sexta-feira, novembro 10, 2006

Nos Emirados Sáderes ...

Lula se solidariza com Sader, que agora quer título em clube da burguesia carioca
.
Por Reinaldo Azevedo
.
Perdi as esperanças de que o presidente Lula venha a ler Kant um dia. Aliás, acho que nem a Marxilena Oiapoque lê. Ao escolhermos os nossos atos, escolhemos o mundo; ao decidirmos o que nos é licito ou não fazer, emitimos um sinal do que esperamos que todos façam. Quando os jornalistas apanharam de petistas na porta do Palácio da Alvorada, Lula silenciou. Quando os repórteres da Veja sofreram intimidação na Polícia Federal, Lula silenciou. Quando ficou claro que o sigilo telefônico da Folha foi quebrado pela PF, pouco importa a circunstância, Lula silenciou.
.
Não foi um silêncio qualquer. Foi um silêncio ruidoso. Marco Aurélio Garcia, presidente do PT, mesmo condenando — claro! — a agressão aos jornalistas, cobrou da mídia uma “auto-reflexão” (sic). Numa solenidade com empresários, Lula viu um paralelo entre a imprensa de hoje e aquela que vivia sob o tacão da ditadura. Parece que ele não vê distinção entre ambas. Faz algum sentido. Aquela também era vítima de fascistóides. Mas acho que ele falava de outra coisa...Mas Lula também encontrou tempo para solidariedades: pegou o telefone e ligou para Emir Sader, o petista professor condenado por crime de injúria. Sader chama um senador da República — Jorge Bornhausen — de “racista”, associa-o à prática de “assassinato de trabalhadores”, diz que ele é uma “pessoa abjeta” e, não obstante, recebe um afago presidencial. É a mão estendida do Supremo Mandatário à oposição. É o entendimento que ele tem da institucionalidade. É, então, como ele acha que os petistas devem se comportar com quem não comunga de sua cartilha — cartilha virtual, é claro; cartilha apenas moral. Já que as outras, as que teriam custado R$ 11 milhões, ninguém viu até agora. Nem a cartilha nem o dinheiro. Ele também sumiu.
.
Emir Sader pode, assim, sob as bênçãos presidenciais, continuar a combater a burguesia nojenta, que ele tanto despreza. Aliás, descobri que ele quer fazê-lo de muito perto. Sader está pleiteando um título no Clube dos Caiçaras, no Rio. Compreendo: esse negócio de ficar defendendo oprimido o tempo inteiro cansa. Dia desses, o professor escreveu um texto sobre o que é ser um ex-esquerdista — segundo entendi, é o último dos seres humanos neste país mental chamado Emirados Sáderes. Um ex-esquerdista trata Stálin como totalitário. Já um comunista renitente, entendo, não. Este reconheceria, suponho, a grande obra do “Guia Genial dos Povos”.
.
Uma das táticas adotadas pelos comunistas durante um período de vigência da Terceira Internacional foi se associar à burguesia para ir corroendo o sistema por dentro. Descobri: Sader está querendo entrar no Caiçaras para fazer um trabalho de conscientização dos companheiros burgueses que freqüentam o lugar.Estou decepcionado. Eu apostava que o negócio dele era se divertir no Centro Recreativo da Favela do Buraco Quente. Mas vá lá: um consultor da Petrobras merece, em nome do povo, dividir a sombra e a água fresca com a burguesia — até o dia em que vai expropriá-las.
.
Assim é o mundo nos Emirados Sáderes...