por Paulo Moreira Leite, Estadão
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A reeleição de Hugo Chávez por uma margem de 20 pontos percentuais não é uma surpresa. Eleito em 1999, vitorioso em todas as eleições e referendos realizados desde então, Chávez é o principal beneficiário da alta mundial do preço do petróleo, que subiu 600% desde sua posse e não dá sinal de que vá diminuir em breve. Seu adversário recebeu uma votação um pouco inferior a 40%, num sinal importante de que a oposição deixou de ser uma força política nula -- mas segue longe de aparecer como uma alternativa real de poder.No passado fiz duas entrevistas com Chávez. A primeira, em Caracas, no dia em que os venezuelanos votaram uma nova Constituição. A segunda, no Quebec, quando os presidentes de todo o Continente se reuniram para discutir a Alca. Duas impressões me parecem relevantes. Sem ser um intelectual, Chávez me pareceu um presidente com leitura e conhecimento dos assuntos de governo. Também possui um raciocínio rápido, de quem sabe aonde quer chegar -- e, embora faça questão de não deixar perguntas sem resposta, não muda de argumento para agradar ao interlocutor.
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A reeleição de Hugo Chávez por uma margem de 20 pontos percentuais não é uma surpresa. Eleito em 1999, vitorioso em todas as eleições e referendos realizados desde então, Chávez é o principal beneficiário da alta mundial do preço do petróleo, que subiu 600% desde sua posse e não dá sinal de que vá diminuir em breve. Seu adversário recebeu uma votação um pouco inferior a 40%, num sinal importante de que a oposição deixou de ser uma força política nula -- mas segue longe de aparecer como uma alternativa real de poder.No passado fiz duas entrevistas com Chávez. A primeira, em Caracas, no dia em que os venezuelanos votaram uma nova Constituição. A segunda, no Quebec, quando os presidentes de todo o Continente se reuniram para discutir a Alca. Duas impressões me parecem relevantes. Sem ser um intelectual, Chávez me pareceu um presidente com leitura e conhecimento dos assuntos de governo. Também possui um raciocínio rápido, de quem sabe aonde quer chegar -- e, embora faça questão de não deixar perguntas sem resposta, não muda de argumento para agradar ao interlocutor.
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Embora falasse mais em boliviarianismo do que em socialismo, mais em "pueblos de América Latina e Caribe" do que em Fidel Castro, era uma voz fora da melodia geral dos vizinhos.
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De todos os presidentes que se encontravam naquela reunião no Quebec, por exemplo, creio que apenas ele e George Bush permanecem em seus cargos. A cenário político do Continente também mudou -- e há mais chefes de Estado próximos de Chávez do que na época. Lembro que ele foi uma voz solitária que, nas discussões comerciais, portava-se como adversário da Alca, no estilo de quem pretendia registrar princípios. Foi tratado como personagem folclórico mas hoje não ficaria na mesma situação, até porque o governo americano abandonou a idéia de uma área comum de livre comércio para arrancar acordos em separados com as economias menores do continente.
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Com o aumento do preço do petróleo, o chavismo alimenta sua popularidade dentro e fora do país. Ainda que o presidente venezuelano tenha se mostrado um cabo eleitoral até prejudicial no Peru e no México, construiu uma área de influência que ninguém poderia imaginar nos primeiros anos de governo.Economista e profeta do desenvolvimento do continente nos anos 60 e 70, o professor Celso Furtado costumava comparar a alta dos preços do petróleo à "chuvas de ouro", que ofereciam oportunidades imensas e desafiadoras aos governantes de países beneficiados.
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Desiludido com promessas de um progresso que nunca chegou, um dos mais conhecidos dirigentes da PDVSA, a gigantesca estatal venezuelana do petróleo, definia a matéria-prima como "excremento do diabo", pelas ilusões que produziam em governantes, beneficiários de lucros rápidos e fáceis, pois definidos pela demanda internacional.
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Chávez vive hoje a fase da "chuva de ouro" e a dúvida é saber se a Venezuela poderá evitar o "excremento do diabo." Tem um aspecto favorável: o aumento no preço do petróleo apoia-se num aumento da demanda de países consumidores, e não numa ação política de produtores --o que faz dele uma tendência de duração mais longa.
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A incógnita consiste em sua capacidade para usar os ganhos do petróleo para mudar o perfil da economia de seu país, até hoje dependente de uma única matéria-prima. A maioria dos estudos mostra que países dependentes de petróleo raramente conseguem mudar essa condição: na África, na Asia e na América Latina geram governantes cuja popularidade é diretamente proporcional aos preços do petróleo, subindo e descendo de acordo com seus movimentos no mercado internacional.