Adelson Elias Vasconcellos
Reparem no seguinte: domingo, o Fantástico da Rede Globo exibiu uma reportagem denunciando as inúmeras fraudes que são cometidas no Pro-Uni. Hoje, passados quatro dias, a gente nada encontra na grande imprensa sobre as vigarices e nem o MEC do senhor Haddad se pronunciou a respeito.
É claro que a reportagem tem consistência e os fatos ali narrados representam um escândalo monumental. Mas quem por ele se interessou em aprofundar os detalhes ou cobrar do governo Dilma um mínimo de explicação para o esclarecimento dos fatos?
Isto é bem demonstrativo do quanto a educação brasileira não passa de mero discurso de palanque. Nem os governantes tampouco a sociedade dão à Educação a importância que o país precisa para resolver seus problemas mais relevantes. Lancem quantos programas de erradicação da miséria lançarem, abram quantas bolsas o apetite por currais eleitorais a classe política precisar para se manter onde está, e nada disso será suficiente para livrar o país de seu atraso quase secular.
Quanto tempo levaremos para aprender que não existe país rico e povo desenvolvido contando com mais de 70% de sua população na situação vexatória de analfabetismo funcional? Quando vemos as preocupações econômicas que nos afligem no momento, é fácil para analistas firmarem consenso quanto a necessidade de se elevar a produtividade das empresas nacionais para recuperarmos nossa capacidade de competir no mercado internacional. Só que este aumento não se dá por milagre ou obra do acaso. Sem investimentos maciços em educação de qualidade não sairemos do lugar. Podemos até eliminar esta rotulagem vigarista de “estrema miséria”. Mas permaneceremos na pobreza eterna se nada for feito no campo da educação e as coisas permanecerem sendo tratadas como atualmente se vê.
O site do Instituto Millenium traz dois links com material interessante e que deveria alertar o país: num, a TV Al- Jazeera traz uma reportagem sobre trabalho infantil no Brasil, assunto que temos tratado aqui com bastante severidade mas que, no Brasil, tem sido posto de lado, como algo de menor importância. Inclusive há um outro tema que se junta a este que, eventualmente, algum órgão de imprensa traz à tona mas que logo fica posto de lado também, que é a prostituição infantil, com os estados do nordeste e norte destacando-se nesta deprimente realidade brasileira. Claro que a prostituição infantil está disseminada por todo o país, mas é no Norte/Nordeste que ela mais deteriora o quadro social do Brasil. Nesta reportagem da Al-Jazeeta o tema não é abordado. A reportagem se circunscreve em denunciar situações extremas como a condição em que, por um lucro diário de apenas seis reais, crianças arriscam a vida abordando barcos para vender frutas e palmito no norte do Brasil. Confiram a reportagem clicando aqui . O vídeo também mostra um pouco do cotidiano das famílias ribeirinhas, expondo a dificuldade de acesso das crianças às escolas – seja pela falta de transporte adequado, seja pela necessidade de trabalhar para sobreviver.
O outro link é do artigo de Polan Lacki – A educação e o subdesenvolvimento rural - no qual ele faz uma correta avaliação do sistema de ensino nos meios rurais da América Latina, pelos quais ele entende perder-se uma excelente oportunidade a oportunidade de ampliar e aprofundar o ensino de conteúdos muito mais úteis e de aplicação mais imediata na correção das ineficiências causadoras do subdesenvolvimento rural, como, por exemplo, o que as famílias rurais poderiam fazer para obter uma produção agropecuária mais abundante, mais diversificada, mais eficiente e mais rentável; quais medidas de higiene, profilaxia e alimentação elas deveriam adotar para evitar as enfermidades que ocorrem com maior freqüência no meio rural; o que deveriam fazer para prevenir as intoxicações com pesticidas e os acidentes rurais e como aplicar os primeiros socorros, quando eles não puderem ser evitados; como produzir e utilizar hortaliças, frutas e plantas medicinais; como organizar a comunidade para solucionar, em conjunto, aqueles problemas que não podem ou não devem ser resolvidos individualmente, como, por exemplo, a comercialização e os investimentos de alto custo e baixa frequência de uso, etc. (Clique aqui para acessar o artigo).
Não faz muito comentamos aqui pesquisa feita junto às famílias brasileiras que trouxe à tona uma verdade preocupante: dentre os pais que mantém seus filhos em escolas públicas, e que são maioria, em torno de 60% se diz satisfeito com o ensino público no Brasil porque ele permite que seus filhos tenham merenda escolar, além de receberem o material didático distribuído gratuitamente pelo poder público. Para esta imensa maioria, "isto" é a qualidade que conta. Conteúdo das disciplinas que são ministradas? Bem, a grande maioria dos pais destes alunos mal conseguem saber para si mesmos, quanto mais para melhor avaliarem o que está sendo ministrado aos seus filhos no interior das escolas. Quando chegamos a tal nível de “avaliação” dá para identificar onde, de fato, reside a dificuldade do país avançar mais rápido na qualificação do ensino, o primeiro dos males que provocam nosso atraso .
