Ângela Lacerda, de O Estado de São Paulo
Laurinete, 43 anos, analfabeta, mora com os filhos em um cômodo de chão batido no Recife; família sobrevive dos rendimentos de Antônio, carroceiro
RECIFE - No cômodo de chão batido, sem janelas, sem banheiro e sem fogão a gás moram Antonio Barbosa de Freitas, 59 anos, sua mulher, Laurinete da Silva Feitosa, 43, e os filhos Juan Deivison, de 8, e Rafaela, de 14. O espaço é exíguo, com panelas empilhadas sobre o chão, roupas espalhadas e despensa vazia.
Roberto Pereira/AE
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| Antonio e Laurinete: cômodo sem banheiro, janela e com luz clandestina |
A cama de solteiro que à noite abriga Laurinete e a filha é local de estudos e lazer durante o dia. Juan e o pai dormem no chão. Uma televisão velha é o único entretenimento da família.
Laurinete só desenha o nome. Antonio fez o primário, consegue ler. Ele já foi operário de fábricas de tecidos, carteira assinada. Hoje nem possui documentos. Perdeu. "Não fui atrás porque nem usava, não carece", afirma ele. Resta a carteira profissional, guardada em algum lugar, "já desbotada". "As fábricas fecharam, fui ficando velho, não arranjei mais emprego".
Antonio sustenta a família como carroceiro. Diariamente sai de casa às quatro horas e anda até às 14 horas pelas ruas catando papelão, plástico e metal que vende em um depósito de material reciclável perto da favela onde mora, no bairro do Hipódromo, zona norte da cidade.
Por mês não consegue arrecadar R$ 300,00. A carroça que usa é emprestada. Ele se orgulha de nunca ter admitido "nem em pensamento" a possibilidade de se tornar um marginal. Por menos que ganhe na lida, todo dia leva algo para a família comer, mesmo que seja apenas pão, conta.
Antonio e Laurinete tentam se consolar dizendo que "tem gente em situação ainda pior". Mas busca de aceitação da vida miserável não apaga a frustração. "Quando vejo meus filhos querendo as coisas que não posso dar, sinto que é por falta de capacidade minha", afirma Antonio, que diz ficar deprimido por não poder presentear a filha com um computador e o filho com um videogame - "as coisas que eles mais desejam".
Laurinete acalenta o sonho de ter uma casinha maior. Quando se juntou a Antonio - ela é a terceira mulher dele, que tem outros três filhos dos primeiros relacionamentos - imaginava que iriam progredir de vida. "Nunca pensei que a situação fosse piorar", diz triste. Ela reconhece que o marido é trabalhador, mas isso não muda a sua realidade. "A gente sofre. Mas quem mais sofreu foi Jesus Cristo."
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Primeiro o raio x da pobreza, depois as ações
Sob sigilo, governo discute programa 'Brasil sem Miséria', que deve reciclar programas sociais já em andamento, como o Água para Todos
A opção do governo por definir como miseráveis os brasileiros com renda até R$ 70 mensais por integrante da família deixou a extrema pobreza no País do tamanho que o problema possa ser enfrentado como prioridade nos quatro anos de mandato da presidente Dilma Rousseff.
Atualmente, órgãos do governo já trabalham com diferentes linhas de pobreza, que resultam num número maior ou menor de miseráveis. Antes da divulgação dos primeiros dados do Censo 2010, o número de extremamente pobres podia variar em mais de 12 milhões de pessoas, dependendo da fórmula de cálculo.
A contabilidade adotada internacionalmente pelo Banco Mundial chegaria ao menor número de miseráveis, considerados aqueles que ganham US$ 1,25 por dia ou cerca de R$ 60 por mês, neste momento de real valorizado.
Se o governo considerasse no plano "Brasil sem Miséria" a contabilidade de extremamente pobres feita pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), baseada em valores de renda diferentes para cada região do País, o número de miseráveis ficaria em pouco menos de 14 milhões de pessoas.
O critério de miséria usado em programas oficiais como o Benefício de Prestação Continuada (BPC), pago a idosos e deficientes com renda até a quarta parte do salário mínimo, elevaria o número brasileiros extremamente pobres a mais de 20 milhões.
Nesta terça-feira, 3, a ministra do Desenvolvimento Social, Tereza Campello, chamou a atenção para que a linha de pobreza adotada para o "Brasil sem Miséria" serve apenas para uma política social de "caráter extraordinário", que deve deixar de existir ao final da gestão Dilma Rousseff, e que não pode ser confundida com outras políticas sociais do governo.
Quantificada a extrema pobreza, faltam as medidas para combatê-la. O "Brasil sem Miséria" vem sendo discutido sob sigilo. Seu anúncio será feito pela própria presidente. O plano incluirá a reciclagem de programas já anunciados, como o Água para Todos.
