sexta-feira, novembro 10, 2006

Voltaire e o governo Lula.

Por Carlos Chagas
Publicado na Tribuna da Imprensa
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A história é velha, mas merece ser lembrada. François Marie Arouet, o Voltaire, começava a ser conhecido em Paris como sarcástico e implacável crítico do clero e da nobreza. Certa vez tomou conhecimento da disposição do regente de economizar gastos públicos vendendo a metade das cavalariças reais. Sugeriu, então, que, em vez de livrar-se da despesa dada por milhares de cavalos, o governante poderia fazer economia maior: bastaria livrar-se de todos asnos que cercavam o trono, mais tarde ocupado por Luiz XIV.
A moda na capital francesa era de os nobres, artistas e escritores passearem aos domingos pelos Bois de Boulogne. Deparando-se com Voltaire, disse o regente: "Monsieur Arouet, vou-lhe proporcionar uma vista de Paris que o senhor não conhece. O senhor verá a cidade pela janela de uma cela, na Bastilha..." E lá se foi Voltaire para quase um ano na prisão.
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Economizar livrando-se de asnos
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Depois, arrependido, o regente mandou soltá-lo e, como compensação, baixou decreto concedendo-lhe determinada quantia anual do tesouro francês. O genial filósofo, que jamais conteve sua verve, escreveu carta de agradecimento ao monarca, onde dizia estar feliz porque a dotação do trono, a partir daquela data, responderia pela sua alimentação. Mas acrescentou: "Vossa majestade não se preocupe com minhas despesas de habitação, que destas cuidarei eu mesmo..." Viu-se condenado ao exílio, tendo que deixar a França para viver uma temporada na Inglaterra...
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Por que se conta o episódio? Porque querem levar Lula a cortar gastos públicos, à maneira da metade das cavalariças do regente. Melhor seria economizar livrando-se dos asnos, daqueles que proporcionam benesses aos especuladores. Já vamos para mais de um trilhão de reais de juros devidos aos títulos da dívida pública. Sem esquecer os juros da dívida externa.
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Agora que está prestes a começar o segundo governo, a solução para fazer caixa e investir em obras de infra-estrutura e em justiça social poderia repousar, por exemplo, na extinção da isenção de impostos para quem, no exterior, compra e vende títulos brasileiros. Outra iniciativa poderia ser a proibição de vultosas remessas de dólares para o estrangeiro, por cidadãos e empresas brasileiras. Que o dinheiro brasileiro fique ou volte para cá, aplicado na atividade produtiva, contestada apenas a posse de recursos adquiridos ilegalmente. Como adendo, limitar a remessa de lucros de multinacionais aqui instaladas para suas matrizes, fixando-se percentuais a ser reinvestidos entre nós.
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Fica, para economistas, o monte de outras soluções capazes de gerar recursos para o governo Lula retomar o crescimento econômico sem necessidade de despedir funcionários em massa, muito menos de reduzir ou extinguir programas assistenciais, ou deixar no abandono políticas e serviços públicos essenciais. Tudo sob a inspiração de Voltaire.
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"Para mim, um cafezinho"
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Para ficar em personagens que através do humor têm contribuído para o aprimoramento da humanidade, vale citar um brasileiro, o nosso Voltaire. Trata-se de Aparício Torelli, hoje injustamente esquecido por boa parte da população. No século passado, Aporelli, como inicialmente se autodenominava, foi o horror das elites e dos governantes, ainda que a delícia dos compatriotas. Mais tarde intitulou-se o "Barão de Itararé", por conta da batalha que felizmente não houve, em 1930, entre as tropas gaúchas e paulistas, na fronteira do Paraná com São Paulo.
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Começou cedo. Ainda jovem, em Porto Alegre, cursando a Faculdade de Medicina, dava toda atenção à política e nenhuma ao diploma que acabou não conquistando. Os tempos eram cruéis para os alunos, com provas orais onde se sentiam intimidados diante de vetustas bancas de catedráticos e sob o olhar dos colegas. Aparício Torelli ia mal. Não respondia a uma só das perguntas, cada vez mais duras.
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Em certo momento o prepotente professor, mestre na arte da humilhação, vira-se para um contínuo postado no fundo da sala e ordena: "Seu José, traga um monte de capim!" Era o fim, ser chamado de burro. O futuro Barão de Itararé saiu-se então com frase que começou a consagrá-lo como jornalista e humorista, mas cortou para sempre sua carreira de médico:"E, para mim, um cafezinho..."