sexta-feira, dezembro 15, 2006

Mais uma decepção

A decepção preponderou diante dos resultados, divulgados na semana passada, da pesquisa do IBGE relativa ao desempenho da produção industrial brasileira em outubro.
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Sabendo-se que greves no setor automotivo haviam prejudicado a produção em setembro, era generalizada a expectativa de que haveria uma recuperação expressiva em outubro. Mas a recuperação observada ficou aquém do que projetavam os analistas: o aumento da produção da indústria como um todo, sobre setembro, limitou-se a 0,8%, o que nem sequer compensa a queda de 1,1% verificada naquele mês.
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E o parco crescimento de outubro deveu-se apenas aos itens de consumo, pois a produção de bens intermediários e de bens de capital foi menor do que no mês de setembro.
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Os maus resultados dos produtos intermediários -insumos em geral- vêm se sucedendo. Já em setembro sua produção havia recuado e, nos últimos 12 meses, sua alta se limita a 1,7%, bem abaixo do ritmo da indústria como um todo. É mais um indício eloqüente de que, em proporção ainda maior que nos demais setores da indústria, a apreciação do real está redundando numa perda de espaço da produção doméstica para as importações.
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No caso dos bens de capital, o resultado negativo pode ter sido episódico. Afinal, a produção do setor foi 9% superior à de outubro de 2005 e acumula alta, nos últimos 12 meses, de 5,5% (em comparação com os 12 meses anteriores). Além disso, as importações de bens de capital crescem com muita força.
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Esses números indicam que, embora em ritmo lento, o investimento produtivo cresce. A propósito, a Confederação Nacional da Indústria apurou que o nível de uso da capacidade produtiva recuou de 82,2% para 81,8% entre setembro e outubro. Com esse desempenho, a despeito de pressões temporárias provenientes da recuperação nos preços dos alimentos e nos transportes públicos, afastam-se fatores que poderiam levar a uma aceleração inflacionária.
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O próprio Copom (Comitê de Política Monetária), apesar da falta de unanimidade na decisão sobre a queda de meio ponto percentual na taxa básica de juros em novembro, reconheceu que o cenário para a trajetória da inflação continua benigno. Isso enfunou os ânimos da corrente de mercado que quer a continuidade do ritmo de redução da Selic (0,5 ponto percentual a cada seis semanas). Em conseqüência, os juros futuros passaram a sinalizar forte queda.
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Os dados da produção industrial e do comportamento da inflação convergem ao apontar a necessidade de o Banco Central manter o ritmo de corte da Selic. Meio ponto a menos a cada seis semanas é o mínimo para tentar redespertar a atividade econômica brasileira -excepcionalmente catatônica num mundo que há quatro anos cresce a um ritmo fortíssimo.