Gustavo Chacra, Estadão.com
Bin Laden estava desarmado na hora que foi morto, mas teria resistido aos Seals, segundo informaram autoridades americanas. Acho complicado falar de uma operação militar nestas circunstâncias. Mas, caso houvesse a possibilidade de prender o terrorista saudita, fica a pergunta se seria melhor levá-lo a julgamento ou realizar a execução no local, como teria acontecido.
Na primeira possibilidade, Bin Laden precisaria ser preso em algum lugar. Poderia ser Diego Garcia ou Guantanamo, mas certamente não seria no território americano. No interrogatório, as autoridades dos EUA talvez conseguissem informações fundamentais sobre toda a história da Al Qaeda. Isso, claro, se o saudita decidisse cooperar, o que seria quase impossível, conhecendo a sua personalidade.
Neste período, haveria o risco elevado de sequestrarem americanos, civis ou militares, para exigir, em troca a libertação de Bin Laden. Imagine a posição de Obama vendo cidadãos dos EUA com facões no pescoço, estilo Daniel Pearl, e precisando decidir se liberta ou não o maior terrorista da história americana.
Para completar, Bin Laden poderia utilizar seu julgamento como palanque para difundir ainda mais suas idéias. Verdade, existe a chance de impedirem a divulgação do teor de sua defesa. Mas, em tempos de Wikileaks, sempre existe a possibilidade de vazamento. Mesmo condenado à morte, ele deixaria um testamento de ódio para seus seguidores.
Assassinato Seletivo – Já a decisão de matá-lo traz perguntas sobre a questão do assassinato seletivo. Sem ter uma definição clara nas Convenções de Genebra, que regulam os conflitos internacionais, esta forma de ataque, usada por Israel e pelos próprios americanos no passado, divide juristas e acadêmicos em questões estratégicas, legais e mesmo morais.
Existem três grupos de pensamento nesta discussão dos assassinatos seletivos - os que consideram errado, os que acham aceitável em determinadas condições e, por último, aqueles que avaliam esta alternativa como positiva. Os governos americano e israelense tendem a se encaixar entre o segundo e o terceiro grupo.
Durannte a Intifada, Israel matou dois dos principais líderes do Hamas e sempre utiliza esta ação quando necessária. Barack Obama, recentemente, autorizou que as forças dos EUA matem até mesmo Anwar al-Awlaki, um cidadão americano que reside no Iêmen e é considerado uma das principais lideranças da Al Qaeda atualmente.
“Levando em conta exigência para um processo penal e a proibição de uma execução extra-judicial, a única maneira de justificar os assassinatos seletivos é a auto-defesa”, afirma Michael Gross, da Universidade de Haifa, que se encaixa entre aqueles que aceitariam o ataque seletivo em algumas ocasiões. Por exemplo, quando existem informações de que um terrorista está em um carro a caminho de cometer um atentado. Não era o caso de Bin Laden.
Esta linha de pensamento também é defendida por David Kretzmer, da Universidade Hebraica de Jerusalém. O professor alerta, porém, que estas ações “abrem as portas para violações do direito à vida em conflitos internacionais”. Gregory McNeal, da Universidade Pepperdine, disse, no mês passado, em conferência sobre assassinato seletivo na Filadéfia, que os comandantes militares “têm a obrigação de minimizar os efeitos colaterais dos ataques”. Os EUA aparentemente minimizaram.
Os mais radicais defensores dos assassinatos seletivos colocam esta tática como mais uma dentre as várias usadas em guerras, como Andrew Altman, da Universidade George Washington. “Se há provas de que planejou ataques terroristas e não há oportunidade de incapacitá-lo com ações não letais”, sobra realizar os ataques seletivos para combater terroristas como Awlaki e Bin Laden, segundo Robert Chesney, da Universidade do Texas.
Jeremy Waldron, em um recente artigo publicado pela Universidade de Nova York, se posiciona totalmente contra os assassinatos seletivos porque eles tendem a fugir do controle ao longo do tempo e a serem usados indiscriminadamente.