Bolívar Lamounier, Exame.com
Que conseqüências terá a morte de Bin Laden no curto e no médio prazo? Meu primeiro impulso é dizer que não faço a menor idéia, mas, pelo que li e ouvi até agora, minha situação não parece muito pior que a de centenas de observadores e analistas espalhados pelo mundo afora.
No curto prazo, é provável que ocorram ações terroristas nos Estados Unidos ou contra alvos americanos em diferentes partes do mundo; ações isoladas, para sinalizar que a Al-Quaeda está viva e não propriamente o início de uma efetiva represália. Pelo sim pelo não, as autoridades americanas já mandaram dobrar o nível de alerta.
Mesmo em escala modesta, tais ações trarão apreensões adicionais ao quadro internacional, pois somar-se-ão ao impasse vigente na Líbia e ao possível agravamento da situação na Síria, cujo governo desencadeou feroz repressão contra seus opositores.
Não que Kadaffi e Al-Assad tendam a reagir da mesma forma, longe disso. Se tiver como fazê-lo, Kadaffi pode cumprir sua ameaça de apoiar logística e materialmente a Al-Quaeda; Assad com certeza não fará isso, pois sua legitimidade e seu poder dependem da ideologia Baath, visceralmente contrária ao radicalismo islâmico.
E no médio prazo, que implicações poderá ter a morte de Bin Laden? Existem duas hipóteses opostas. Otimistas, os serviços secretos americanos dirão que assestaram um golpe fatal contra a Al-Quaeda e até contra o terrorismo islâmico em geral. Proclamarão que a organização já estava em declínio e tão cedo não conseguirá se recuperar da perda de ontem à noite. E podem muito bem estar certos no atacado, embora não necessariamente no varejo.
De fato, o grupo de Bin Laden notabilizou-se por ações de grande impacto – o 11 de Setembro foi a mais espetacular, mas não a única -, baseadas num longo período de planejamento e recursos financeiros abundantes. Nesta dimensão, substituir Bin Laden não deve ser uma questão trivial.
A hipótese oposta é comedida, senão francamente pessimista. Entende que o terror islâmico se alimenta de uma peculiar combinação de arcaísmo e modernidade. O arcaísmo, como é óbvio, tem raízes sociais e culturais profundas. Dele decorrem uma religiosidade fanática, um anti-ocidentalismo endêmico e rancoroso e uma grande facilidade em recrutar militantes dispostos a qualquer coisa.
A modernidade, de caráter puramente instrumental, manifesta-se, desde logo, no recurso a tecnologias altamente destrutivas – como jogar aviões contra as torres gêmeas. Manifesta-se também em sua organização descentralizada, em forma de rede. De fato, segundo especialistas, o terrorismo (assim como o banditismo internacional em suas diversas formas) tende a se estruturar em nódulos e networks, padrão que o torna potencialmente muito resistente à eventual queda de seu comando supremo.