quinta-feira, maio 05, 2011

A extrema violência da repressão na Síria: sinal de força ou de fraqueza?

Bolívar Lamounier, Exame.com

No quadro político do Oriente Médio, o mundo está agora assistindo à carnificina deslanchada pelo regime sírio contra os opositores que exigem a renúncia do presidente Bashar Al-Assad.

Na presente onda de manifestações, iniciada há cerca de um mês, o número de mortos já é superior a três centenas. Nem poderia ser diferente, sabendo-se que as forças armadas e policiais têm feito disparos indiscriminados contra os manifestantes, como ocorreu ontem na cidade de Deraa, principal foco da contestação.

A escalada da repressão tem um lado surpreendente. Não combina com um país dotado de uma organização governamental supostamente sólida.

Diferentemente da Líbia, cuja estrutura política pode ser considerada primitiva, a Síria tem uma estrutura de Estado de razoável complexidade, assemelhando-se, neste aspecto, ao Iraque de Sadam Hussein e ao Egito de Sadat e Mubarak.

Semelhante ao Egito, a Síria tem até um parlamento ; uma quase-fachada, é claro, dado o amplo controle que sobre ele exerce a coalizão governista comandada pelo partido dominante,o Baath, mas, no contexto árabe, é um fato a registrar.

Quase meio século atrás, Iraque, Egito e Síria começaram a tomar distância em relação às monarquias da região, modelo rejeitado tanto por seu caráter teocrático como pela estreita cooperação delas com o Ocidente, como tem sido tipicamente o caso da Arábia Saudita e da Jordânia.

Baath, mesmo nome do partido de Sadam Hussein, significa algo como “ressurreição”, sugerindo a busca de um modelo próprio de desenvolvimento, fundado na cultura árabe, mas sem a submissão do Estado à religião.

Trata-se, portanto, de uma doutrina de modernização autoritária; suas raízes remontam no mínimo ao nasserismo egípcio – um pan-arabismo nacionalista e secular. Anti-ocidental e anti-americana, essa visão ajudou a Síria a se aproximar da falecida União Soviética, da qual recebia apoio militar.

As observações acima são obviamente sumárias, mas permitem situar o regime de Assad a uma distância considerável do sultanismo líbio de Kadaffi. O sultanismo se define pela virtual inexistência de uma estrutura impessoal, ou seja, de um Estado; a Síria, bem ou mal, tem um Estado e uma ideologia de Estado.

A configuração geopolítica é também muito diferente; temendo a instabilidade e a emergência de governos contrários a seus interesses, as potências ocidentais dificilmente abandonarão Assad com a facilidade com que abandonaram Kadaffi.

A exata composição das rebeliões ora em curso ainda é pouco conhecida; não sabemos ao certo quanto nelas se deve a demandas econômicas, a anseios de ocidentalização no plano do consumo e dos comportamentos, a ideais de democracia ou à presença em seu meio de grupos islâmicos radicais – entre outros.

Mas uma coisa me parece fora de dúvida: o gênio aprisionado até poucos meses atrás não voltará para a garrafa. Tirânicos, os atuais regimes da região só poderão ser mantidos a um custo altíssimo, no que concerne ao nível de repressão, mas também em termos de desenvolvimento social e econômico.