Por Carlos Chagas, na Tribuna da Imprensa
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BRASÍLIA - Não foi apenas no imperdível "1984" que George Orwell criou um dos mais contundentes libelos contra o comunismo de Stalin. Menos pretensioso, mas igualmente demolidor, o genial inglês também massacrou a União Soviética com "A revolução dos bichos", sátira à igualdade utópica acontecida quando, numa fazenda, os animais resolvem assumir o poder. O pressuposto era de que seriam todos iguais, sem a exploração do fazendeiro, mas rapidamente os porcos tomam conta de tudo, exploram ainda mais os bois, as ovelhas, as galinhas, os patos e os cães, concluindo que todos eram iguais, porém, alguns, mais iguais do que os outros...
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Discriminação não se justifica
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Essa história vem à lembrança com a preparação da coalizão partidária de apoio ao segundo governo Lula. Do Palácio do Planalto surgem informações sobre a constituição de um tal conselho político, composto pelos presidentes dos partidos dispostos a respaldar o governo. PT, PMDB, PC do B, PDT, PSB e penduricalhos participariam do colegiado destinado a discutir e até a elaborar políticas públicas junto com o presidente. Todos seriam iguais. No entanto, estão liminarmente excluídos do conselho os presidentes do PTB e do antigo PL, agora PRB.
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Esses dois partidos contribuiriam com seus votos no Congresso, da mesma forma que os outros, mas seus dirigentes maiores não teriam assento no conselho político. Porque se chamam Roberto Jefferson e Waldemar da Costa Neto. O primeiro, desafeto do governo e de Lula, que destampou a lata do lixo do mensalão. O outro, por ter renunciado ao mandato para não ser cassado por corrupção, agora reeleito mas mantido a distância por questões de profilaxia.
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Por mais que se explique a discriminação, à luz da igualdade ela não se justifica. Os dois partidos votarão com o governo, terão representantes no ministério, mas seus presidentes estão excluídos. Motivos pessoais existem de sobra, mas como explicar-lhes a ausência em termos políticos? Trata-se de um perigoso precedente, porque quem garante que o presidente não perderá a paciência com Michel Temer, em especial se ele continuar à frente do PMDB? Ou se não concordar com a volta de Ricardo Berzoni à presidência do PT?
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Nos tempos do regime autoritário seria fácil resolver. Bastaria editar mais um casuísmo, estabelecendo não poderem participar do conselho parlamentares que tivessem sido cassados ou que tivessem renunciado para não ser cassados. Mas o autoritarismo passou e o regime é democrático, pautado pela igualdade...
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Os movimentos sociais
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Nesta semana o presidente Lula estará se desdobrando em entendimentos políticos, recebendo líderes de diversos matizes e conversando com representantes dos movimentos sociais. Uns, para celebrar acordos de apoio parlamentar. Outros, para reafirmar diretrizes sociais. O problema está em que todos entrarão no Planalto dispostos a pressionar o chefe do governo para obter vantagens. No caso dos partidos, vagas no ministério e cargos de primeiro escalão, pleito considerado até natural, apesar de muitas vezes indigesto.
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Quanto aos movimentos sociais, porém, abre-se um alçapão capaz de levar para as profundezas montes de bons propósitos governamentais. João Pedro Stédile, por exemplo, chefe do MST, já anunciou a disposição de exigir do presidente Lula maior empenho para a realização da reforma agrária. Até aí o diálogo poderá desenvolver-se, mas em seguida dividem-se as águas.
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Os partidos poderão ameaçar que votarão contra o governo, caso não contemplados com os ministérios que almejam. Mas qual a ameaça dos sem-terra, sem bancada parlamentar? Mais invasões, muitas extemporâneas, como de prédios públicos e até do próprio Congresso, como já aconteceu. Sem falar em fazendas produtivas.
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Se é para promover o espetáculo de crescimento nos próximos quatro anos, deve cuidar-se Lula para evitar fissuras em seu dito pano de fundo. Porque o MST, sem nenhuma estranheza por parte da sociedade, interrompeu as invasões no período pré-eleitoral, pretendendo não prejudicar a campanha da reeleição. Mas agora começou a enviar a conta, como aconteceu no porto de Maceió e no interior do Paraná, semana passada. Essa será a mensagem dada de viva voz por João Pedro Stédile. E a resposta do presidente Lula?
