sexta-feira, dezembro 14, 2012

Como ministro da Justiça, Cardozo é bom petista

Josias de Souza

Ou José Eduardo Cardozo é o ministro da Justiça –e o demonstra— ou não passará de um petista com direito a cafezinho, água gelada e carro oficial. Instado a comentar o depoimento prestado por Marcos Valério à Procuradoria da República, o doutor declarou:

“Um depoimento que é apresentado sem provas, por uma pessoa que estava envolvida em práticas criminosas, não tem significado jurídico. A menos que obviamente se mostre que o que ele falou é verdadeiro. Mas parece que não foram juntadas provas que minimamente pudessem dar credibilidade ao depoimento.”

O raciocínio oscila entre o óbvio e o inquietante. O ministro soa acaciano ao dizer que um depoimento, para ter serventia, precisa revelar-se verdadeiro. Inspira inquietação ao afirmar que faltam provas. Cardozo renderia homenagens aos brasileiros que lhe pagam o salário se dissesse algo assim: “a Polícia Federal está à disposição do Ministério Público para promover uma boa investigação.”

Vale a pena ouvir um pouco mais de Cardozo: “Juridicamente, essa é uma peça que alguém fez numa fase curiosa. Não foi no início do processo, foi depois que já sabia que estava condenado. Com que objetivo? Anular o processo? Reduzir a pena? Não se pode dar credibilidade a priori numa situação como essa.” Beleza. Mas o doutor há de concordar que também não se pode desacreditar por antecipação a palavra de alguém que, até ontem, agendava reuniões na Casa Civil, avalizava empréstimos bancários para o partido do poder e distribuía dinheiro na Câmara.

Entre muitas outras coisas, Valério disse no seu depoimento que Lula deu seu “ok” aos empréstimos de fancaria do mensalão e teve despesas pessoais custeadas com verbas sujas do esquema. E Cardozo: “Lula é um guerreiro, um lutador. A população não vai deixar de reconhecer seu papel na história. Ele mudou a história do país. O presidente Lula tem uma trajetória reconhecida pela grande maioria da população. Foi o grande presidente da história.”

Pronunciadas numa assembléia do PT, as palavras do doutor renderiam salvas de aplausos. Ditas na pasta da Justiça, merecem um ‘alto lá!’, um ‘êpa!’, um ‘como é que é?’. De novo: como ministro, Cardozo tem a possibilidade de envernizar o verbete de Lula na enciclopédia. No inquérito do mensalão, a PF deu demonstrações de que, quando quer, sabe buscar a verdade.