quinta-feira, dezembro 07, 2006

Para Ipea, Brasil cresce só 2,8%

Correio Braziliense
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O arrefecimento da economia levou o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) a mais uma vez reduzir sua previsão de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) para este ano. Depois de baixar a projeção de 3,8% para 3,3% em setembro, os economistas da instituição divulgaram ontem um boletim diminuindo ainda mais a estimativa, agora para 2,8%. O cálculo fica abaixo do oficial, feito pelo Ministério do Planejamento, que projeta uma expansão de 3,2% em 2006. Pela primeira vez este ano, o Ipea está ainda mais pessimista que o mercado financeiro, para quem a economia vai crescer 2,86% em 2006.
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Para o próximo ano, o instituto manteve os 3,6% previstos no boletim anterior, mas olhando o quadriênio 2007-2010 traçou um cenário que joga por terra as pretensões do presidente Lula de crescer 5% ao ano durante seu segundo mandato. De acordo com o Ipea, mesmo que o investimento cresça em média 10% ao ano e a economia tenha ganhos médios de produtividade de 1% ao ano — desempenho muito superior ao dos últimos anos —, o PIB brasileiro não conseguirá evoluir, na média, mais do que 3,7% anuais até 2010.
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Se por ano a produtividade crescer 0,5% e o investimento 5% — desempenho semelhante ao do período recente —, o potencial de crescimento do PIB entre 2007 e 2010 seria de apenas 3% ao ano. Para 2006 e 2007, o Ipea projeta uma alta de 6% e 7,4% nos investimentos, respectivamente. “Os 5% previstos pelo governo são muito diferentes da realidade que se coloca. O PIB potencial está mais próximo de 3%, e não vai crescer enquanto o país não for capaz de atrair investimentos de longo prazo, o que só vai acontecer se forem feitas reformas estruturais”, defende o economista Maurício de Souza, da consultoria Gouvêa de Souza.
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“As simulações indicam que, para que seja possível elevar de forma sustentável a taxa de crescimento, é fundamental implantar medidas capazes de incentivar o aumento dos investimentos e da produtividade. No entanto, mesmo supondo cenários otimistas para ambas as variáveis, o avanço do produto potencial não responde de forma rápida”, sustenta o economista José Ronaldo de Castro Souza Júnior, da Diretoria de Estudos Macroeconômicos do Ipea..Para ele, mudanças na política monetária não devem ser vistas como solução para o baixo crescimento do país. É necessário cortar gastos públicos e reduzir a carga tributária. “Como um crescimento acima do potencial pressiona o nível geral de preços, e como a ocupação da capacidade ociosa, especialmente na indústria, tende a ocorrer de forma rápida, dadas as taxas projetadas de crescimento para a demanda doméstica, o crescimento efetivo do PIB dificilmente será muito maior do que o potencial.”
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Ao justificar a redução da previsão para 2006, o Ipea sustenta que “as maiores frustrações vieram de um crescimento menos dinâmico do setor industrial”.
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Para 2007, o Ipea aponta a “aceleração da atividade econômica no final deste ano, a perspectiva de continuidade da redução dos juros, mesmo que em ritmo mais gradual, e o cenário externo ainda favorável”. A expansão de 2007, estimada em 3,6%, será puxada pela indústria (4,7%) e pela agropecuária, que .teve sua projeção revisada de 2,3% para 4,4% .
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Dúvidas
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Na avaliação do professor de economia da USP Fábio Kanczuk, a conjuntura brasileira não permite ao país crescer 5% ao ano. “Não sei de onde tiraram essa história de 5%. Se o governo reduzir juros e afrouxar o controle da inflação, cresce isso em um ano, mas depois a economia desanda”, afirma. Para ele, até mesmo um crescimento médio de 3,7% é uma projeção muito otimista. “Para mim, nas atuais condições o PIB não vai se expandir em um ritmo superior a 3% ao ano. Acima disso, precisa de reformas como a da Previdência e de corte de gastos públicos.”
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“O Estado brasileiro gasta o equivalente a 40% do PIB e tem uma carga tributária que já está em 37%. Ou seja, não há muito espaço para investimentos”, alerta Antonio Carlos Assumpção, professor de economia do Ibmec-RJ. Segundo ele, desses 40%, praticamente 39,5% vão em custeio, consumo e programas de transferência de renda. Apenas 0,5% é investimento. “É raro um país crescer 5% ao ano com uma taxa de investimento de apenas 20% do PIB (entre investimentos públicos e privados). Seriam necessários pelo menos 26%, o que não se consegue de uma hora para outra.”