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BRASÍLIA - Não foi apenas no imperdível "1984" que George Orwell criou um dos mais contundentes libelos contra o comunismo de Stalin. Menos pretensioso, mas igualmente demolidor, o genial inglês também massacrou a União Soviética com "A revolução dos bichos", sátira à igualdade utópica acontecida quando, numa fazenda, os animais resolvem assumir o poder. O pressuposto era de que seriam todos iguais, sem a exploração do fazendeiro, mas rapidamente os porcos tomam conta de tudo, exploram ainda mais os bois, as ovelhas, as galinhas, os patos e os cães, concluindo que todos eram iguais, porém, alguns, mais iguais do que os outros...
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Discriminação não se justifica
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Essa história vem à lembrança com a preparação da coalizão partidária de apoio ao segundo governo Lula. Do Palácio do Planalto surgem informações sobre a constituição de um tal conselho político, composto pelos presidentes dos partidos dispostos a respaldar o governo. PT, PMDB, PC do B, PDT, PSB e penduricalhos participariam do colegiado destinado a discutir e até a elaborar políticas públicas junto com o presidente. Todos seriam iguais. No entanto, estão liminarmente excluídos do conselho os presidentes do PTB e do antigo PL, agora PRB.
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Esses dois partidos contribuiriam com seus votos no Congresso, da mesma forma que os outros, mas seus dirigentes maiores não teriam assento no conselho político. Porque se chamam Roberto Jefferson e Waldemar da Costa Neto. O primeiro, desafeto do governo e de Lula, que destampou a lata do lixo do mensalão. O outro, por ter renunciado ao mandato para não ser cassado por corrupção, agora reeleito mas mantido a distância por questões de profilaxia.
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Por mais que se explique a discriminação, à luz da igualdade ela não se justifica. Os dois partidos votarão com o governo, terão representantes no ministério, mas seus presidentes estão excluídos. Motivos pessoais existem de sobra, mas como explicar-lhes a ausência em termos políticos? Trata-se de um perigoso precedente, porque quem garante que o presidente não perderá a paciência com Michel Temer, em especial se ele continuar à frente do PMDB? Ou se não concordar com a volta de Ricardo Berzoni à presidência do PT?
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Nos tempos do regime autoritário seria fácil resolver. Bastaria editar mais um casuísmo, estabelecendo não poderem participar do conselho parlamentares que tivessem sido cassados ou que tivessem renunciado para não ser cassados. Mas o autoritarismo passou e o regime é democrático, pautado pela igualdade...
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Os movimentos sociais
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Nesta semana o presidente Lula estará se desdobrando em entendimentos políticos, recebendo líderes de diversos matizes e conversando com representantes dos movimentos sociais. Uns, para celebrar acordos de apoio parlamentar. Outros, para reafirmar diretrizes sociais. O problema está em que todos entrarão no Planalto dispostos a pressionar o chefe do governo para obter vantagens. No caso dos partidos, vagas no ministério e cargos de primeiro escalão, pleito considerado até natural, apesar de muitas vezes indigesto.
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Quanto aos movimentos sociais, porém, abre-se um alçapão capaz de levar para as profundezas montes de bons propósitos governamentais. João Pedro Stédile, por exemplo, chefe do MST, já anunciou a disposição de exigir do presidente Lula maior empenho para a realização da reforma agrária. Até aí o diálogo poderá desenvolver-se, mas em seguida dividem-se as águas.
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Os partidos poderão ameaçar que votarão contra o governo, caso não contemplados com os ministérios que almejam. Mas qual a ameaça dos sem-terra, sem bancada parlamentar? Mais invasões, muitas extemporâneas, como de prédios públicos e até do próprio Congresso, como já aconteceu. Sem falar em fazendas produtivas.
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Se é para promover o espetáculo de crescimento nos próximos quatro anos, deve cuidar-se Lula para evitar fissuras em seu dito pano de fundo. Porque o MST, sem nenhuma estranheza por parte da sociedade, interrompeu as invasões no período pré-eleitoral, pretendendo não prejudicar a campanha da reeleição. Mas agora começou a enviar a conta, como aconteceu no porto de Maceió e no interior do Paraná, semana passada. Essa será a mensagem dada de viva voz por João Pedro Stédile. E a resposta do presidente Lula?