Por Pedro do Coutto
Publicado na Tribuna da Imprensa
Em longa entrevista à "Folha de S. Paulo", edição de domingo, o cardeal de São Paulo, dom Cláudio Hummes, agora nomeado pelo papa Bento XVI prefeito da Congregação do Vaticano, defendeu maior eficiência da Igreja e uma aproximação mais científica com os pobres. Dom Cláudio considerou superado o dilema entre conservadorismo e progressismo, procurando colocar-se ao centro das correntes eternamente em choque tanto na religião quanto fora dela. No que se refere à aproximação mais científica com os pobres, falou por metáfora.
Na realidade, quis dizer aproximação política com os pobres. Neste mundo, impossível viver sem política. Vejam os leitores o exemplo do próprio papa Bento XVI: a cerca de dois meses, afastou o cardeal Angelo Sodano do cargo de administrador apostólico da Cátedra de São Pedro. O ato passou pouco percebido. Mas eu me lembrei que, em 2004, quando João Paulo II apresentava sintomas críticos de saúde, a divergência entre Ratzinger e Sodano foi profunda em torno da hipótese de renúncia do papa. Sodano a favor, Ratzinger contra.
Eu estava em Florença. A edição italiana do "Herald Tribune", em matéria assinada pela correspondente Elizabeta Povoledo, focalizou o assunto. Ao retornar de viagem, publiquei um artigo nesta TRIBUNA DA IMPRENSA. A divergência estava assinalada. Agora, com Ratzinger no poder, a conseqüência política se fez sentir.
Ao defender uma aproximação "mais científica" com as classes de menor renda, fazendo-se a filosofia da frase, ela não deixa de representar mais uma ruptura secular da maior importância, um esforço para tornar o catolicismo mais cristão e menos sobrenatural. Por que isso? Porque implica na necessidade de construir uma sólida ponte terrena entre o trono de Pedro e o povo de Deus, como dizem os religiosos.
Assim, Cláudio Hummes, no momento em que se torna no futuro um possível sucessor de Bento XVI, segue pela linha do papa João XXIII, o grande reformador católico da era moderna. Em 1960, na Encíclica Mater et Magistra, praticou profunda ruptura com o dogma até então predominante, ao sustentar que o ser humano tem que se realizar tanto na Terra quanto no Céu.
Foi a retomada da mensagem cristã original, fundamento do princípio de justiça legado por Jesus Cristo há 1.973 anos, já que morreu quando tinha 33 anos. Ele era tão divino quanto humano para os que acreditam ser ele filho de Deus. Para os demais cristãos, como eu, por exemplo, ele também é divino, porém não por nascimento, mas divinizado pela eleição dos séculos.
Seja como for, sua figura é eternamente marcada por esta dualidade. Se é assim, o cardeal de Veneza, Giovane Roncalli, eleito papa em 1958, sucedendo a Pio XII, colocou a questão fundamental: realização tanto no plano humano quanto no universo não limitado pelo tempo. Na encíclica histórica, João XXIII distanciou-se do pensamento tradicional da Igreja Romana, vereda agora utilizada por Cláudio Hummes na rota do futuro.
Extremamente importante a colocação, já que a política de Roncalli foi seguida por seu sucessor, Paulo VI, que fora cardeal de Milão, mas interrompida por João Paulo II, que anestesiou o debate ideológico interno, embora incentivasse o confronto de idéias no plano da política externa. Condenou a invasão do Iraque, condenou o cerco de Israel, comandado por Sharon, contra Arafat e a Igreja de Belém, onde Jesus Cristo nasceu.
A Encíclica Mater et Magistra foi tão importante que dela surgiram traduções, como é óbvio, em todas as línguas. Uma delas, claro, em italiano. Esta deu margem a uma ironia. Dizia-se, na Itália, que o original, Mater et Magistra, era um documento da sinistra (esquerda). Mas na tradução italiana, Madre e Maestra, passou a ser um documento da destra (direita). Na realidade, o texto era do centro. No máximo do que se pode chamar de centro avançado.
Importantíssimo, como acentuei há pouco, conduzindo a um encontro do cristianismo com o catolicismo. Esta síntese não é original. O cristianismo no mundo, inclusive o desfecho da crucificação, é anterior em 305 anos à fé católica. E Jesus Cristo, indispensável reconhecer, em momento algum de sua vida defendeu qualquer outra religião a não ser a judaica.
Ele nasceu judeu e morreu judeu. O catolicismo representa, de fato, a apropriação religiosa, pelo imperador romano Constantino, de sua imagem e sua mensagem. Imagem e mensagem que foram recuperadas por Martinho Lutero, bispo católico dissidente, na segunda metade do século 15, ao lançar as bases do protestantismo. Lutero tornou-se assim o segundo maior dissidente da história. O primeiro - claro - foi o próprio Cristo.
João XXIII, ontem, e Cláudio Hummes, hoje, estabeleceram a idéia de um denominador comum entre o dogma e a história, para que os dois fatores possam conviver dentro de uma relativa harmonia lógica. Pois quando, no passado, isso há mais de 400 anos, um papa, ao ressaltar que a Virgem Maria representava uma vitória da fé dogmática contra o processo histórico, tacitamente praticou exatamente o inverso da tese que levantava. Pois reconhecem que o dogma derrotou a história, significa reconhecer que ambos não podem conviver em paz.
Roncalli, em 60, Hummes, em 2006, adotaram o rumo oposto. Tornaram-se assim revolucionários dentro do Vaticano, embora sob a aparência de conservadores. Joseph Ratzinger, embora em meio a contradições nas quais se envolveu, como em relação ao profeta Maomé, não é conservador. Se fosse, não teria nomeado Cláudio Hummes prefeito de Congregação de Roma. A lógica avançou mais um degrau no mundo.
