sexta-feira, dezembro 14, 2012

Corrupção no governo Lula: Le Monde se vê obrigado a “descobrir” e Dilma, a recorrer ao revisionismo histórico


Antonio Ribeiro
Veja online


Muitas vezes a ficha demora a cair, mas ainda não se tinha notícia de que, contra a Lei da Gravidade, ela tenha feito o caminho inverso. Ou seja, subido. O jornal francês Le Monde se viu obrigado a tratar para valer da corrupção no governo Lula. Até então, era um detalhe irrelevante, mencionado assim en passant, de passagem, nas reportagens em que o vespertino francês abordava assuntos brasileiros. Quase como um inconveniente, um estorvo. Em nenhum momento a corrupção no Brasil foi questão que mereceu reflexão detida no jornal.

Antes de embarcar para a terra de Joseph Stalin – o ditador soviético sustentava que, se a mentira fosse repetida várias vezes, encontraria incautos prontos a considerá-la a mais pura verdade –, a presidente do Brasil respondeu a perguntas do Le Monde. Na entrevista, não há uma linha sobre corrupção no Brasil. Depois da entrevista coletiva de Dilma Rousseff à imprensa no Palácio do Eliseu, na qual os jornalistas brasileiros questionaram a presidente sobre detalhes do depoimento de Marcos Valério, revelados pelo O Estado de São Paulo, o Le Monde fez um adendo com material omitido no corpo original da entrevista com Dilma:

“O Brasil conseguiu conter a corrupção?”, perguntou o jornalista do Le Monde. Dilma respondeu: “Não são as pessoas que devem ser virtuosas, mas as instituições. A sociedade deve ter todo acesso aos dados do governo. Todos que utilizam recursos públicos devem prestar contas. Caso contrário, a corrupção é beneficiada. É preciso ser voluntarista. Devido às novas tecnologias, o Brasil criou o Portal da Transparência, que registra, diariamente, todos os gastos públicos. Não tolero a corrupção e meu governo tampouco. Se há suspeitas fundamentadas, a pessoa deve sair. Bem entendido: não se deve confundir investigação e caça às bruxas, como acontece nos regimes autoritários e de exceção. Para concorrer às eleições, o candidato brasileiro deve estar em conformidade com a Lei da Ficha Limpa. O Ministério Público e a Polícia Federal prendem e sancionam. E quem começou esta política foi o presidente Luiz Inácio da Silva.”

Bem, como é notório, a Lei da Ficha Limpa foi aprovada devido à mobilização de milhões de brasileiros a partir de projeto de lei de iniciativa popular. Mas a questão é a seguinte: por que a pergunta foi sonegada inicialmente do corpo da entrevista? Por que foi um adendo posterior às revelações de Marcos Valério? Se o correspondente do jornal francês no Brasil e o autor da entrevista tivesse um décimo do interesse pela corrupção durante o governo Lula em que seu jornal tem pela de Sarkozy e Chirac na França, já estaria de bom tamanho. O leitor francês tem uma dívida com o condenado pelo Supremo Tribunal Federal a mais de 40 anos de prisão.

De longe, alguns ainda acham que  o Le Monde ainda é o Le Monde de outrora. Aquele jornalão que investigava até as escutas clandestinas da célula de arapongas instalada no Palácio do Eliseu durante o governo Mitterrand. O vespertino deficitário tornou-se um panfleto de luxo da esquerda francesa. Assim como o Figaro é o da direita. Sem tirar nem pôr. Vide a cobertura partidária que ambos fizeram na recente eleição presidencial francesa. Os repórteres que faziam jornalismo investigativo saíram do Le Monde. Criaram um site na internet, o Mediapart. É dele que emergem as notícias mais interessantes da política francesa.