Vejam, nas postagens abaixo, as reportagens que trataram das fraudes do PROUNI. Não fosse a imprensa denunciar sua ocorrência e, muito provavelmente, ninguém se daria ao trabalho de fiscalizar e investigar. Quando o assunto vem ao conhecimento público o que se vê é um jogo de empurra onde todos os responsáveis tratam de transferir a responsabilidade a terceiros, sem nunca sua própria parcela de culpa. E reparem que isto se dá num nível onde os valores de honestidade e ética deveriam vigorar em sua plenitude, uma vez que nesta faixa da população encontra-se a base do futuro comando político do país.
O Instituto Millenium está realizando, nesta semana, o 2º Fórum Democracia e Liberdade e um de seus participantes, o diplomata Paulo Roberto Almeida, mestre em Planejamento Econômico, foi muito feliz ao fazer um resumo de nossas mazelas, indo direto aos pontos mais nevrálgicos do nosso pouco desenvolvimento. Diz ele: “O Brasil é um pais muito caro, excessivamente burocratizado (e a gente não pode mais colocar a culpa nos portugueses, pois já se vão muitos anos), desorganizado, duvidoso, em que a Comissão de Ética do Senado é formada por nove bandidos e também somos desatentos com a educação de massa”.
Almeida ironiza o desenvolvimento econômico brasileiro: “A gente quer ser grande e a política lulista nos levou a uma projeção grande, o PIB diplomático hoje seria muito melhor que o PIB econômico, sem falar no PIB Futebolístico”, mas questiona a sério as oportunidades de crescimento que o país desperdiça: “O Brasil podia ser hoje muito mais rico do que ele é, nós avançamos muito lentamente”.
O diplomata também criticou a carga tributária nacional, que gera uma ineficiência econômica:“As deficiências principais estão na incapacidade do sistema produtivo do Estado gastador”, analisou.
Criticando a intervenção do Estado que atrasa a produtividade da economia brasileira, Almeida reflete: “E o Brasil ainda quer mais Estado: ‘Muitos de meus alunos cobram: ‘falta política pública’!”, sem perceber que o Estado dá com uma mão e toma com a outra.”, completa.
Voltem no artigo abaixo em que comentamos o tal programa de erradicação da miséria que a presidente Dilma pretende lançar nas próximas semanas. Vejam lá o que consideramos indispensáveis que este programa deve trazer. Não se trata apenas de estender aos mais de 16 milhões de miseráveis existentes no país, conforme o Censo de 2010 do IBGE revelou, um benefício pecuniário. Tal propósito somente será alcançado – a erradicação da miséria – na medida em que o programa trouxer no seu bojo a indispensável universalização de serviços básicos essenciais, e estes com o devido padrão de qualidade que se exige de um serviço digno de um ser humano.
Não podemos nos enganar achando que apenas porque a pessoa tenha certo nível de renda, ela simplesmente deixará de ser miserável. Isto é pura demagogia e empulhação. A emancipação se dará via Educação em primeiríssimo lugar, e com serviços básicos disponibilizados em nível satisfatório e portas de saída que permitam ao cidadão poder andar com suas próprias pernas. Jamais seremos um povo desenvolvido diante do analfabetismo nos níveis em que se encontram, e com mais de 50% da população sem poder ter acesso a saneamento básico. Imaginem, então, com mais de 30% dependendo da ajuda do Estado para se manterem a si e a sua família!!!!
Mas a exigência quanto à educação de qualidade não pode partir de iniciativas isoladas de uns poucos. Ela deve ser voz permanente de toda a sociedade, e não apenas dos agentes envolvidos no processo de ensino. Se é um direito elementar e natural de todos, que todos cobrem do Estado o dever que o justifica. O post abaixo, A Revolta de um Brasileiro, demonstra em a pouca importância com que a educação é tratada no Brasil. O sentimento de repulsa e revolta ali demonstrada não deveria ser de UM brasileiro apenas, mas de TODOS OS BRASILEIROS, de norte a sul, indistintamente.
Quanto às fraudes apontadas pela reportagem do Fantástico, vamos ver quanto tempo será preciso para que o governo dê uma resposta correta para o escândalo e quantos serão penalizados pelas vigarices cometidas. Está na hora dos recursos destinados à Educação, em todos os seus níveis, merecerem tratamento bem mais sério e responsável por parte dos nossos governantes. Já nos bastam os Fundebs, Funasas e outros poços sem fundos a corroerem os recursos que deveriam ser destinados a população do país e acabam, em grande parte, sendo desviados para fins nada republicanos e o que é pior: sem que se cobre o ressarcimento aos cofres públicos dos recursos desviados e sem que resulte em punição aos milhares de corruptos e vigaristas que tratam a coisa pública como se fossem patrimônios pessoais.