Publicado na Tribuna da Imprensa
Em longa entrevista à "Folha de S. Paulo", edição de domingo, o cardeal de São Paulo, dom Cláudio Hummes, agora nomeado pelo papa Bento XVI prefeito da Congregação do Vaticano, defendeu maior eficiência da Igreja e uma aproximação mais científica com os pobres. Dom Cláudio considerou superado o dilema entre conservadorismo e progressismo, procurando colocar-se ao centro das correntes eternamente em choque tanto na religião quanto fora dela. No que se refere à aproximação mais científica com os pobres, falou por metáfora.
Na realidade, quis dizer aproximação política com os pobres. Neste mundo, impossível viver sem política. Vejam os leitores o exemplo do próprio papa Bento XVI: a cerca de dois meses, afastou o cardeal Angelo Sodano do cargo de administrador apostólico da Cátedra de São Pedro. O ato passou pouco percebido. Mas eu me lembrei que, em 2004, quando João Paulo II apresentava sintomas críticos de saúde, a divergência entre Ratzinger e Sodano foi profunda em torno da hipótese de renúncia do papa. Sodano a favor, Ratzinger contra.
Eu estava em Florença. A edição italiana do "Herald Tribune", em matéria assinada pela correspondente Elizabeta Povoledo, focalizou o assunto. Ao retornar de viagem, publiquei um artigo nesta TRIBUNA DA IMPRENSA. A divergência estava assinalada. Agora, com Ratzinger no poder, a conseqüência política se fez sentir.
Ao defender uma aproximação "mais científica" com as classes de menor renda, fazendo-se a filosofia da frase, ela não deixa de representar mais uma ruptura secular da maior importância, um esforço para tornar o catolicismo mais cristão e menos sobrenatural. Por que isso? Porque implica na necessidade de construir uma sólida ponte terrena entre o trono de Pedro e o povo de Deus, como dizem os religiosos.
Assim, Cláudio Hummes, no momento em que se torna no futuro um possível sucessor de Bento XVI, segue pela linha do papa João XXIII, o grande reformador católico da era moderna. Em 1960, na Encíclica Mater et Magistra, praticou profunda ruptura com o dogma até então predominante, ao sustentar que o ser humano tem que se realizar tanto na Terra quanto no Céu.
Foi a retomada da mensagem cristã original, fundamento do princípio de justiça legado por Jesus Cristo há 1.973 anos, já que morreu quando tinha 33 anos. Ele era tão divino quanto humano para os que acreditam ser ele filho de Deus. Para os demais cristãos, como eu, por exemplo, ele também é divino, porém não por nascimento, mas divinizado pela eleição dos séculos.
Seja como for, sua figura é eternamente marcada por esta dualidade. Se é assim, o cardeal de Veneza, Giovane Roncalli, eleito papa em 1958, sucedendo a Pio XII, colocou a questão fundamental: realização tanto no plano humano quanto no universo não limitado pelo tempo. Na encíclica histórica, João XXIII distanciou-se do pensamento tradicional da Igreja Romana, vereda agora utilizada por Cláudio Hummes na rota do futuro.
Extremamente importante a colocação, já que a política de Roncalli foi seguida por seu sucessor, Paulo VI, que fora cardeal de Milão, mas interrompida por João Paulo II, que anestesiou o debate ideológico interno, embora incentivasse o confronto de idéias no plano da política externa. Condenou a invasão do Iraque, condenou o cerco de Israel, comandado por Sharon, contra Arafat e a Igreja de Belém, onde Jesus Cristo nasceu.
A Encíclica Mater et Magistra foi tão importante que dela surgiram traduções, como é óbvio, em todas as línguas. Uma delas, claro, em italiano. Esta deu margem a uma ironia. Dizia-se, na Itália, que o original, Mater et Magistra, era um documento da sinistra (esquerda). Mas na tradução italiana, Madre e Maestra, passou a ser um documento da destra (direita). Na realidade, o texto era do centro. No máximo do que se pode chamar de centro avançado.
Importantíssimo, como acentuei há pouco, conduzindo a um encontro do cristianismo com o catolicismo. Esta síntese não é original. O cristianismo no mundo, inclusive o desfecho da crucificação, é anterior em 305 anos à fé católica. E Jesus Cristo, indispensável reconhecer, em momento algum de sua vida defendeu qualquer outra religião a não ser a judaica.
Ele nasceu judeu e morreu judeu. O catolicismo representa, de fato, a apropriação religiosa, pelo imperador romano Constantino, de sua imagem e sua mensagem. Imagem e mensagem que foram recuperadas por Martinho Lutero, bispo católico dissidente, na segunda metade do século 15, ao lançar as bases do protestantismo. Lutero tornou-se assim o segundo maior dissidente da história. O primeiro - claro - foi o próprio Cristo.
João XXIII, ontem, e Cláudio Hummes, hoje, estabeleceram a idéia de um denominador comum entre o dogma e a história, para que os dois fatores possam conviver dentro de uma relativa harmonia lógica. Pois quando, no passado, isso há mais de 400 anos, um papa, ao ressaltar que a Virgem Maria representava uma vitória da fé dogmática contra o processo histórico, tacitamente praticou exatamente o inverso da tese que levantava. Pois reconhecem que o dogma derrotou a história, significa reconhecer que ambos não podem conviver em paz.
Roncalli, em 60, Hummes, em 2006, adotaram o rumo oposto. Tornaram-se assim revolucionários dentro do Vaticano, embora sob a aparência de conservadores. Joseph Ratzinger, embora em meio a contradições nas quais se envolveu, como em relação ao profeta Maomé, não é conservador. Se fosse, não teria nomeado Cláudio Hummes prefeito de Congregação de Roma. A lógica avançou mais um degrau no mundo.