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Kofi Annan deixou como legado à nova agenda da ONU (Organização das Nações Unidas) a preocupação com o "conflito das civilizações" e a viabilidade de que as guerras religiosas se transformassem na marca do século entrante, em seqüência à catástrofe de Manhattan e aos impasses militares no Afeganistão e no Iraque. Mas essa inquietude não fica apenas no embate entre o islã e o Ocidente, tanto este viesse também a se corporificar num fundamentalismo neoconservador que levou o Salão Oval à vindita erradicadora contra a Al Qaeda -com o risco de confundi-la com uma desconfiança radical com o mundo muçulmano- e a irrupção do novo terrorismo do século que ora se abre.
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A demissão sumária do ex-secretário de Defesa dos Estados Unidos Donald Rumsfeld mostrou, de parte de George W. Bush, a consciência do excesso diante da derrubada eleitoral republicana. Mas não abre caminho a uma reviravolta da ocupação militar do Oriente Médio pela nova onda centrista dos democratas, que ganhou as eleições em 7 de novembro.
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A demissão sumária do ex-secretário de Defesa dos Estados Unidos Donald Rumsfeld mostrou, de parte de George W. Bush, a consciência do excesso diante da derrubada eleitoral republicana. Mas não abre caminho a uma reviravolta da ocupação militar do Oriente Médio pela nova onda centrista dos democratas, que ganhou as eleições em 7 de novembro.
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Estabelece-se como um consenso a retirada gradual das tropas norte-americanas do Iraque -e alguns estrategistas já declaram nesses dias que a saída poderá levar dez anos e implicará uma força americana agora acrescida para 200 mil combatentes.
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Entramos num novo quadro de conflitos internacionais tão distintos das guerras frias, já que a hegemonia norte-americana enfrenta uma confrontação anônima, generalizada e incontrolável de combatentes suicidas explodindo ônibus ou se lançando como granadas vivas contra os ocupantes de Bagdá. A comissão das Nações Unidas, recém-reunida em Istambul (Turquia), distinguiu claramente das violências ditas terroristas as lutas pelos separatismos nacionais nesse novo conflito letal com o Ocidente, visto como reação do inconsciente coletivo da cultura islâmica à terraplenagem da modernização, acompanhada pelo massacre mediático e pelo controle, cada vez maior, do imaginário por um aparelho mundial de comunicação.
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Recomendou a comissão da Organização das Nações Unidas a quebra desse monopólio e saudou a chegada da rede de TV árabe Al Jazira em inglês a todo o Hemisfério Ocidental, tal como Rupert Murdock pleiteia que a Fox News seja a sua contrapartida no mundo islâmico.
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O que está em causa é, a partir da multiplicidade da informação, o vencer-se os estereótipos e as idéias feitas de que se nutrem os fundamentalismos, na sua irracionalidade, e a "civilização do medo", como sua conseqüência inevitável. Até onde a insistência na plataforma do universal de reconhecimento dos direitos humanos, ainda de pouca monta no mundo islâmico, é a verdadeira prioridade para o desarme do mundo das desconfianças sem volta?
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Ou para o despropósito da crise das caricaturas e do repúdio às declarações de Bento 16, em comentário incidente sobre o teor do missionarismo do profeta, a levar à irrupção de novos fundamentalismos, para além do que nos deixa à beira da "guerra das civilizações"?
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Onde está o novo Muro de Berlim do século 21 e até onde os latinos mexicanos se arriscam a enfrentar uma cidadania de segunda classe ao passar a fronteira, como pretende a legislação que os democratas vão coibir no Congresso americano?
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E o que leva os Estados Unidos a rejeitarem ainda o Hamas como grupo terrorista depois de ele ter ganho as eleições na Palestina? A democracia é ou não um universal?
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Esbarrar na contradição é o preço de não aceitar a coexistência nas diferenças, tal como a hegemonia é o adubo do terrorismo sem volta.
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(*)CANDIDO MENDES , 78, membro da Academia Brasileira de Letras e da Comissão de Justiça e Paz, é presidente do "senior Board" do Conselho Internacional de Ciências Sociais da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura).
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(*)CANDIDO MENDES , 78, membro da Academia Brasileira de Letras e da Comissão de Justiça e Paz, é presidente do "senior Board" do Conselho Internacional de Ciências Sociais da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura).