sexta-feira, novembro 10, 2006

Não crescemos com ou sem inflação

José Paulo Kupfer em NoMínimo
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A história acontece como tragédia e se repete como farsa, diz a famosa frase atribuída a Marx, segundo alguns plagiada de Hegel. Usada e abusada, a frase vem à mente quando se observa a ansiedade com que uma turma bem conhecida se vale de sua cumplicidade com a mídia para lançar confusão em torno dos rumos da política econômica no segundo mandato de Lula e dos que a comandarão. É que um movimento muito semelhante ocorreu no primeiro mandato – e deu certo. A questão é saber se dará certo de novo. Não custa ir logo avisando que as chances de êxito, desta vez, são quase nenhuma.
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É coisa complicada, mas que pode ser resumida numa indagação, a partir de uma produção independente, como disse Lula, de seu ministro Tarso Genro. Genro disse que a “era Palocci” acabou. A pergunta é: acabou ou não? Dessossada das conveniências diplomáticas e dos eufemismos acadêmicos, a “era Palocci”, como se sabe, foi aquela em que a economia, no primeiro mandato de Lula, atendeu aos interesses dos que perderam a eleição.
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Tudo bem que Lula entrou sob um fogo tão cerrado que é, pelo menos por enquanto, impossível saber se poderia ter feito diferente. Mas que não deixou de ser muito estranho constatar que os derrotados, no fim das contas, saíram ganhando, lá isso foi. Fresquinho na memória, aí está Geraldo Alckmin e seu mantra de que nunca os banqueiros ganharam tanto quanto com Lula, para não dizer que estamos inventando.
É possível, então, que os mesmos derrotados de antes – e derrotados agora novamente – tenham imaginado ser viável repetir a dose da outra eleição. Voltaram a perder nas urnas – e de um modo acachapante, apesar do pungente e nem sempre limpo esforço da grande mídia para derrubar Lula –, mas estão na luta com esperanças de, na vida prática, que, afinal, é o que importa, levar de novo.
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O sinal inequívoco de que a turma do perde-mas-leva arregaçou as mangas e partiu para o campo de batalha pode ser encontrado na profusão de especulações sobre eventuais mudanças na condução da economia. A ofensiva é tão forte que faz tempo não se viam tantos desmentidos oficiais sobre substituições nos ministérios da área econômica (e no Banco Central) em tão pouco tempo. Nem tantas declarações oficiais em favor da austeridade fiscal ou da manutenção dos atuais rumos (?) da economia.
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Calcular, no entanto, que o cenário político e as condições atmosféricas do início do segundo mandato de Lula se assemelham ao começo do primeiro é prova de ingenuidade ou ignorância do fato de que vontade e realidade nem sempre andam juntas. Difícil acreditar que a gritaria e o agito sejam capazes de produzir, como foram às vésperas das eleições de 2002 e nos primeiros tempos do governo, uma “carta aos brasileiros 2 – o império contra-ataca”.
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O próprio mercado financeiro, que colaborou ativamente para o êxito da operação perde-mas-leva, no primeiro mandato, desta vez parece pouco disposto a entrar, novamente, no jogo. No mercado financeiro, é bom não esquecer, contra fatos há sim argumentos e, sobretudo, versões. Mas dentro de um mínimo de racionalidade. Daí que bolsas, câmbio, risco-país viveram um segundo turno de normalidade e se confrontaram com a reeleição de Lula sem a histeria de alguns comentadores.
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Atrelar um maior crescimento a ajustes fiscais draconianos ou, o que dá no mesmo, ameaçar com o inferno inflacionário as tentativas de adotar políticas desenvolvimentistas, à velha moda do FMI, cheira a coisa velha, que nem o FMI prega mais. Diante da fragilidade dos argumentos, cheira a um autêntico caso de terrorismo econômico.
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A história econômica está repleta de casos de alto crescimento com e sem inflação ou com e sem superávits fiscais e de baixo crescimento idem. O Brasil mesmo, nesse aspecto, é um caso interessante. Como ensina o novo governador paulista, José Serra, um especialista no assunto, nos últimos 25 anos, houve períodos em que não crescemos com inflação e outros em que não crescemos sem inflação.
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A lógica, inventada pelos gregos no Hemisfério Norte, não funciona muito bem abaixo da linha divisória do Planeta. Mas, se subsistir um mínimo dela ao sul do Equador, é possível apostar, sim, no fim da “era Palocci”. Por uma razão simples: a receita de Palocci (e de FHC), que é a receita da turma do perde-mas-leva, serve para continuar estabilizando o que já está estabilizado. Não serve para crescer. E se resume no último suspiro dos perde-mas-leva.