proibido, olhai por nós”.
(Fonte: Reprodução TVGlobo)
O Cristo Mendigo da Beija-Flor em 1989
Aconteceu também no ano 2000, quando os famigerados plásticos pretos voltaram à Marquês de Sapucaí porque a Arquidiocese do Rio não gostou do uso da imagem de Nossa Senhora da Boa Esperança como alegoria para o enredo daquele ano da Unidos da Tijuca sobre o descobrimento do Brasil.
Quem se incomoda com esta suposta ingerência da Arquidiocese do Rio na Marquês de Sapucaí mal sabe que os esforços da Igreja Católica pela “depuração do Carnaval” não são de hoje. Muito pelo contrário. Em seu site, a Arquidiocese do Rio de Janeiro é quase didática na explicação deste seu santo ofício histórico, por assim dizer:
“Quando o Cristianismo surgiu já encontrou esses costumes pagãos. E como o Evangelho não é contra as demonstrações de alegria, desde que não se tornem pecaminosas, os missionários, em vez de se oporem formalmente ao Carnaval, procuraram cristianizá-lo, no sentido de depurá-lo das práticas supersticiosas e do mitológico. Aos poucos, as festas pagãs foram sendo substituídas por solenidades do Cristianismo (Natal, Epifania do Senhor ou a Purificação de Maria, dita ‘festa da Candelária’, em vez dos mitos pagãos celebrados a 25 de dezembro, 6 de janeiro ou 2 de fevereiro)”.
E continua:
“Por fim, as autoridades da Igreja parecem ter conseguido restringir a celebração oficial do carnaval aos três dias que precedem a Quarta-feira de Cinzas. Portanto, a Igreja não instituiu essa festa; teve, porém, de a reconhecer como fenômeno existente e procurou subordiná-la aos princípios do Evangelho”.


